Confissão


Burburinho de água de riacho tristonho e zombeteiro,
Água de riacho refletindo solidão e sombras tremulantes.

Pela água o pássaro passa voando no céu,
A solidão do pássaro na água do céu.

O riacho no chão, o pássaro pousa, 
O céu no céu, o pássaro, não.


Clarice e U2

Queria ler e ouvir música ao mesmo tempo, Clarice e U2.

Ler Clarice requer um bocado de atenção, não a acadêmica e esquecível, mas a atenção dos mesmos olhos que veem o mar pela primeira vez.
Cada parágrafo de Clarice, cada virada de ideia, cada virada de página, é um degrau acima numa falível hierarquia humana.


Lê-la é achatar o céu para pousar os pés olhos corpo e deixar que a mente se afeiçoe cada vez mais à magia das palavras gráficas.
Lê-la é evoluir para melhorar a espécie, apreciar o belo não pelo óbvio estético, mas pela satisfação do belo súbito, do maravilhoso inusitado, do que os ingleses chamam de serendipity.


O som do U2 não tem culpa, mas é impossível ficar imune aos timbres da guitarra do The Edge. Ele é um alquimista sonoro-eletrônico, dos bons.

Gostaria que combinasse com a leitura de Clarice, mas a vibração do som nas moléculas de ar ocupam todo o espaço do ambiente ao redor, assim com ler Clarice ocupa todo o espaço do vácuo do ambiente interno. Os ambientes se estranham, uma pena.

Mas há a pena que se empenha em explicar tal pesar. Então um de cada vez, como num jogo de prazeres.



Por enquanto...

Lista de livro, no way

Lista de livro pra ler no ano seguinte. Nada a ver.

Um livro chama o outro.

Num dia, crônicas de João Ubaldo. Quer mais, quer mais crônicas e acha um de pequenos contos do Guimarães Rosa e aí você tá conversando com um amigo e aparece um escritor russo do começo do século XX que você nunca ouviu falar só porque o cara escreve sobre os sertões da Sibéria com a mesma maestria do nosso Rosa.

Na semana seguinte, o russo.

Aí alguém fala de Boris Pasternak, outro russo, e o livro/filme Dr. Jivago e o papo fica ao redor de cinemão da era de ouro de Hollywood e acaba na sexta-feira lendo sobre os bastidores das filmagens do Godfather do Copolla. E assiste Pulp Fiction, do Tarantino.

Daquele escritor russo do mês passado, sobrou um filme que foi baseado no livro e foi dirigido pelo Kurosawa. Acha num sebo um de haiku e koans zen budistas e fica flutuando 10 cm acima do nível das colchas. Aproveita e encaixa um Quintana, um Tornaghi e aqueles poemas que o amigo mandou pra você dar uma olhada e soltar uns pitacos.

Iwata shi, Japão. Numa onda entre Guimarães Rosa e Kurosawa.

Termina o Quintana, pensa nos gaúchos e começa a rir com Luiz Fernando, embalado pelas crônicas do João Ubaldo de dias atrás. Depois, ainda gaúcho, tira a poeira do uruguaio Galeano e fortalece seus vínculos com a madre américa. E vai. E volta. Nessas idas, Allen Ginsberg e a melancolia poética do asfalto da outra américa.

No meio da primavera está sentado na varanda gargalhando com aqueles dois Asterix que sempre são a poção mágica.

Axterix chama Baudelaire.

E.

Frio dozinfer parte 2

Vento animal vindo de tudo quanto é lado.
Vento sacana que entra no miolo das roupas até encostar na pele e feito navalha de Plínio, corta as carnes sem dó, sem pensar no calor de um mísero palito de fósforo.

Cheguei em casa agora.
Sai do trampo e fui ali no mercado comprar tomate-cereja.


Naquela geladeira-prateleira de queijos e iogurtes e leites e picles e essas coisas, estava quentinho, aconchegante, quase um spa na Bahia.

Tem a parte dos peixes que no Japão é uma prateleira quilométrica e dava até pra pegar um bronzeado e escolher um sashimi de atum.

Geladeira quente, maravilha.

Peguei-paguei o tomate-cereja em copo - comprei porque estava num copo, claro - e saí para o estacionamento, puta merda, congelei de novo.

Não está nevando, nem com ares de geada, nada disso. E também acho que quando neva o frio não é tão intenso, deve ser porque quase nunca neva por aqui e quando acontece a gente fica todo bobo tirando foto.

E desde novembro, no começo desse inverno eu acho que o inferno é um lugar gelado com todo mundo de sunga e blusa de lã molhada com estalactites caindo na cabeça pela eternidade  gelada.

E olha que eu gosto de frio.
Bem, gostava.

Puta frio dozinfer

Gelo gelado.

Frio pra caralho.

Pra caralho!

Sem essa de noite feliz.

Nesse frio o natal é uma merda de frio,

frio pra caralho.

Vizinhos


É um casal de velhinhos simpáticos e calados que atravessam a rua para cuidar da horta que tem cenouras, nabos, cebolas e berinjelas. De vez em quando eles colocam num cantinho ali e vendem por 100 yenes (2,50 reais) um saquinho com cinco ou seis. É, a vida não anda fácil.

Me encontro com o velhinho nas terças, quando jogamos o lixo queimável. Dizemos apenas bom dia. Algumas vezes, apenas nos cumprimentamos com a cabeça. Ele vem com o carrinho de mão carregando os sacos de lixo, isso já faz alguns meses. Deve ser a dor na coluna, ele tem andado mais curvado ultimamente.

Ele dirige mal, já não enxerga bem. Esse murinho à esquerda com tijolos aparentes tem bons e nítidos riscos na altura de um para-choque.

Quando a velhinha está estacionando o Suzukinho, é melhor dar a volta no quarteirão, principalmente se for à noite. Nas noites de verão quando eu saia mais assiduamente pros rolês de bike, eu a via tentando estacionar, não conseguindo e finalmente telefonando para ele, que saia de casa, vinha até a rua e fazia os sinais de vem e pára até que começassem a discutir sobre os procedimentos de ré e pra que lado do volante girar e dois ou três carros parados esperando pacientemente pelo entrave até que sabiamente, a velhinha deixa o velhinho sentar ao volante e estacionar, raspando o muro, evidentemente.

Numa dessas noites de verão a vi descarregando vasos de ikebanas.

É muito comum nos centros culturais dos bairros acontecerem diversos cursos para os moradores, idosos ou não. São cursos de ikebana, manuseio de computador, ginástica, música, dança havaiana, inglês, outros. Tem até português.

Os preços variam, podem ser o equivalente a quatro ou cinco saquinhos de berinjela por aula. Nesses centro culturais também há quadras poliesportivas e muitos brasileiros alugam para vôlei  basquete e futebol de salão. Não mais que as tais berinjelas por cabeça.

A única ordem pétrea é limpar o local de uso, quadra ou classe, varrer, passar o pano de chão com os rodões, guardar as traves, enrolar as redes e entregar as chaves na hora prevista. Simples como ter os impostos sendo usados de maneira correta pelo estado. Um dia a gente vai entender  melhor esse conceito e aplicar com qualidade no nosso dia-a-dia no Brasil.

Hoje de manhã saí para dar um rolê de bike, apesar do frio e vento, o sol convidava. Na ida, não havia a bandeira japonesa no alpendre da entrada da casa dos velhinhos. Eu já sabia que no dia 23 de dezembro comemora-se o aniversário do Imperador Akihito. Quando voltei, encontrei a bandeira a meio mastro. Fiquei preocupado. Logo pensei na morte do Imperador, no começo do ano ele passou por diversas cirurgias, afinal é um homem de 79 anos, enfim.

Entrei em casa e liguei a tv. Nada.

Depois percebi que a bandeira estava a meio mastro porque eles não alcançam o topo. Simples.

O post é só isso

Recebi um e-mail assim:

Bicampeão! Cadê o post?

Camilo


A emoção foi tão essa mesma, Camilo, que esqueci.



Ansiedade de catraca

Dorme no sábado com o ingresso no carteira e a carteira na calça e a calça na cadeira e confere a carteira na calça na cadeira pela terceira vez pra ver se o ingresso está lá.
Está.
Escolhe a camisa, vai de branca Batavo, pousa suavemente sobre a calça na cadeira.

Dorme.
Acorda domingo e confere a carteira. Tudo em cima, sempre.
Café da manhã, tv ligada, quer saber se tem alguma novidade no trânsito, no tempo, na vida.
Nada, tudo igual a um céu claro,
domingo de restaurantes lotados,
praças e folguedos, parques e algodão doce.
Churras gargalhada e tulipas lotadas.

Pega o metrô com os amigos e os amigos dos amigos do amigo dos amigos.

Cantoria e batucada, em cada coração o guerreiro do cavalo branco matando o dragão.

Cantoria e batucada e batucada e cantoria.

O Zé, o Migué o Mané, o José, o Miguel e o Manuel. Bandeiras! Alvinegras!
Os remos cruzados no brasão das tradições e glórias mil.
O Gavião. As listras paulistas, a âncora vermelha,

1910

O Sport
o Club
o Corinthians
o Paulista

O coração bate tanto que parece um zunido.
Bate a mão na bunda e encontra a carteira e confere se o ingresso está lá.
Na catraca do nosso estádio municipal o zunido está na velocidade da luz, a garganta está seca,
a cabeça sem dono e sei lá.

Passa pelo funil, o brilho que só o Pacaembu tem entra pela retina e vira um grito que vai durar noventa minutos, noventa séculos, noventa mil gols.

Faz coro ao primeiro canto de guerra que ouve, se ajeita onde dá, agora só quer ver o Timão sair do túnel e a vida, bem, por enquanto, deixa pra lá.

O nome do China

Pro Marcinho eu era o Coreba. Ele dizia que eu não era japonês, mas coreano. O Marcinho é mineiro de muito longe, lá do Jequitinhonha.

Nunca fui pra Coréia e acabei vindo pro Japão e conhecendo um chinês maluco que diz que eu sou maluco.

Quando a gente está no Brasil e encontra alguém do Extremo Oriente e acha que ele é exótico, bem, exótico é encontrar o cara do Extremo Oriente no extremo oriente, tipo na última estação do Expresso Oriente, mais ou menos onde a Agatha Christie diz quem é quem.

Li em algum lugar que apesar da China ter uma população dez vezes maior que os 128 milhões de japoneses, o número de sobrenomes na China é de apenas 4000 e no Japão, entre 80 a 100 mil.

Meu sobrenome é Schimada (島田), mas existe Tajima (田島), ou seja, basta inverter os ideogramas, por isso essa multiplicação de sobrenomes no Japão.

Veja, são um bilhão de chineses com apenas 4000 sobrenomes. Repetem e repetem e repetem.

O sobrenome mais comum é Wang. São 90 milhões de Wang na China, quase meio Brasil.

Só em Beijing, são 10 mil Wang Tao.

Na China, o legal é ter um nome com apenas dois ideogramas. Quando vão registrar o bebê, eles verificam se na região não há algum xará. Como por lá tudo é superlativo (é!), encontram sempre uns 300, só naquela rua. Então o escrivão diz que não dá. Colocam mais um ideograma e encontram apenas  130, então tudo bem.

Os ricos geralmente têm dois ideogramas porque abrem a carteira.

Outro dia perguntei ao Dragon (蒋朝龙, Jiang Zhaolong, Dragão Matinal) se ele tinha alguns amigos com nome de Mao Tse Tung ou Lao Tsu ou Kun Fu Tzu, ele disse que era proibido, que apenas esses grandes homens poderiam chamar-se assim. Ficou bravo. Na verdade ele fica bravo toda hora. Por lá deve ser comum ficar bravo à toa.

Tampouco conheço Jesus ou Sidarta ou Krishna. E também só conheço um Ariano Suassuna e um Francisco Buarque de Hollanda, por exemplo.

O chinês mais famoso do Brasil é o Zizao, meia atacante do Corinthians. O Dragon nunca ouviu falar dele. Mandei foto, vídeo, não adiantou.

O Dragon ficou muito bravo quando descobriu que dragão é gente feia no Brasil. Eu disse que homem dragão é o cara que fala alto, fortão e que a mulher dragão é feia. Ele gostou, desconfiado, mas gostou.

O Dragon faz estágio onde trabalho. Se ele souber que estou falando dele, ele vai ficar muito bravo. Esqueçam tudo.

Fuleco?



O mascote da Copa de 2014 é um tatu-bola.

Deram o nome de Fuleco pro bichinho.

Coisa de cu.

Fuleco é uma mistura de FUteboL + ECOlogia.

Coisa de cu de burro.

Mais futebol e ecologia que TATU-BOLA é impossível, cu de burro.

Como disse o meu amigo radialista, daqui a pouco vão começar o slogan "VOLTA TEIXEIRA".

Nem.

Mas Fuleco é de doer. O Ricardo voltar é pior.

Na verdade, o mato tá sem cachorro e praticamente ficando sem mato.


Preto e branco em technicolor



Seremos dez mil do mundo todo. 

Mais que isso, nós seremos todos os onze em campo vestidos de preto e branco com toda a América abaixo dos cascos do cavalo de São Jorge.

Jorge Henrique Guerrero é o nosso ataque. E pode ter um Sheik.

Espero que o meu grito de gol exploda muitas vezes nas duas partidas e que ecoe ecoe ecoe.


Batman

Bate covarde.
Bate martelo.
Bate omelete.
Bate tambor.
Bate bolo.
Bate prego.
bate punheta.
Bate lata.
Bate a cara.
Bate no poste.
Bate de frente.
Bate de três dedos.
Bate de trivela.
Bate de peito.
Bate de curva.
Bate de chapa.
Bate de jeito.
Bate com gosto.
Bate o sino pequenino.
Bate até virar manteiga.
Bate clara até virar neve.
Bate o reflexo do sol.
Bate o reflexo do sol no espelho.
Bate o reflexo do sol no espelho da vitrine.
Bate o reflexo do sol no espelho da vitrine na loja de roupas usadas.
Bate o reflexo do sol no espelho da vitrine na loja de roupas usadas do outro lado da rua.
Bate o reflexo do sol no espelho da vitrine na loja de roupas usadas do outro lado da rua onde moro.
Bate o reflexo do sol no espelho da vitrine na loja de roupas usadas do outro lado da rua onde moro com a minha família.
Bate o reflexo do sol no espelho da vitrine na loja de roupas usadas do outro lado da rua onde moro com a minha família naquele prédio.
Bate o reflexo do sol no espelho da vitrine na loja de roupas usadas do outro lado da rua onde moro com a minha família naquele prédio onde tinha um jardim.
Bate o reflexo do sol no espelho da vitrine na loja de roupas usadas do outro lado da rua onde moro com a minha família naquele prédio onde tinha um jardim e agora não tem mais.
Bate o reflexo direto na minha cara.
Bate o reflexo.
Bate direto.
Bate na minha cara.
Bate covarde.

Onde todo mundo é ninguém

Onde está o passado?
Os cheirosos homens de negócios?
Os carros de muitas portas, botões e brilhos?
A ralé?

Onde estão os prédios de vidros tensos?
As bonecas de pernas abertas?
As figuras de honra e terror?
O camelô?

Onde moram os disso e daquilo?
Onde plantam orquídeas e impérios?
Onde gozam sem gota de amor?
O perdedor?

Todos, todos!
Ninguém, ninguém!