Chás e tal

Tem a xícara de chá que não fumega mas vaporiza todo o ambiente com uma paz solene e desejável que só se encontra nessa hora da noite e em silêncio. Tem mais que isso, tem o sabor da camomila que inebria e vasculha todas reentrâncias da boca aconchegando-se e ficando íntima com sua quentura e seu beijo telúrico e total.
De todas as beberagens, só ao chá e ao vinho foi dada a condição do único. Explico, se você beber uma cerveja e depois outra, todas as cervejas serão apenas cerveja. Uma taça de vinho e depois outra da mesma garrafa têm almas diferentes. O chá também, mas só que se conta aos goles na mesma xícara. De fato, o chá é a bebida do reencontro e da amizade. O café tem a sua condição sociabilizadora, mas tem o mesmo timbre e aura da cerveja, do sol na cara, do cheiro de bronzeador, da gargalhada e não do silêncio. Nunca vi ninguém tomar uma cerva em silêncio. Chás e vinhos são o mínimo do silêncio e da contemplação. São acompanhados de rituais e credos em sua feitura e apreciação. Por isso são mais noturnos e selenos, quase imperceptíveis se não vistos.

Santa MasterCard Claus


Um americano da cidade de Bremerton, em Washington, resolveu protestar contra a "comercialização" do Natal. Art Conrad pregou um boneco do Papai Noel em um crucifixo de 4 m de altura em frente à sua casa.

"O Papai Noel foi pervertido do modo em que ele surgiu", disse Conrad. "Agora ele é uma personagem usada por corporações para nos fazer comprar mais coisas".
O americano também colocou uma foto do Papai Noel crucificado em seus cartões de Natal, com a mensagem "Papai Noel morreu por seu MasterCard", se referindo a cartões de crédito.
Conrad afirmou também que sua atitude é um modo de "cutucar" a política do moralmente correto. Ele acredita que as pessoas não expressam seus sentimentos por ter medo do que outros vão pensar.
Alguns vizinhos dele se sentiram ofendidos, mas o sentimento mais comum foi o de curiosidade. Jake Tally passou por frente da obra, mas preferiu não tentar compreender a mensagem.
"Eu realmente não sei o que pensar. Eu sei que tem alguma relação com Deus, mas o Papai Noel não tem nada a ver com isso", disse Tally.

Deu no Terra

O rabo dos Stones

Essa coisa orkut e as pessoas que reaparecem através dela depois de 20 anos dizendo estamos velhos, agora toda conversa gira em torno do passado, o que me deixa curioso com relação a mim mesmo.
Se for para ficar velho, quero ficar velho como um menino de 65 anos, um Mick Jagger e não como velhos parceiros de folguedos juvenis que parece que se entregaram à varanda e pantufas no frescor dos 40.
Qualquer quarentão do século 21 é um pirralho perto dos quarentões de quando éramos pirralhos no século 20. E juro, eu já tava de olho no Mick Jagger como um lance futuro desde a adolescência tipo quando ficar velho quero ficar assim.
Mas a galera toda taí com filhos, casas, tevês plasma imensas no cartão, carros e boas dicas de queijos e vinhos, o que me deixa satisfeito e feliz de saber que todo mundo, mesmo aquele piradão mostrador de bunda na Avenida Paulista, curte seu aburguesamento sem culpa. Inclusive eu. Mas alguns, eu diria até mesmo os mais bundudos, estão tão insatisfeitos com suas conquistas e vivências que parece que viverá a partir de agora amargurando um tempo que passou e evidentemente, não voltará jamais.
Não, my bro, ninguém aqui quer ir bater cabeça num porão ao som dos Ramones ou arrancar uma placa de trânsito para pendurar como um troféu no quarto, nem tampouco pegar o carro, encher de malucos e descer para o litoral chutando o pau da barraca, a garrafa vazia e baganas.
Mas o que me vem e vejo é essa imensa tristeza de estar vivo aos quarenta e não perceber que é tão pouco perto dos trezentos que ainda quero viver. Não posso, mas sonho.
Espero que leiam isso e aproveitem para deitar a cabeça grisalhando no travesseiro para acordar bem melhor amanhã. Isso não é sinal da minha insanidade dando tantas dicas de otimismo. Não posso e nunca serei otimista com uma bomba atômica no Irã e outra na Coréia do Norte - aliás, aqui do lado - salsichas em lata transmitindo escorbuto, soja transgênica ou todo litoral sul paulista inviável para banhistas. Não é da minha natureza e visão atráves dos meus óculos ser otimista.
Mas velho e triste, ora senhores, por favor. Velho e triste é o seu rabo na Avenida Paulista.

ELES

Qual é o nome da maior banda de rock de todos os tempos que começa com L e parece que vai sair voando a cada canção?
Qual é a maior banda de rock de todos os tempos que tem o melhor guitarrista, baixista, vocalista e baterista?
Qual é a maior banda de rock de todos os tempos que teve a manha de acertar na alquimia de composição e gravação de todas as faixas de todos os álbuns?
Qula é a maior banda de rock de todos os tempos?

Nham nham, a gente quer uma turnê do Led tocando nos maiores estádios do mundo. A gente faz parte da corrente pra frente que espera por isso há décadas. Nham nham.

Moro num país tropical

Tava muito na minha quando o Kiem (o mano vietnamita) colou e disse:
- Em agosto eu comia uma refeição e enchia a barriga inteira. Agora, como a mesma refeição e só encho metade, porque?
Muito na minha. Quando você tá muito na sua e alguém chega perguntando um troço desses, é preciso muito tato pra não ficar mais taciturno e ensimesmado absoluto caracol. Não fiquei nada disso e retruquei:
- É mesmo, porque?
Convém informar que o idioma que conversamos gira ao redor do japonês, inglês, viet e português. E quando ele fala em inglês é igual a qualquer apocalipse now ou platoon que tenha um figurante nativo.
- Eu estou perguntando, você responde. Você tem mais tempo de vida e de Japão, por isso sabe.
Ok. Diante de tal argumento, preciso respirar. Deixa eu pensar.
- Ei Kiem, esse é o seu primeiro inverno na vida, não? Você nunca sentiu frio vários dias, várias semanas, vários meses, não?
Ele nunca sentiu nada disso, no Vietnam não há inverno, o país está quase sobre a linha do Equador.
- É por isso. No frio, o seu corpo gasta mais energia, precisa recarregar mais vezes. Enche o rabo de chocolate, cara.
A cara da surpresa com o óbvio. E disse:
- Então vou ficar barrigudo como você?
Mostrei o dedo fascínora e tudo voltou ao normal, eu na minha e ele com larica.

Robert Johnson


Ele só gravou 29 músicas. Diz a lenda que a partitura da canção #30 está com o capeta porque Johnson fez um pacto para ser um exímio guitarrista de blues.
O filme A Encruzilhada (Crossroads, 1986) com Ralph Macchio, conta a história da trigésima canção de Robert Johnson. Mesmo sendo com o Karate Kid, o filme é duca. No final, o guitarrista do inferno (Steve Vai) desafia o garoto para um duelo de virtuoses. O som de ambos os instrumentos é do próprio Vai. Algumas pessoas dizem que quem faz o som da guitarra do Macchio é o Ry Cooder, ledo engano, o estilo é outro, claro e nítido.
Mas não é isso.
Há alguns anos os EUA lançaram um selo comemorativo com essa cara do Robert Johnson. Só que sem o cigarro por causa da onda de politicagem correta.
Imagina, o cara que moldou toda a música ocidental no início do século XX só tem 3 ou 4 fotos. Os ianques resolvem homenageá-lo e adulteram a imagem só porque ele fuma?
E o careta tá apagado, observem.
Não, isso não é uma apologia ao cigarro e nem recaída de ex-fumante. É só pra lembrar que ele não morreu de câncer, mas foi envenenado com estricnina numa dose de bourbon.
É blues pra caray!

Oscar Niemeyer


Hoje o moderno faz 100 anos. O velhinho moderno faz 100 anos. Muito velhinho e moderno, comunista irredutível que ganhou uma nota com governos bem capitalistas, hoje faz 100 anos. Comunista bom é comunista longevo. Hoje em dia não tem mais comunista jovem. São raros e meio bobos. Mas os velhinhos comunistas modernos, esses chegam aos 100 sem pestanejar. Ser comunista aos 100 anos é facil, o difícil é ser comunista por 100 anos. E moderno, ousado. Tá certo que é meio inabitável e enjoativo esse monte de curva branca. Mas é do velhinho moderno e ele faz 100 anos. Pode tudo. Tudo pode. Parabéns, Seu Oscar.

CSI

Não, não faz essa cara, morto sempre haverá e sempre há um. Pode ser que não seja na tua frente, nem com essa volúpia e com tanta borra espalhada assim. Pega ali aquele troço meio cinza e joga aqui no balde. Esse branco é osso. Deve ter mais disso espalhado pra lá. A direção é essa. O impacto foi grande. Sim, já fotografei. Procura bem que esmigalhou e se misturou com essa areia aí do canto. Não adianta chupar Hall's que não vai mudar o cheiro. Aliás, esse nem tem cheiro. Claro, pode passar esse removedor no sanguinho. Minha avó que falava assim, sanguinho. Acho que era pra não assustar. Quando a gente chegava machucado perto dela pra tratar, ela dizia xi, tem sanguinho. Teve uma vez, passando naquela avenida da churrascaria do chifrão na porta, sabe? Então, teve um acidente ali e tinha um cara deitado na esquina, a gente no banco de trás com a minha avó no meio, eu numa janela e meu irmão noutra, ela perguntou se tinha sanguinho. Cara, era um rio vermelho, era sanguinhozão.
Mas pior mesmo foi quando meu avô morreu e tava saindo sangue do nariz dele, ela disse passa um paninho no sanguinho na napa do defunto.
Minha avó, cara, que amor.

Mondo Cane


Walkman, shitman e paperman

Akio Morita foi o cara que fundou a Sony. Diz a lenda que ele começou tudo fabricando radinhos de pilha no recém pós-segunda guerra. Quando as tropas americanas desembarcaram no Japão fudido, morto e vencido, faziam a distribuição da ração e avisavam pelo rádio, ou seja, quem tinha um, sobrevivia. Conheci um velho que viveu esse período e me contou de Tokyo bombardeada e tomada por jipes e tropas americanas. A primeira palavra em inglês que ele aprendeu foi "chocolat", gimme a chocolat.
Pois bem, esse mesmo Akio Morita, continua a lenda, foi o inventor do walkman, daquele velho trambolho do tamanho de um livro que tocava fita cassete, mas que para os anos 70 e 80, era o menor dos portáteis. Dizem que ele inventou o walkman para poder jogar golfe ouvindo a Nona Sinfonia de Beethoven. Um luxo.
Como lenda não tem fim, foi ele também quem inventou o compact disc para que coubesse toda a mesma Nona Sinfonia sem ter que ficar virando lado A e lado B tanto nos velhos bolachões como na fita cassete. Não, nunca cronometrei Beethoven.
Lenda é lenda e isso não se discute, se aumenta.
O fato é que sempre que uso - emergencialmente - um banheiro público, penso na podridão que é o botão da descarga. Porque é uma questão óbvia: todo mundo só aperta o botão depois que tudo está acabado, porém, momentos antes de ir lavar as mãos, quiçá a ponta dos dedos. Agora os caras inventaram a privada com descarga acionada por sensor. Fiquei maravilhado. Pela foto, percebe-se que o papel higiênico continua sendo ele mesmo, em rolo, cilíndrico e sendo muito útil na vertical. Não creio que seja possível substituí-lo por um sensor. Tem certas coisas que ainda precisam de muito tato e sutileza.

Cortinas Abertas


Fiquem pro café. E ajoelhou, tem que rezar. Benvindos.
Escolham um lugar na janela, mas pode ser corredor.

Hoje danou de fazer frio.
Quase neve, era nuvem de neve, mas não rolou.

Ouvi Tori Amos agasalhado até a alma.

Essa é a nova cara


da velha alma.

A arte é mútua e faz bem.

Tudo continua assim.

A estrovenga só pode estar atenta e pronta para
a realidade quando está em pleno vapor na
cachola, nos sonhos.

Então, mané, mãos à obra.



(Mas oh, o cara da boa idéia da boa mudança é o HIEL)

Diz obrigado pro Hiel,

OBRIGADO, HIEL!