É outro

Queria se jogar da ponte. Qualquer ponte. Mas onde ia ter ponte nessa hora da madrugada no meio do Atacama?
Lázaro viveu até os 98 e foi jogando bilhar.

Da Bahia

Um chapéu-de-sol faz sombra para uns dez e não deixa passar nada, nem o sol. Do outro lado da rua tem três. É o dark side. A molecada sobe naquele para ver onde foi o voadão. Conseguem ver quintais. Se subirem agora vão me ver aqui sentado falando deles.

Fico sentado na Bahia, a espreguiçadeira.

Em frente ao restaurante do Dionísio tem muita sombra também. Tem sombra de abacateiro, pessegueiro, pinheiro e pau-brasil. Tem muito mais. O Dionísio diz que enquanto estiver vivo, elas ficam de pé. Vida longa ao Dionísio.

Da sala da minha casa dá para ver o abacateiro, soberano. Quem viver, verá.

Pois o chapéu-de-sol. Tem um cara aqui na rua que tem um poodle e que não gosta dos meninos empoleirados na árvore. Podou galhos, fez um ao redor de pedras. Deve ter suas razões. Vai ver, caiu feio. E continuam subindo.

Tem um colibri que passa as manhãs nessas sombras. No telhado da casa em frente pousam quero-queros, pombas e rolinhas. Às vezes, urubus. O resto, por ignorância, chamo de tico-tico. Seguindo em frente estão as gaivotas, mas isso é outra história.


PERAS VERDES



(Deve ser tipo torradas meio murchas, duas fatias de mortadela e a maionese só raspando. Muita louça pra lavar, almoço, jantar e café da manhã. Mas deve ser tipo isso.)

De um lado o céu claro e do outro o mono cinza. Quem vencerá? Pelo opaco no muro, o sol tomou uma nos rins. Pelo reflexo no chão, vejo a sombra do pássaro que não vi. O sol ganhou por simpatia.

Comprei peras feias, meio distorcidas, parece que estão derretendo. São verdes com aquelas pintas de peras. Uma delas não tem o talo, não sei se castrada ou fêmea. Papo pera, papo sexista. A gente se expõe muito quando escreve. Vou contar mentiras, é melhor.

Todas as peras tinham talos. Quando vi na banca eram centenas delas com centenas de talos. Escolhi quatro pela cara. Fruta é pela cara que se escolhe porque não da pra morder todas e ficar com as boas. Sorvete também.

To falando em sorvete porque todo mundo sabe que sorvete de limão não mata a sede e todo mundo chupa sorvete de limão pra matar a sede. Pode olhar dentro de um carrinho desses na praia, a maioria é limão, depois maracujá e chocolate. Tudo muito ao redor da cachaça. Praia + cachaça é uma invenção do século XX, acho. Antes do descobrimento, como não tinha cachaça, os índios trocavam porrada na areia e esperavam portugueses.

Tem um fermentado de mandioca que eles fazem e que dizem, é de doido, de trocar porrada mesmo. Nosso romantismo diz que é consumido nas pajelanças quando os espíritos voltam para conversar. Não sei, acho que rolavam de rir de domingo a domingo. 

O romantismo era na oca, na rede, umbigo com umbigo.

Enquanto pagava as peras, entrou uma morena de novela no mercado e tirou os óculos de sol. Ela tinha os olhos verdes mais verdes possíveis.

Nunca vou esquecer essa cena, a morena e os verdes na minha direção. Dias assim fazem a gente rir à toa.


DEZEMBRO, ÚLTIMO



Quatro e meia e desperto com nada. Daquele jeito: porta escancarada, janela arreganhada e o céu lilás dizendo todos nós somos lindos.

Tímidos amarelos em mil tons no fim da rua, no começo do horizonte, lá onde é o mar. E o mar me chama.

Nescafé rápido de microondas arranha a garganta junto com o primeiro trago no paieiro.

Rolê rápido pra Basquiat cagar. Cagou, voltou.

Bike, eu, vento e foda-se. É o mar chamando.

Chego aqui seminu e tudo funciona perfeitamente na alma. A máquina da alma pede esse combustível.

Mar. Sal. A vida é besta sim. Mais besta é um não diante desse tesão.

Diga não que eu vou atrás mesmo assim. Diga sim e tudo bem, nos vemos no ano que vem.

Bike amarrada no poste. Mar pequeno de marolas meninas pedindo meus pés. Toma. Toma meu corpo, toma tudo e deixa a poesia, leva um ano de vida e me dá outro que eu me viro em terra firme. Mãe d’água, amém.


Sete e tantos e a cidade desperta. Estou pronto. 

NATAL UM DA ERA DE AQUARIUS


I
Nunca assisti o Roberto na Globo, nem hoje, agora. Mas daqui do quintal, ouvindo a tv, é o mesmo show de sempre.
Sem deméritos por isso. A festa dos funcionários da Globo tem o Rei por protagonista e ele não precisa provar mais nada, canta o que escreveu, set list pra agradar milhões, todo mundo conhece todas. E das antigas, a fase soul, como não gostar?

II
Desde 1989 não passava as festas no Brasil. É o calor, magnânimo calor. Lembro de porres homéricos no inverno japonês. Outros tantos no verão tropical. Não se faz um final de ano só na birita, mas fiz quando o fígado era jovem e prendado. Prendado, nem tanto, mas mais solícito e menos bundão.

III
O Natal não é feriado no Japão, não há tradições cristãs. Passa-se em branco, ou eu o passava. A grande festa é o Ano Novo e é totalmente indoor.  É o frio, magnânimo zero grau.

IV
Voltar pra casa e ver, comer, beber e rir com a família no quintal. Nada mal. É o calor, magnânimo amor.

V
Quero amanhecer 2014 na praia, ver o sol, ver Iemanjá nos cânticos e nos olhares. Todo mundo fica melhor de bermuda, ou pelo menos, sente-se melhor. Então tá, bermuda, cerveja, praia e a sensação de que tudo pode ficar melhor. Parece letra do Jorge Ben. Faltou a morena na canção e isso não é apenas uma licença poética.

VI
Vinde a mim o céu azul, disse a pipa. Ventos fortes do litoral te elevam nas mãos do garoto descalço. Bons ventos me trouxeram aqui a bordo de uma grande pipa com cineminha. Espero nunca mais esquecer esse momento, não do cineminha, mas agora agora aqui. Espero nunca mais ficar longe desse momento.


Bons momentos a todos em 2014.

Minha Rua














Minha rua não tem nada,
Tem a rua,
Tem as casas
E no meio delas
Tem calçada.

Minha rua não tem fronteiras,
Nunca acaba por que começa outra
E mais outra até que acaba no mar
E chega.

Na minha rua passam pessoas,
Carros, cães, vacas,
Cavalos e carroças que me transportam
Para a infância na zona leste
Onde o leite era na garrafa de vidro
E o leiteiro vinha de carroça
Badalando um sino.

Três moleques empinam no vento que vem do mar,
Na minha rua cabe qualquer infância,
pode chegar.

Não necessariamente

Não tinha que ter defeito,
Não tinha lugar no busão,
Não era para ser desse jeito,
Não cabe não.

Não presta, não compra, tá caro,
Não dou, não desço, nem vou,
Não curto, não compartilho, não abro,
Não olha, não olha, não olha.




Cd tesoura

Ver estrelas e não ver mais,
Os moços indo ao trabalho,
Latidos no quarteirão ao lado
E do outro lado o que acontece
Já não sei.

Basquiat madrugada adentro
Comigo no quintal,
Hoje prometi passeio,
Mas tinha futebol.

A música que corta o ar
Também corta o clima
E o clima que corta a alma
Não traduz preocupação.

Pronto, já acabou.

Em precisos momentos
Esse disco ok computer
Da banda que esqueci o nome
Pode ser a coisa mais chata do mundo.

Crise aguda.


PALMAS PRA DEDÉ


                                                 
                                                               




Mal tocou o solo com os pezinhos de felicidades pela casa e disse 


Quero voar





Foi no bailado e aprendeu dos cisnes, palcos e Fred Astaire,



Voou a vida e carregou suas nuvens prediletas 




Para nunca se cansar




E nos fazer sonhar




Em também voar.




Foto: Preta

TEMPEROS


O silêncio para plantar flores,
Voz de trovão para o fim das férias,
 Aula de canto nas cortinas brancas,
Um gol digital no home theater,
Brothers gregorianos na sala ao lado
E os vizinhos discutem o destino de viver.

Dez minutos são 0:10 mas podem ser quinze,
Água mineral engarrafada é natural,
Quase tudo está inacabado numa biblioteca,
Todos nós ultrapassamos pela direita,
Sgt. Pepper’s não é o meu favorito
E palhetas de guitarra foram feitas para sumirem.

Vozes divergem quanto ao preço das compras,
Todos divergem quanto ao preço das compras,
Hoje fui ao porto e vi um barco à deriva,
Enquanto dormimos estamos atentos ao nada,
Tão nada que preenchemos com tudo
E .


Wally?

Where’s Wally?
Está no sul do Cruzeiro do Sul?
Está vendendo poesia para comercial de xampu?
Está escolhendo palavras? Canções? Timidez?
Está incógnito domingo, 
Voando na terça 
E na quinta, francês?

Where’s Wally?
Na pizza, na gaveta, 
Nos detalhes do tatoo?
Num caco de vidro, num canto do elevador, nu?
Tocando piano, perdido no frio, sonhando venenos?


- O Wally? Tá aqui sim.

BOCHECHA ERA O NOME DO SARGENTO


Bochecha era o nome do sargento. Nome mesmo, nome de família, coisa de um ancestral sacana que achou que o filho não era dele porque era muito bochechudo, assumiu a paternidade e deu o sobrenome final de Bochecha, depois abriu a porta, saiu andando e nunca mais foi visto.
Mas o nome ficou como um brasão. Por gerações e gerações respondem:

- Tem gente por aí que se chama Pinto.
- E Sacco? Como que saco? Do Vanzetti.
- E Buceta?

Uma coisa interessante disso tudo é que o sargento Bochecha é realmente bochechudo. Muito. E não é gordo. Mas também tem gordo que não é bochechudo. A bochecha não faz o corpo, não necessariamente, não nesse caso.

Houve uma ocasião no quartel em que o pelotão entrou em ordem e o sargento caminhava de um lado a outro dando instruções. Durante a palestra contou uma piada, todos riram e no meio da gargalhada coletiva alguém gritou FOFÃO. Ele esperou todos pararem de rir e falou:

- Muito bem, senhores, muito bem. Tremendo filho da puta, mas muito bem. Não vou perder meu tempo perguntando qual dos senhores é o filho da puta de hoje. Os senhores sabem. Eu não. Mas eu chego lá. Os senhores estão certos, o silêncio é a melhor tática. Estão perfeitos. Eu digo isso porque não vou mandar me entregarem o filho da puta. Não quero traíras usando esta farda. Devo muito a esta farda, ela é a minha segunda pele. Com esta pele conheci minha namorada que hoje é a minha esposa, com esta pele me casei e vi o parto dos meus três filhos. Com esta pele vi meu mais velho receber o diploma de bacharel em direito e com esta pele verei os outros dois seguirem seus caminhos. Com esta pele estou aqui com os senhores faltando apenas dez minutos para o almoço e todos nós diante de um filho da puta. Pois vamos juntos nos focar neste filho da puta. Respeito a opinião dos senhores quanto ao silêncio. Se eu estivesse ai no meio não delataria um homem que dorme no mesmo alojamento que eu e passa o dia se aprimorando para matar o inimigo. Eu não sou burro. Não sei os senhores. Eu não delataria um homem que atira com balas do tamanho de um dedo indicador. Eu não delataria um homem que não tem nada a perder a não ser a liberdade, mas saibam os senhores que o conceito de liberdade pode ser relativo depois da execução de um ato de vingança. E também não vou mandá-los apontarem juntos para a cara desse filho da puta porque não quero homens fardados unidos numa sem-vergonhice que é a deduragem. Nesta merda só cabe o respeito e a disciplina. Nestas artérias correm respeito e disciplina.
Pois bem, senhores, vamos ao exercício. Espero que não se importem com a hora do recreio. O que é comer? O que não é comer? Hoje não vamos comer nossos almoços porque estaremos juntos nesse sol do caralho fazendo este pequeno exercício. Gomes! Grite FOFÃO!

- Senhor?
Você não me ouviu?
- Ouvi, senhor, mas...
Apenas execute a ordem, Gomes.
- FOFÃO!
Pois bem, quero que todos gargalhem e enquanto gargalham, quero que Gomes grite FOFÃO. Ao sinal de 3.
Um dois três.
O próximo, Ramos, faça a mesma coisa e todos gargalhem.
Agora o Pereira.

Ficaram assim por horas. O sargento pedia para repetirem uma, duas, até cinco vezes. Queria ter certeza, pois a voz era parecida. Sem água, gargantas secas. Os últimos homens estavam roucos de tanto forçarem gargalhadas, não conseguiam mais gritar. Bochecha nunca soube quem foi o filho da puta.


Vinte filhos da puta sabiam. 



Escrever


O Vício
Tem dia que a gente abre os olhos e só pensa em escrever. Não é lubrificar a corrente da bike, nem dar comida aos cachorros. É escrever, apenas escrever, passar a tinta no papel, teclar. Pode até fazer bolinha e jogar fora ou apagar, mas não foi em vão, foi escrito.

As Paredes
As paredes das cidades-livros. Os livros como endereços. Os endereços com reticências, casas metafóricas e os lares com nota explicativa.
Se poesias inteiras fossem escritas nas paredes das cidades, Pessoa caberia em quantos habitantes?
Quantas cidades seriam necessárias para a Paulicéia de Mário?
Dá pra ser gauche na Rua Direita?
De tintas, para Pound, quantos litros?

I Love You
Em Baby, Gal diz: leia na minha camisa i love you.

Blues
Os negros cegos do Delta não liam e nem escreviam. Não sabiam a diferença entre um P e um X. As canções eram feitas para serem ouvidas, decoradas, passadas adiante. Cada um deles carregava tanta dor de outras gerações que mesmo não entendendo quase nada do lamento, descubro no blues que a vida pode ser uma única nota esticada no final de um solo.

Poetas
Podem tudo.




FRANCISCO



Francisco mora só e na praça.
Francisco e eu fumando falando do Rio Grande do Norte.
Francisco pede pra mudar de assunto,
Diz que a mãe ainda mora na mesma roça
Em São Gonçalo que é perto de Natal
E que por conta do progresso
A roça diminuiu.

Francisco tosse e digo que São Gonçalo
É padroeiro dos violeiros,
Meu cigarro apaga,
Um cachorro encosta
Francisco diz esse aí anda comigo
Não tem nome não
Quando tem siri na praia ele sabe
E a gente vai lá.

E voltar pra São Gonçalo?

Hoje não.

AQUELA MÚSICA PARA DESISTIR DE OUVIR MÚSICA

Tava ouvindo o Bando da Lua. Eles acompanharam Carmen Miranda nos EUA por um tempo, mas já eram grandes antes dela.

É um sexteto de cordas e percussão e vozes impecáveis. Tocaram entre 1929 e 1955 com várias formações.

Naquela época gravava-se com um único microfone pendurado no teto. Os instrumentos se distribuíam no ambiente do estúdio de acordo com o volume, tudo junto num único take, na raça, no um dois três. E que quatro.

Gravavam orquestras com apenas um microfone.

Diz a lenda que Toscanini estava ouvindo no rádio uma orquestra americana que ele já conduzira antes. Era um concerto ao vivo. Pelas ondas curtas, detectou um dos violinos desafinado. Alguns anos depois, foi convidado a reger tal orquestra novamente. Lá estava o violinista – que tomou uma bronca.

Com todos os ruídos e imperfeições das transmissões de rádio da época, o maestro ouviu o defeito. E tudo captado por apenas um microfone vindo do teto.

Hoje em dia tem tantos filtros entre os perdigotos no microfone e a mesa de som que vinho vira água quando o som chega aos nossos ouvidos. Ou água vira merda.

Com toda essa onda em cima do Justin Bieber, fui ouvir uma música dele no tube. Nunca tinha ouvido, não por querer. Mas fui.

É ruim. Perto de outros pops de cada verão, ele é muito ruim.

Então não vou gastar mais dedo falando dele.

Mas dá pra dizer que a tecnologia tem ajudado muita gente. Se as gravações continuassem com apenas um microfone, nem penicilina teríamos. Nem velcro ou lojas pet.

O foda é coisa ruim e boba. E isso é a maioria do pop. É Justin, é bobinho, é uma merda.


Falou que não vem mais ao Brasil. Deus te ouça.


QUEM TEM UM QUINTAL, TEM DOIS



Chuva e sol
Sol de arrancar a pele só de olhar
Casamento do espanhol,
E tem um espanhol que mora longe,
E deixa saudades.

Sol e chuva
Chuva com gotas do tamanho de rolhas
Se jogando no infinito
Até caírem ruidosas no telhado, no chão,
E batucarem no casamento da viúva.

De sol a sol sem ver a sombra
Que evapora com os sonhos,
Sem sombra, sem sonhos,
Que homem sou eu que me contento
Com a chuva tropical na cachola fresca?

Chuva de longe lá longe bem longe
Das nuvens coloridas de Tupãs bem loucos,
Do céu de todas nuances milimétricas
Por que tem que ser assim,
E venha!