A Posse

A cada quatro anos, um cidadao brasileiro toma posse do cargo de presidente da republica no dia 1 de janeiro. Esse pode ser o inicio de uma serie de erros para erguer o grande monumento da estultice nacional.
Fico imaginando esse cidadao no dia 31 de dezembro cercado dos assessores, de familiares, todos rindo e rindo e rindo e rindo. Rico ri a toa. Imagino-o nas horas intimas do gozo da solidao fisiologica, o nosso maxi-cidadao olhando o azulejo, em pe ou sentado, pensando "e' hoje". Tudo e todos voltam a ser gente comum no chacoalhar das partes ou na posse dos metros do papel branco, higienico, biodegradavel. Ate as rainhas europeias, quanto mais um cidadao da gente.
Mas po, fio, e' a super-bunda estatal!
Num momento de seriedade civica e ja vestido com a soberba do cargo, nosso cidadao rele o discurso de posse, suas promessas, seus regozijos e agradecimentos.
E ele, nesse momento inedito de fim de ano na vida de qualquer homem comum, afinal e' a presidencia de uma nacao, porem comum a todos, afinal e' fim de ano, comeca a fazer suas resolucoes para o ano vindouro.
E' ai que o bicho pega.
Ninguem segue a risca as resolucoes de fim de ano. Todas as viradas importantes na vida de alguem sao feitas num dia comum que deixaram de ser comuns porque coisas e atos aconteceram. Casamentos, viagens espetaculares, partos, cirurgias, enterros, idas, vindas, despedidas, solidoes, shows de rock, noite de autografo, vernissage, diarreia, ataque cardiaco, derrame, porre homerico, primeira transadinha, beijo de lingua, rapidinha, demorada, tantrica, adulterio, peca de teatro, primeira ida ao cinema. Eu nasci em julho, me casei em abril, fui a' Europa em maio, parei de fumar em novembro, cheguei em setembro na Asia e amanheco todo dia 1 de janeiro pensando "e dai?".
Por isso, um ato tao importante quanto o de tornar-se presidente do Brasil devia ser ali pelo segundo semestre, sem alarde, sem fogos nem confete e serpentina, pierros e colombinas, batucadas e pais de santo, craques da selecao, estrelas da televisao. Sem nada, entra, assina e ve o que tem que ser feito.
Devia ser numa segunda-feira para ir logo trabalhando, de mal humor, mas sabendo que a semana e' longa e a escrivaninha anda cheia.

Manera que tudo e' manero


Um papa obcecado pela ordem astronomica e temporal, um tal Gregorio 13, medieval feito um iron maiden, achou de bom tom puxar uns dias aqui, interromper outros tantos ali, acrescentar algumar horas, dar vazao aos bissextos, mexer no calendario juliano que estava todo errado e tambem para solucionar certas colheitas que ja estavam quase acontecendo no inverno.
Quase nao pega feito algumas leis no Brasil. Na Suecia deu tanto rolo que quase inventam um 30 de fevereiro.
Por isso, aproveitem bem enquanto o ano-novo comeca no dia 1 de janeiro. Pode vir um papa doidao e dizer que Gregorio estava errado, que o ano tem 730 dias e que tudo comeca em 1 de novembro, na ressaca de um halloween de arrepiar.
Ou pode vir outro e dizer que nao existe o conceito de ano, mes, semana, dia, hora, minuto, segundo, formula um, cem metros rasos. Nada. O que existe e' um continuum temporal e isso e' deus e ponto final. Ou eternas reticencias pai filho patati-patata amem.
Ja que instalou-se uma crise mundial a partir da nova ordem mundial de Bush Pai, vem um papa bem purpurina e diz que todo ano tem 24 horas, todo dia e' reveillon e vai comecar a farra.
Tem esse japones que escreveu 2009 karako e kanjis. Quem souber o que significam, me diz.
Na verdade, essa foto e' de 2006, so inverti o ultimo algarismo pra ilustrar o texto.
Fake, happy new year e' fake, marketing pessoal feito acreditar em roupa branca, sete pulinhos, sopa de lentilha, sete bolinhas de nhoque, folha de louro na carteira ou porres homericos.
Ou barquinho de Iemanja sujando a praia.
Quer fuder com a agua? Faz oferenda na pia do banheiro e escova os dentes com a porcariada misturada, macumbeiro exibido.

My Favorite Things - e tambem nem tanto

Instalei um cd player no carrimnovim que tambem toca mp3. Bacana, pensei, agora faco uns cinco cds com trocentas musicas e nunca mais fica aquela zona de cds espalhados no banco de tras.
A zona no banco de tras, nevermoa, mas a cachola comeca a transbordar de infelicidade e insatisfacao com o que gravar. Sao muitas opcoes e infelizmente, me deparei com uma incognita que esperava que nunca ia chegar: Quais sao as minhas musicas favoritas?
Gravei tres cds com um total de 450 musicas e detesto metade daquilo tudo. Sobram duzentas e acho tudo muito enjoativo.
Na verdade nao detesto a metade. E' que nao sao circunstanciais. As circunstancias e' que fazem a trilha sonora, pelo menos na vida real. Nao da para simular a surpresa aleatoria de uma radio fm com 450 cancoes saidas do seu personal computer. Soa aos primeiros discos do Lenny Kravitz, onde ele gravava todos os instrumentos e tudo ficava muito pessoal, sem surpresa, sem o timming de outros musicos. A mesma expressao pessoal na melodia, ritmo e harmonia. Tudo muito chato e redundante.
Quando um musico ou uma banda grava um cd e escolhe junto ao produtor a ordem das faixas, volume de voz, instrumentacao etc, ele escolhe pensando no ouvinte e isso deve ser respeitado e absorvido como o fetiche que uma capa de disco contem - se e' que ainda contem.
Nao cito os discos conceituais, pois isso nao cabe mais no mercado fonografico de hoje em dia. Ou cabe, as pessoas ate querem, mas o capitalismo das gravadoras, nao. Talvez o ultimo dos discos conceituais tenha sido o do Prince na fase sem-nome. Fase ruim, mas mesmo assim, o maluco ainda tentava criar um conceito sonoro em varias cancoes juntas, a ideia unificada dentro de um cd.
Eu lembro que gravei My Favorite Things nas versoes de Sara Vaughn e John Coltrane, este, ao vivo no Village Vanguard e numa gravacao em estudio com um dos melhores times de musicos formados para um disco: John Coltrane (sax soprano), McCoy Tyner (piano), Steve Davis (baixo) e Elvin Jones (bateria). Acho que so perde pro Miles Davis Quintet.
Mas onde estao as 3 versoes de My Favorite Things no meio de 450 musicas?
Fica mais facil encontra-la num cd jogado no banco de tras do carro do que pular faixas apertando botoes enquanto a paisagem (as circunstancias, porque nao?) pedem sua trilha sonora na cara e coragem do agora/ja/aqui/saco.
Acabei engolido pela ligeira oligofrenia da alta tecnologia e tudo me parece um grande redemoinho num ralo de pia surdo-mudo. Aqui dentro e ao redor.
Sorria, o caos e' prazeiroso.

Aquiles - Ultimo Trem (5 de 5)

- To indo pro Brasil nesse sabado, my brother.
De feliz, ja bastava a frase e veio incluida a cara de satisfacao, o tom da plenitude, quase nirvana em tempos de nano-robotica.
- Hoje e' meu ultimo dia aqui nesse inferno - Aquiles parecia o proprio Buda, quase flutuando de tesao.
Ele marcou encontro com o cara-que-apanha-da-Corna na estacao de Hamamatsu, perto da escada rolante. Foram para o banquinho bem perto do posto policial embaixo do Forte Building.
- Pra eu nao encher o cara de sopapo, mano. Ai eu disse pro cara que queria 20 mil dolares ou ele nao voltava mais pro Brasil. Puxei umas xerox que pedi la pros policia no Brasil, tenho meus contatos, os colegas de farda levantaram a ficha do cara-que-apanha-da-Corna, residencia, rg, cic, tudo. Com aquilo na mao, ele tremeu. Eu falei que o Banco do Brasil era ali, era so a gente atravessar a praca, entrar no Act City e pegar a grana. Ele falou que era tudo que ele tinha. Eu respondi que a minha familia era tudo que eu tinha e ele me sacaneou. Ele falou que aquilo era chantagem e que iria me denunciar ali na delegacia, eu disse certo, vai la, mas me diz agora como fala chantagem em japones e voce pode me denunciar, fico em cana, me fodo, mas voce nao volta mais. Vai, filho da puta, resolve.
- Posso responder depois...
- Nem fudendo, cara. Agora ou a gente entra naquele posto policial agora e eu te denuncio por invasao de residencia e estupro, tem tua impressao digital na minha casa toda! Na minha cama! Ou vai ou racha, caralho!
Rachou. Aquiles voltou para o Brasil e fez a faculdade de direito com a grana. Deixou a mulher no Japao e nunca mais ouvi falar de ninguem, nem da Corna, do Ricardao ou Nice. Quem me falou foi a tia da Nice, que nesses dias ia ser o baile de formatura de Aquiles.

Vai viajar?

Montanha? Litoral? Capital? Interior? Chacara? Casa da tia? Da avo? Do tio do amigo? Da amiga? Santo Andre? Marechal Rondon? Castelo Branco? Dutra? Anhanguera? Churrascada na beira da piscina? Vai esquiar em Gifu? Nagano? Parana? Pescaria em alto-mar? Sao Paulo? Porto Alegre? Rio? Alagoas? Pernambuco? Paris? Fogos em Copacabana? Curitiba? Shiga ken? Shizuoka? Hamamatsu? Br-103?
E' estrada, e'?

Entao vai sem pressa que 2009 ja ta chegando, mermao.

Sem pressa e sem alcool na cachola.

Aquiles - Ultimo Trem (4 de 5)

Aquiles nao apareceu para trabalhar por dois dias. Disseram que era uma virose, algo assim.
Na quarta-feira chegou contente, confiante, bem diferente do corno da semana passada. Na hora do "almoco da noite", me chamou de canto e comecou a falar:
- Na segunda de manha catei a bicicleta e fui la na fabrica do cara. Entrei la dentro, bro. Invadi mesmo. O cara gelou quando me viu, tentou disfarcar. Fui direto nele. Disse pra ele ir na minha casa naquela noite porque a gente precisava trocar uma ideia, civilizadamente. E pra ele levar a mulher.
O cara foi e levou a mulher e estacionou na vaga de sempre.
- Chegaram, sentamos os quatro na cozinha. Mano, parecia dupla de buraco, ta ligado? Eu de frente pra ele, elas, frente-a-frente. A Corna da mulher dele nao estava entendendo nada. Eu virei e disse "voce sabia que o seu marido esta comendo a minha mulher?" Sabe o que ela disse? "Ja to acostumada, ele me traiu no dia do nosso casamento".
Aquilo parecia ficcao.
- Falei pra eles sairem da minha casa. So disse que ele tava me devendo e que eu ia cobrar. No dia seguinte ele me ligou pedindo desculpas e disse que nao tinha ido trabalhar porque apanhou de vassoura da mulher. Eu ouvia a Corna gritando no fundo: "Pede desculpa, filho da puta! Pede desculpa!" E' mole? O cara apanhou da Corna! Marquei com ele pra gente conversar. Disse que era hora da cobranca.
Natal: Ligo o carro e vou trabalhar.

(Nao, nao frequento manjedouras)

Aquiles - Ultimo Trem (3 de 5)

Nao pode ser. Esse cara nao. Ate outro dia ele estava me contando que a embaixada japonesa no Brasil tinha dado a maior canseira para liberar o visto da mulher e que finalmente ela chegou. A mulher do cara chegou, ele nao iria cantar de galo em outro terreiro.
Mas parece que cantou. A desconfianca de Aquiles tinha se concretizado quando viu as marcas de pneu na sua vaga de estacionamento.
- Pode ver o carro dele, os dois pneus da frente nao sao iguais, tem os riscos diferentes.
Pior que era verdade. Claro que fui debaixo do carro do cara conferir.
- Se fosse no Brasil tinha gastado um tambor na virilha dele, mano.
O cara tinha estacionado varias vezes no predio de Aquiles, na vaga do carro que Aquiles nunca teve aqui no Japao.
- O pior nao e' isso. O pior e' que desde que chegamos no Japao ela nao quer transar comigo.
E chorava. Raiva, soluco, dor, cornice. Nada mais cafona, nada mais infeliz.

Aquiles - Ultimo Trem (2 de 5)

- E' a Nice, mano, ela ta saindo com um cara.
Nao disse que nao, nem que sim. Nunca vi isso, um cara afirmar assim com tal certeza e dor. E pior, estavamos no turno da noite, a farra podia estar comendo solta agora no cafofo do Ricardao.
Eu perguntei como e porque ele tinha tanta certeza.
- A toalha molhada ontem de madrugada, quando voltei pra casa. Molhada. Fui ver a Nice e ela nao tava cheirando a sabonete.
Caracolas! O cara e' policia, investiga, tem olhar clinico, sagacidade.
- O pior, mano, e' que eu sei quem e' o filho da puta.

Aquiles - Ultimo Trem (1 de 5)

Gente boa, estava no olhar, o rapaz era do bem.
Trabalhava ali de frente, uns cinco metros da minha maquina. A mulher dele era descendente, mestica, do interior de Sao Paulo. Ele nao, ele era da PM da Capital, chegou a cabo, queria juntar uma grana aqui no Japao pra ser advogado e delegado. E nao era descendente.
Um dia chegou triste, muito triste.
Olhou pra mim e chorou convulsivamente, solucando. Levei ele pro banheiro, fiz ele lavar a cara.
Voltou pro lugar e continuou chorando.

A Porcaria K

- Se eu soubesse onde vendem dinamite, explodiria a casa dela - foi assim que ele me disse logo depois da garrafa de cerveja bater no balcao e o rapaz ir ate o outro extremo buscar o abridor.
- Mas to de boa. Espero a sogra ir buscar os pequenos e entro com isso aqui - e me mostrou um coldre preto na cintura, por baixo da jaqueta jeans puida.
O rapaz veio e abriu a loira. A gente queria Brahma, nao tinha, veio essa porcaria K. Se ele soubesse o que aconteceria naquele Natal naquela casa azul de esquina e que tudo estava sendo planejado aqui nesse metro quadrado, iria ate o inferno buscar a Brahma. E gelada, por deus.

Carrim novim

O carrim novim e' velho, um Suzuki Vagon RR-turbo, ano 2000, branco. No Brasil chamam esse tipo de carro de mini-carro. Ele tem o mesmo tamanho daquelas mini-peruinhas que vendem cachorro-quente no Bras. Nao, a mini-peruinha que refiro nao e' a filha do Cruise.
Foi tudo que consegui de bom com a grana do seguro. E veja, aqui eles realmente cobrem seu prejuizo. O pretinho basico do lado e' o da Nanci.
Com a crise, a procura por esse tipo de carro aumentou muito, pois e' economico, o IPVA japones e' mais barato (de 4oo doletas nos carros normais para 70 doletas nesses aqui) e sao rapidos e versateis.
O motor e' de 660 cc so que anda mais que Gol Mil.

Bueno, qualquer coisa anda mais que Gol Mil.

No Batata Transgenica

Tem um post na PDUBT que fala de livros, que e' um presente legal pro Natal.

Ai entao eu comentei:

Nei Ken iti Says:
Livro sempre e’. CD e dvd tambem. O problema de livro e’ que nem sempre usam.
- Acho que E’ porque nao liga na tomada.
Posted on
Domingo, Dezembro 14, 2008 at 11:35

(Tia Batata, essa era pra virar tirinha, mas deu preguica).

Stripgenerator 6




E vice-versa - versao Projac

O ex-marido, ex-pm e experimentador de pozinho colombiano morreu de overdose depois de estar ligeiramente casado com atriz de alto custo e baixo talento.

Para algumas pessoas, a vida, inutil ilusao, e' realmente uma droga.

E vice-versa

Ele ja tabelou com Rivaldo, Beckham, Zidane, Kaka, Ronaldinho Gaucho, Figo, Romario e Seedorf.
A nata exibida de boleiros & craques.
Agora vai receber bola do Dentinho.
Agora ele e' o camisa 9 do Timao.
E' claro que como torcedor estou extasiado e esperancoso.
O problema e' que ainda nao descobri se o Corinthians contratou o Ronaldo Fenomeno ou se foi vice-versa.

O carro do pai da Mafalda

Foto tirada no D2 Home Center de Iwata.

No meio da saga da Mafalda (Quino), o pai dela resolve comprar um carro e e' esse ai em cima. Uma das tiras memoraveis e' a do Miguelito dizendo:
- Ele comprou esse carro pra se gabar de que?

Tristezas tropicais

A porrada no meu carro nao foi tao forte, mas bateu na estrutura e no eixo dianteiro e a oficina deu perda total. O seguro do cara que me arregacou cobriu meu prejuizo. Hoje fui ver uns carros no valor. A oferta anda maior que a procura, e' a crise. Mais um pouco e pego um carrinho usado, bom e barato. Quem sabe sobra um pouco do cash.

A crise mundial esta na nossa cara. Hoje um amigo foi ao centro de Hamamatsu e parou no semafaro ao lado do hotel mais chique e caro da cidade. Na frente dele cruzou uma familia, pai, mae e dois filhos. Frio, aqui ja ta muito frio e as criancas estavam de bermudas e os pais nao estavam muito agasalhados. Era nitido que nao estavam preparados para o inverno rigoroso do hemisferio norte. Recem-chegados do Brasil? Era uma familia brasileira, sem-teto. As criancas nao vivem no mesmo mundo dos adultos. Nunca. Elas iam pulando na frente, brincando, rindo. O pai encarava o chao, o branco-preto da faixa de pedestre. A mae, nada.
A mulher do meu amigo lacrimejou, solucou, chorou silenciosa dentro do carro. Comovente.

Todos os dias vou trabalhar e passo por um atalho por baixo de uma ponte em Iwata, a cidade aqui do lado, e, todos os dias vejo uma Toyota Estima parada ao lado de uma das colunas da ponte. E' um brasileiro que mora dentro de um carro de 20 mil dolares porque nao tem emprego e onde morar.

Dizem que os brasileiros sem-teto de Nagoya estao invadindo e fazendo arrastao em lojas de conveniencia para roubar comida. Dizem.

Alguem foi a praia de Nakatajima caminhar e viu um casal de chineses acampando.

O padre salesiano que cuida das almas catolicas de Hamamatsu e regiao acolheu algumas familias no salao paroquial da igreja de Sanaru Lake. Algumas. Dizem que dos 30 mil brasileiros de Hamamatsu, 5 mil estao desempregados e desses tantos, quantos no frio la fora, agora, nesse momento?

Boatos, periscopios alheios, outras cancoes, tristes cancoes de poucas notas, palavras e consolacao. Bateram no meu carro e acho que estou com o maior problema do mundo. Meu egoismo so nao e' maior do que meu ego e amor proprio.
Minha solidariedade, parca e preconceituosa, me enoja. Cru, o lance e' ser cru com sua propria alma e nao negar fogo na sua sombra.

Seriado na tv

CSI, Alias, Criminal Minds, Lost. Todos viram todos.
E DEXTER, voce viu?
(So a abertura dos episodios da Temporada 1 vale um premio na categoria curta-metragem)

O japa bateu em mim

Detalhe da porrada.

Em cima do guincho.

A frente desfigurada.


Chegando na oficina.
Foi assim:
Indo pro trampo, 7:20 da manha. Eu vinha pela rua preferencial, 40 a 50 km por hora. O japa saiu de uma ruazinha enemera (N vezes efemera) e nem olhou pros lados, CATAPLOF na lateral do meu carrinho. Chamamos a policia, B.O. e tal. Os seguros vao entrar no papo. Agora to num outro Toyota podrera que a oficina me descolou pra nao ficar no vazio.
Duas semanas de podrera e o meu no conserto.
Beleza, nao houve vitima.

Mafalda morta?


Qua, 26 Nov
México, 26 nov (EFE).- O artista argentino Quino assegurou hoje no México que nunca desenhou a morte de sua personagem mais famosa, Mafalda, em referência a rumores de uma publicação em que ela teria sido atropelada.
"É uma criação exclusivamente mexicana, eu não sei quem a inventou", disse.
"Essa lenda do caminhão de sopa - porque há várias versões, outra diz que foi um carro de Polícia - nasceu aqui no México (...) eu jamais desenhei isso", explicou.
Mesmo assim, assegurou que não voltaria a desenhar Mafalda agora porque, segundo ele, os jovens de hoje estão desiludidos e não querem mudar o mundo para melhor, ao contrário da década de 1970, quando nasceu a personagem.
"No mundo, os problemas acontecem em espiral, nunca da mesma forma. A época em que eu fazia Mafalda não se repete, (...) toda a juventude tinha ideais políticos para começar, e achávamos, com os Beatles, o Che Guevara, o papa e o maio francês de 68, que o mundo estava mudando para melhor", frisou.
O desenhista admitiu que Mafalda segue "muito viva" para as pessoas, que encontram nela a esperança perdida, o que o deixa muito feliz.

Deu no Yahoo! Noticias

Efeito-defeito

Nada como um bom virus de gripe pra deixar a gente de bem com o mundo.
A gente quer que todo mundo fique bem consigo mesmo para que possam cuidar da gente, nem que seja um olhar, palavras doces, sutilezas e oracoes.
A gente somos inutil.
Mas passa, logo passa e a gente sai chutando balde, atirando pros lados, cuspindo em anoes.

Sabe cume', podre por podre, sou mais o meu que o seu.

Pela continuacao do blog do Laerte

O suculento da obra subindo andaime a andaime. E sobe porque rolling blog do um ao vinte e sete (1:27) e mais adendos e contemporaneos.
Todo o absurdo e sutileza da cachola doce do maior cartunista desenhista e roteirista da minha vidinha infiel.
Hoje amigo e confidente. Inconfidente blogueiro.
Laerte Coutinho tem mais pra fazer a gente desejar o mais, o menos, divisao e multiplicacao.
Explode - como sempre - e estilhaca a gente.
Nao fica so nessa historinha nao, Lama.

Fotos que eu gosto de bater

Na verdade, esse predio nao existe mais ha uns 2 anos. Foi demolido e nao sei o que construiram em cima. Cao come cao, bicho.

Hall's de cereja

Ta mais facil ganhar um punhado de polvora que acucar e isso nao e' apenas em Pindorama.
Tem gente que pega estrada e nao confere pneu, freio, bolso, sorriso e sono.
Venho aqui todo dia dizer qualquer coisa.
O sol e tudo mais ao redor dao uma boa cancao.
As tecnologias recentes e a vanguarda da prateleira sao sinais de status ate a proxima temporada.
Um mp3 player ja rendeu uma trepada algum dia em algum lugar.
Carros estacionados, em movimento, fotos, propaganda, sempre deixam alguem mais gostosao.
Carros, nao minivans de entregar bijouterias, madame.
Algumas pessoas podem ficar muito felizes porque tem uma lupa pelo prazer de te-las ou porque amam um inseto.
Alguns inseto, na tela do pc, por exemplo, so na ponta do dedo e depois limpo-o na costura lateral da calca. Um nojo.
Uma autarquia japonesa decretou que importacao de Hall's de cereja esta proibida enquanto hover aquela quantidade x de corante vermelho.
Mas senhores, e' o melhor Hall's do mundo.

Mirdia

Faz um mes que nao assisto nada da tv brasileira. Nada. Isso me torna menos brasileiro.
A sensacao de ser menos brasileiro nao e' melhor ou pior, e' diferente e nao incomoda.

Ja deixei de frequentar uma loja de produtos brasileiros por causa desse dialogo entre eu e o gerente, num papo informal:
- Para mim o Brasil esta virando uma realidade cada vez mais distante - eu.
- Entao porque voce compra a Veja? - ele.
Nunca mais entrei na pocilga ufanista.
E olha que a Veja com eles e' dois dolares mais cara, uns 250 yenes.

Odeio patriotas de todas as formas e cores. Patriotas de olimpiadas sao os piores. Os de Copa do Mundo, bem, eu me odeio em Copas do Mundo.

Eu nao sei a opiniao das sobrancelhas do William Bonner. Isso me redime da culpa da quase unanimidade nacional.
Tem a Patricia Poeta nos domingos e aquele bundao descomunal. Nao, o bundao nao e' o Zeca.

Nao, nao tem outras emissoras de tv. Tem?

Nem os Jeovas batem mais na minha porta. Virei um crustaceo com olho magico e uma garrafa de Cointreau.

Inverno, cafe preto + Cointreau e o meu amor: Que se dane o verao.

Cafezim

Um cafezim pra ela. E pra todo mundo, dear Kenia.

SACO

Ecologia e mico-leao-dourado ja encheram o saco. Tem orca doente, com a barbatana de cima tombada pro lado, meio brocha com o derretimento da calota polar. Tem pinguim e canarinho e pintaroxo. Tudo viado.

Tem a vitoria do Obama. Tem indonesiano comemorando como se fosse um gol. Tem azerbajano gritando gol de Obama. Tem brasileiro que acredita.
Gente, o cara e' americano, presidente americano, tem o botao, a ONU e o FMI em casa. Tem Elvis, a casa branca e uma sala oval. Eu te garanto, ele nao assiste football com os pes.

Tem tantos crimes que uns sao hediondos e outros sao espetaculares.

Tem desempregado brasileiro idiota recusando emprego no Japao com a grande onda de desemprego na praia de todos nos e muito, mas muito mais gente sem fitness, cada vez mais homeless.
Teve um que foi ao Brasil e abriu uma vaga. Ontem veio um outro e disse sabe o que?
- Vou consultar a minha esposa.
Morre, mane.

Tem motorista que desacelera, pisa no freio, entra na esquina e nao da a seta. Entao da a bunda, seu torto.

Los day by day


Fotos que eu gosto de bater

Carpas famintas.

Sarava

Tem duas novelas com nomes de paises, ambos asiaticos, sendo que os 100 anos de Imigracao e' uma festa com os japoneses, ou seja, tres cajadadas num coelho so.
O maximo que fiz nessa festa centenaria foi comprar as moedas e selos comemorativos, o que nao quer dizer nada, na hora do aperto, torro tudo.
Alias, com dois selos mandei um postal pra Budapeste e a carta nao chegou la. Ou nao saiu daqui, sei la.
Numa das novelas tem um atorzinho bem ruim que saiu por motivos estranhos e de saude. Era o protagonista. Ja vi isso acontecer com o Sergio Cardoso, que lugubre e tetrico, era cataleptico e foi encontrado revirado, dias depois, no caixao. Depois foi o Jardel Filho que fazia um papel bacana e par romantico com a Irene Ravache, mas morreu no comeco da trama.
Ambos, Sergio e Jardel, sao nomes de salas de teatro. O mocinho contemporaneo, acho, nunca subiu num palco.
O pais ainda tem novela e ainda se preocupa com essas coisas. Se isso e' legal, nao sei, mas sarava, olha o estado cataleptico do teatro brasileiro.

Aqui no Japao o teatro e' terapia-ocupacional-pra-nao-morrer-de-tedio-no-final-de-semana. O cara vai la, faz um curso fuleiro, uns exercicios fubecas, laboratorios nulos, faz uma peca suspeita e diz sou ator.
Eu fiz um curso fuleiro, fubeca, nulo e nao sou ator, nunca fui, nem quero ser. Escrevi duas pecas e nada, sem grana, nada. Nem ongs, nem os donos de lojas de produtos brasileiros estao interessados em bancar um texto de Plinio Marcos, por exemplo - imagine.
Ou seja, se nao sou ator, nem autor posso ser. Entao meto a boca. Sarava e vade-retro teatro-brasileiro-no-Japao.

Alias, pra que plateia? Sabe o autor que mais vende aqui? A tal Zibia. Sarava mesmo.

Sem FOLego

HojeGracasADeuse'QuintaFeiraEAmanhaFinalmenteAconteceA
SextaFeiraEAVidaTaoArduaNessesDiasDeFaltaDeIdentidade
AcabaNumFinalDeSemanaOndeEuTuEleNosVosElesVoltamos
ASerTudoOQueAGenteSempreQuisQueE'IssoMesmoOuSeja
OMilimetroMinimoDoEgoMaisProfundoQueOuviDizerQueA
GenteTemNaHistoriaDoVDeVinganca.

Ufa.

Los day by day

Eu nao acredito na democracia americana enquanto eles tiverem os botoes que destroem o planeta milhares de vezes. Eu nao acredito que qualquer presidente americano, seja ele negro, sardento, cristao, democrata, republicano, pagao, muculmano, mulher, gay, cowboy ou yuppie, va resolver a fome e a destruicao homem a homem na Africa, isso sim, pior que o desdem sobre as vitimas do Katrina ou da crise imobiliario-financeira.
Eu acredito no jazz, em Hollywood, no rock'n'roll, Woody Allen, Gore Vidal, Will Eisner, Microsoft, Apple, James Brown, Basquiat, beatniks, Andy Warhol, Pollock, eu acredito na arte e no entretenimento americano. Nisso eles sao insuperaveis e magnificos, os melhores do mundo.
Agora nao me venha com politica nenhuma, externa, saude, racial, economica, financeira, ecologica, social, infantil, sexual, nada, em politica eles sao nada. Eu tambem sou, mas nao carrego o mundo nas costas. Ou pretensamente carrego.

Cao come cao

Hamamatsu e' a cidade que tem a maior concentracao de brasileiros, somos quase 30 mil, o que ja e' uma cidade dentro de outra. Aqui tem lojas, supermercados, locadoras, escolas, saloes de beleza, advogados, dentistas, despachantes, auto-escolas, nightclubs, cartomantes, evangelicos, catolicos, tudo escrito e falado em portugues.
A grande maioria trabalha pracaray, mas tem gente na cadeia por trafico, assassinato, roubo, furto, latrocinio, crime passional, embriaguez ao volante, atropelamento e fuga, briga. Tem adolescente mae solteira, pai solteiro, divorciados, casados, expulsos, expulsas, heteros, bis e homos. Tem empresario, tem honesto, desonesto, humilde e fanfarrao. Tem padre, pastor, cachaceiro, junkie e pai-de-santo. Jogador de futebol, skatista, volei, basquete, golfe, truco e bilhar. Tem punk, metaleiro, fashion, clubber, emo, gotico, surdo e mudo. Tem gente com aids, cancer, esquizofrenia, bipolarizacao, mitomania, anemia e hernia de disco.
E tem gente morando na rua. Nao e' de hoje, nem do ano passado, isso ocorre ha muitos anos. Tem gente que diz que e' sem-vergonhice porque tem emprego e as empresas alugam apartamentos, quitinetes, dao condicoes dignas para o funcionario, se assim ele quiser. Tem gente que diz que e' opcao, que a pessoa prefere viver assim, sem compromisso, sem luxo, sem lenco, sem documento. Outros dizem que e' o uso continuo de drogas pesadas, o crystal, a heroina, lsd, ecstasy e a pessoa perde o contato com a realidade. Pode ser tudo isso e pode ser nada.
O cruzamento de dados entre o crime e os mendigos brasileiros aponta para um numero infimo, ou seja, os sem-teto brasileiros preferem viver de caridade das ongs e igrejas a roubar.
Hoje fui ver minha papelada de renovacao de visto e em menos de 10 minutos vi dois grupos diferentes de pessoas comprando passagens para o Brasil, so ida.
A crise mundial afetou muitas industrias que servem 'a Honda, Toyota, Mitsubishi, Nissan e Suzuki. Muita gente vai perder o emprego, se ja nao perdeu. Cao come cao.
O gerente da agencia de viagens que cuida da minha papelada de visto disse que o numero de passagens aumenta nessa epoca do ano por causa das festas, mas que nesse ano a coisa transbordou, a grande maioria das passagens sao so de ida e o numero de desistencias diminuiu. Me parece que todas as mazelas de uma carestia e desemprego ja soam nos alarmes da comunidade brasileira na cidade. E' melhor tocar o sino e nao e' para a missa do Galo.

Ser ou not to be

TARCIO VIU ASSIM disse...
Caçamba! Nei é curintiano e eu nem sabia!
- Mais um ponto pra vosmecê, cumpadre!
- Sport e Timão pra sempre!
1 de Novembro de 2008 04:52


Para quem ja se conhece, faz e desfaz, fica facil identificar-se pelo time de coracao. Sem desmerecer o alvinegro sagrado da farda e flamula do Timao, foi foda ser corintiano em 2008, o ano do fundo do poco, a era das incertezas, o pe-na-jaca, o-ano-em-que-aguentamos-piada-ate-de-quem torce-pra-Portuguesa - quase um fusca lotado.

Em 1989, na primeira eleicao presidencial depois dos coturnos, perdemos para o grande vazio de Alagoas, Collor e corja. E a cidade de Sao Paulo, reduto primal do petismo nacional, foi preponderante para que Nandinho vencesse. Logo na posse, porem, houve o confisco das contas correntes e das poupancas e como efeito de anti-midia e never-fiz-isso, onde estavam os colloridos? O grande sumico dessa massa tambem aconteceu no impichamento do Homem, todos desapareceram, todos viraram defensores da austeridade brasiliense, ninguem votara em Fernando Collor de Mello para presidente.

Eu vi alguns corintianos guardarem suas camisas no fundo da gaveta, negarem e esconderem suas cores, sacrificarem seus ritos cabalisticos por medo da Inquisicao dos bobocas do Morumbi e dos babacas da Lapa. Sem querer justificar, a minha sempre esteve la, so a visto em vitoria de final de campeonato ou em ascencao a primeira divisao.

A gente fica meio puto. Queria ter falado mais do Timao aqui no blog ou nas ruas. Mas nao deu. No final das contas a gente acabava aguentando jocosidades alheias, se defendendo. Mas acabou. Por isso a surpresa do Tarcio com as cores do meu coracao. Fiquei na moita. Mas acabou.

Todo Poderoso

Obrigado aos torcedores rivais pelas piadas em 2008. Nada melhor que isso para indicar a saudade que deixamos em todos voces. Voltamos para a primeira divisao para encher seus sacos, estadios e cofres.
E', ainda nao temos o nosso proprio estadio. Pra que? A gente usa os seus e nem precisa fazer faxina.

Chora, burguesia, o Timao voltou!

Deixa-quieto

Na paz social fica claro que a convivencia humana passa pelo filtro do deixa-quieto.
O deixa-quieto e' a condicao inteligente e aprazivel que o homem ocidental escolheu para viver em formigueiro, colmeia, favela, cidade, vila, pensao. elevador, toldo de loja.

Se um porco obceno (a) soltar um pum no elevador e aquilo criar uma forma invisivel e quase tactil, deixa-quieto. Qualquer movimento brusco de avanco e ataque ao pescoco do porco obceno (a) pode gerar uma lufada brusca de ar que vai transformar a forma invisivel num pequeno e perigoso tufao interno no elevador, espalhando a obcenidade de tal maneira que pode grudar na roupa por horas.

Mendigos bebados e putrefatos, meninos e meninas podres, drogados e fedorentos, lixo nas ruas: deixa-quieto. Desvie o caminho e o olhar. Ha sempre uma vitrine interessante, um passaro num rasante ou alguem da sua cor e raca e genero para olhar e ate convidar prum suquinho de laranja naquele buteco.

Voce sai de casa na estiada dessa chuva que cai desde a madrugada. Chuvona, canivete, sapo, cuspe de anjo, mijo de deus. Resolve ir ate ali na esquina so pra comprar uma lata de leite condensado pra fazer aquela porcaria de pudim. Dez metros da sua casa, passa um escroto num carro e joga agua em voce.
Deixa-quieto, mermao. So olha bem pro carro e pense positivo, bem positivo, materialize um pensamento direcionado pro inimigo e venca a batalha. Sim, ele porrou o poste depois daquela curva.

Dia comum de trabalho, nada a mais ou a menos. Mas o chefe - cujo ego rejubila-se por essa merda de trampo - resolve te usar de cobaia na deliciosa experiencia de capacho. Deixa-quieto, claro!
Mas some com aquele corretor de texto da gaveta dele, vai ate o wc masculino e escreve o numero da casa dele com a tintinha e desenha uma bunda embaixo.
Escreveu? Viu como a vida pode ser uma rede e uma batida de maracuja?

O deixa-quieto tambem funciona se sua auto-estima estiver em baixa, tao infeliz e analfabeta quanto o prefacio de um auto-ajuda.
Se voce estiver se sentindo um bosta, acredite, uma mosquinha, pelo menos uma, vira te beijar.
E ame e aproveite o momento, nao sera o ultimo, mas sempre e' unico.

(Segundo o brother Fabiano Tapioca, de Americana-SP, aqui no Japao nenhum sorvete exotico tem o gosto do produto exotico que leva o nome. Ou seja, o de batata-doce, no post la embaixo, nao tem nada de batata-doce. Pode ser doce, mas nao e' batata).

Homem Primata, Capitalismo Selvagem (porque eu digo nao e eles sim)

Cheio de nove horas, titulos longos e revolucoes constantes desde hoje porque assisti Antonio das Mortes de Glauber. E como sempre, aplaudi um filme chato-arrastado. Assisto Glauber pra me punir de mim mesmo, da minha burrice, talvez.
Eu acho a obra de Glauber um saco. Por isso eu sou burro. Todo mundo ve um cinismo de genialidade naquele monte de discurso datado e stalinista-conservador. Glauber filmava o futuro porque fazia um filme como se escrevesse um blogue, tudo ao redor de seu umbigo baiano urbano. E mentiroso, cantando (cinicamente) o feio do sertao. Aplaudo Glauber por sua tremenda cara de pau. Morta, mas constante.
Eu gostaria de escrever um blogue como se fizesse um filme. Talvez saisse melhor que a camera na mao e uma ideia na cabeca. Ordem e Progresso, veni vidi vinci, in hoc signo vinci. Frases de ontem e macos de cigarros. Bu!
O big-brother das tomadas na parede sao as verdadeiras cameras-ocultas em busca de nossas fragilidades. O liquidificador, o barbeador eletrico, abajur e serra tico-tico nos vigiam deflagrando a grande conspiracao eletrica pela estetica e prazer pessoal.
A foto que estampa esse bla-bla-bla representa meu cotidiano. Eu sou um dos jacares do meio e nao quero ser nenhum. O grande jacare-cabecudo nao entende que eu nao faco parte desse fauna e nao represento um grupo, uma faccao ou tao somente-eu-mesmo nessa hierarquia burra. Nunca acreditei em heraldica e poderes e responsabilidades sob normas.
Acredito em 3 repteis: Minha tartaruga Tata; a Clara Crocodilo de Arrigo Barnabe e o jacare dos Piratas do Tiete. O resto e' dog eat dog, mermao.

Fotos que eu gosto de bater

Sim senhor! Sorvete de batata-doce. Nao, melei a mao num de manga. Arrisco, sempre que posso e ate curto essas exotices locais, mas nao petisco tanto assim.

Ruy Ohtake e Gaudi


La em cimao, Ruy Ohtake. Abaixo, a Sagrada Familia, de Gaudi.

Em toda cidade que passeio a pe, nos centros, rente aos predios, arranha-ceus ou nao, gosto de olhar pra cima, ver o quanto aquele teto toca o ceu. O contraste entre o etereo e o telurico no meio da arteria urbana, concretao, latex e massa corrida. A arquitetura me fascina por causa do conceito simples e basico que e' viver numa obra de arte idealizada estetica e eticamente entre o arquiteto e o morador. A praticidade e a estetica num conceito unico, a sua casa, o lar. Isso e' fascinante. Ha muitos anos um grande amigo e artista plastico me mostrou Gaudi e infelizmente - para ele - nao gostei e ainda nao gosto e acho que nunca vou gostar.
Estava partindo de Madrid para Paris numa tour mochileira pela Europa e Gaudi me foi altamente recomendado por Fernando Cea na visita a Barcelona. La, fui ao Sagrada Familia, uma imensa catedral, a grande obra de Gaudi e me decepcionei. Nunca vi coisa mais feia, hedionda e pavorosa, porem tao cultuada. Na volta a Madrid, ele me perguntou o que eu achei da catedral.
- Um intestino virado do avesso.
Foi um choque, uma blasfemia, quase uma ofensa.
Ja Ruy Ohtake foi uma surpresa dentro da surpresa. Nao sei porque estava andando sozinho no Itaim, por ali. Acho que tinha saido da casa do Glad - que nessa epoca morava quase na beira do Ibira - ou estava perdido mesmo. E no meio de tantos predios residenciais, estava olhando para cima ate que encontrei o predio da primeira foto, essa obra-prima de Ruy Ohtake. Fiquei la de baixo olhando todas aquelas ondas e elas dancavam sob as nuvens. Varios minutos. Atravessei a rua, fiquei bem de baixo, um pouco mais afastado, de lado, namorei a obra de todas as formas. Nem sabia que era do cara. O grande insight foi ver a arte sendo usada apenas para morar dentro. O bale dos balcoes dos terracos num equilibrio de formas e ousadia. Um tesao.
O porteiro saiu e perguntou o que eu queria. Nada, so olhar. Nao pode. Claro que pode, isso e' lindo, foi feito pra olhar. Nao, nao pode. Tentei argumentar, conquistar dizendo olha que predio maravilhoso, voce trabalha num lugar maravilhoso. Nao pode, os proprietarios vao reclamar, e' melhor circular, japones. Cara ignorante, mula energumena, caga-osso. Dei uma ultima olhada e quase mandei um beijo.
Anos depois fiquei sabendo que era do Ruy Ohtake e aplaudi mais uma vez, quase um bis da sensacao daquele dia.
Ontem eu estava jogando conversa fora com o Fabio - que e' arquiteto - e citei esse predio. Ele me disse que e' da fase antiga do Ruy e que tambem concorda que o bagulho e' do balacobaco.
O Ruy, nessa atual nova fase, corta uma melancia gigante e bota um hotel dentro. Ja nao me inspira tanto.

Insone II

A insonia ja e' uma perna, nao tem como arranca-la, viver sem as excursoes ao banheiro pela madrugada, o copo d'agua, a conferida na Tata, na porta de entrada, na garagem, nos carros.

E a ciencia empirica, senhores.
Ela esta la, naquele voo silencioso e flutuante, um colibri da sacarose.

Mosquinha de banana tambem nao dorme!

Da infancia me lembro que as formigas em Peruibe dormiam. Eram umas sauvas vermelhas que atravessavam o terreno em frente e brilhavam quietas forradas de orvalho matinal. Bastava cutucar uma, so uma e a fila toda andava constrangida dessa estranha greve beiramar .

Chefes, o que sao essas esquisitices anti-darwin?

Fio, acredite, essa gente toda envolvida em planos mirabolantes para salvar empresas e dizer que sao seus amigos, na verdade sao as sauvas vermelhas do seu jardim. Cuidado, na hierarquia do mundo onde Tom Jobim, Emily Dickinson e Joan Miro estao proximos do topo, chefes nao constam. Nem cozinheiros de raspa-burguesia.

5:10 e friozim.

Dom Michael Corleone

Antes

Depois

"O Poderoso Chefão" restaurado ganha duas sessões na Mostra de SP

Recentemente, a trilogia "O Poderoso Chefão", de Francis Coppola, com Al Pacino protagonizando os três segmentos da saga, passou por uma extensa restauração, que incluiu até correções de cor e exposição na magnífica fotografia de Gordon Willis. O resultado pode ser visto na caixa "O Poderoso Chefão - The Coppola Restoration", com um disco recheado de extras que explicam todo o processo pelo qual os três filmes passaram.E agora também poderá ser visto na 32ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, que vai exibir uma cópia em película restaurada do primeiro filme. O público paulistano será privilegiado: serão duas sessões, uma a mais do que no Festival do Rio. A sala escolhida, a princípio, será o Cinesesc, na rua Augusta, zona oeste da cidade. As datas ainda serão definidas. No entanto, a organização aponta para os primeiros dias da programação."O Poderoso Chefão" não só elevou Francis Coppola à categoria de mestre. A saga impulsinou as carreiras dos principais artistas envolvidos na sua realização. E transformou para sempre o gênero do filme de gângster, criando um culto em torno de tudo que girava em torno da máfia ítalo-americana e da família Corleone. Mas não é só isso. Coppola dá uma aula de narração clássica como jamais se viu depois na história do cinema americano. De todos os filmes de sua carreira, este é um dos que exige a tela grande.

Insone

A insonia e' uma mula-sem-cerebro. E' a grande sacanagem do stress, da vertigem burguesa por uma vida melhorzinha. Na insonia esta o segredo da vida idiota do conto do vigario do bom salario, do sofa confortavel, do espetaculo das intemperies do lado de fora da janela. E chove a cantaros, baldes, sensacoes.
Pra quem costuma dormir todas as boas horas de uma noite, a pessoa que sofre de insonia e' uma praga estranha a ser desvendada.
A grande pergunta e' o que se passa na cabeca desse solitario amante da escuridao dos zumbis?
O que sobra da escuridao e do zumbi e' a solidao, meu caro dorminhoco. E nela esta a formula para tentar voltar a dormir depois de sentir-se um bife e virar de um lado a outro da cama-frigideira. As quatro paginas do livro de nada valeram, nem o gibi, o Laerte, Asterix ou Mafalda. E chega de Maracugina ou camomila.
Eu sei o motivo da minha insonia. Essa e' a pior parte porque o que me resta e' tentar salvar um pouco da humanidade daqueles escrotos que trabalham comigo enquanto estou acordadao no vespertino e proletario horario dos vivos.
No fundo, no cerne do fundo do meu indelevel umbigo, eu quero que todos eles vao se fuder. E que me abandonem na escuridao e me deixem bocejar em paz como um cachorro feliz na varanda.
Em tempo, sao 3:46 da madruga e correndo.

Fernando Gabeira - 43


Eu nao voto em ninguem. Nao por essa rebeldia anarquica pos-tudo, nem pela inconsequente falta de opcao politica para administrar a cidade, o estado, a nacao. Nao voto porque nao moro no Brasil.
Em Sao Paulo meu voto seria uma ausencia e todas as explicacoes posteriores no tribunal eleitoral. A opcao e' melhor que a obrigacao, a minha democracia do coracao quer assim. O voto obrigatorio e' a maior arbitrariedade que criaram desde que mamae Medici amamentou seu futuro generalzinho, isso ha quase um seculo pro tosco ficar adultao e dar em encrenca no auge da ditadura militar.
Mas isso e' historia. Eleicao tambem. Todas. Pelo menos e' o que a nossa eterna esperanca aguarda a cada teclada na maquininha.
Por isso, Gabeira no Rio e nada mais. A cidade do Rio de Janeiro precisa dele. Nao e' porque ele e' honesto ou correto, pai de familia, bom vizinho e reciclador de lixo. E' so porque ele e' um pedaco muito bacana do Brasil.
Entao, gente boa do Rio, Fernando Gabeira pra prefeito. ele e' 43.
Hoje no Rio, amanha no Brasil. A gente merece.

PS. Aproveita o domingao, passa numa livraria e leia Gabeira. Pode ser aqui tambem.

Um filme patati patata com La Bellucci

Vi um filme com La Bellucci e ela foi estuprada no meio da pelicula por um cafetao gay. Nao, ela nao trabalhava pro cara.
A cena ate ficou tecnicamente boa, mas de um mal gosto, mal agouro, sem tesao.
La Bellucci nao merece uma merda dessa no curriculo. Nem no curriculo curriculo.

Tem La Bellucci no Matrix e ela muda tudo com sua presenca incontestavel e magnetica.

Pensei num argumento para um roteiro de um curta.

Um cara muito comum casa com La Bellucci. Nao com uma personagem de La Bellucci, mas a propria. Casa linda, modernosa, requinte para ir do terraco ao lavabo, saca? Rua larga, pouca iluminacao. Lua-de-mel num iate nas cidades costeiras no Mediterraneo, sul da Espanha, da Franca, Italia e Grecia. Y la Bellucci todos los dias, maio biquini, nua, vestidos, sarongues e oculos escuros. Dezenas.
Voltam para casa.
O cara pendura um poster em tamanho natural de Monica Bellucci na parede do quarto, moldura folheada a ouro, de frente para a cama, local nobre.
Expulsa La Bellucci do quarto, diz que ela nunca mais vai entrar ali, que ela e' Made in China, dumping, falsificada, canalha.
Fim.

Marmota em Mar Morto

Hoje de manha vi a foto da Marta e achei que era o Vesgo. Nao sao parecidos, nem eu to louco. Nao sao sosias, nem clones. Mas achei que uma era o outro.
Olhando bem, nao to tao doido assim., quem vota e' que sim. Alias, nunca a minha cidade esteve tao mal representada.

Em terra de cego, quem e' vesgo se elege?

Sofa

Esquizofrenia ao alcance de todos.
Esse sofa e' meu porque esta perdido em Berlim. Na verdade ganhei de presente da
Re que Ri de Santo Andre, o da borda do campo.
Mas nunca sentei num sofa em Berlim porque nunca la estive.
Seria Santo Andre um gandula de deus, dos jogos de Jesus e seus atletas? Nunca saberemos.

O sofa e' meu porque e' a minha cara e ainda vou fazer um assim. Yeah.

O Retorno

Apos mes e meio trampando no periodo noturno, das 19 horas e 7 da manha, volto ao padrao cristao de labuta e suor atras do pao, das 8 da manha ate as 5 da tarde.

Trampo noturno so pra pagao mesmo. E olha que os ateus deveria ter ferias anuais. Ano todo!

Chuva com cara de dois dias.