50 100 Duzentos


Comemora-se tudo. Em 1961, hoje - tá no gugo - Yuri Gagarin subia e sabia que a Terra era azul. O Sputnik já sabia antes, mas não sabia falar.
Pior se o cosmonauta (pois é, astronauta é ianque, cosmonauta é vermelho) dissesse que a Terra era roxa, um Paranazão nesse mundo véio sem porteira, sô. Além dos russos descobrirem que o camarada Yuri era dautônico e o mandarem para a Sibéria por propaganda estatal enganosa, haveria o mico socialista científico em letras garrafais no Pravda.
Mas 2008 chega carregado de efemeridades comemorativas suculentas e insossas. Algumas não.
Tem é claro, o fato de que, se você que está lendo esse texto está vivo, em 2008 você VAI comemorar seu aniversário, ou não, dependendo da solidão da porta pra dentro de casa. Pelo menos, sobreviva até lá e confira.
Nesse ano, algumas pessoas interessadas em vender mais quitutes nas barraquinhas da feirinha no bairro da Liberdade, estação Liberdade, na Praça da Liberdade, em frente à Igreja dos Enforcados (!!), vão comemorar os 100 anos da chegada dos primeiros japoneses no porto de Santos. Uau.
Tudo é muito morno ao cuidarmos dos japoneses no Brasil. Não, não to cuspindo no prato que comi e nasci, mas é sim. Tá na cultura, no modus operandi milenar ser e estar desapercebido, sutil e silencioso.
Outro dia eu disse isso a um cara, que esses 100 anos não me atingem de maneira emocional em nada e que tudo permanecerá como tal até os 101 e 102 anos. Ele argumentou que se não fossem os pioneiros há 100 anos, poderíamos ser argentinos, mexicanos ou bolivianos feito Hugo Chávez.
Claro, eu disse. Mas meus avós chegaram no Brasil em 1933, eles poderiam ter sido os pioneiros e que se danem os que chegaram antes. O fato de ser argentino ou mexicano me deixariam bastante contente pois do mesmo modo eu teria a cultura latina, ibérica, sacaninha e tiraria sarro dos botocudos brasileiros. Mas boliviano feito Hugo Chávez seria impossível. Ele replicou dizendo que isso é racismo, que etc etc. Eu disse não, meu chapa. Um navio japonês nunca ia atracar num porto boliviano porque lá não tem mar e o Hugo Chávez é venezuelano, jefe.
Em 2008 tem 200 anos de Dom João VI, esse sim uma grande figura. Principalmente quando quem o faz é o Marco Nanini em Carlota Joaquina - Princesa do Brasil, da Carla Camurati.
Há muitos anos, passeando em Londres, no bairro de Hammersmith, eu vi um cartaz desse filme pregado num poste. Deu um nó na garganta de orgulho! Ali eu já estava comemorando a chegada dos Bragança em terras tropicais. Mas assistam, é um filmão.
Mas o que eu vou comemorar mesmo são os 50 anos da Bossa Nova ouvindo muito piano, violão, poesia, sussurros e Chet Baker e tal.
O João Gilberto virá em novembro, especificamente, em Tokyo. Vou lá, ouço, assisto, tenho um orgasmo e um desarranjo intestinal. Pronto. Um mico maior que a terra roxa de Gagarin.

2 comentários:

SombradeSonhos disse...

50 anos de bossa nova é realmente uma data boa para ser comemorada, ao som de grandes vozes....

TARCIO VIU ASSIM disse...

Nei desculpe meu preconceito sertanejo anti-bossacariocabaiananovacinquentona mas eu que escuto de (quase)tudo (e gosto) não consigo engolir esse troço ... vá lá que até gosto quando ouço com Elizete Cardoso mas João Gilberto ??!! oh céus! De todo modo, bons orgasmos pra vc. Toda forma de gozar vale a pena, mesmo as mais absurdas...:)