Todos estão mortos

Todos estão mortos.
Morreu a menina primogênita da tia mais querida.
Morreu o sãopaulino da banca de jornal que mostrava os peitos das moças nas revistas masculinas.
Morreu o porteiro Elpídio que nos expulsava do prédio com vassouradas no ar.
Morreu o síndico do outro prédio que era uma bicha velha amarga e triste de doer.
Morreu o pai da libanesa feia com cara de homem que queria casar a filha e nos prometia fortunas e lojas e pagava a conta do boteco para começar a barganha pela filha.
Morreu o seu Zé que era o dono do boteco que vendia x-burguer com queijo e x-burguer sem queijo.
Morreu o avô centenário que fazia as sombras dançarem sob a luz do abajur para as netinhas queridas.
Morreu o meu avô que no nosso último encontro me deu uma pequena fortuna em notas falsas fabricadas pela Shindô Remmei, a seita dos assassinos japoneses do interior paulista.
Morreu a C. cujo apartamento tinha um piano e onde embaixo desse piano dei meu primeiro beijo de paixão.
Morreu o Mario Marinho, preto alegre bom de bola que injetava na veia sob o pretexto de viver melhor.
Morreu o homem solitário. Mesmo numa multidão, uma pessoa morre sozinha.
Minha vida não morre porque ainda posso vê-la. Pois é.

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