Dia do Indio, que líndio


Todo dia era dia de índio. Depois que vim morar no Japão e o verão rareou na farra do ano e começou a ser menor que o inverno, o primeiro dia de praia nesses bissextos veraneios é quase um novo ano novo.
E por uma tradição que sei lá porque deu na telha, escrevo na areia "todo dia era dia de índio" nesse primeiro dia na primeira praiada.
Mas já não gosto tanto de praia assim. Aquele exagero de natureza me cercando por todos os lados rola uma solidão e bate uma saudade de pisar em chão liso ou ter uma tomada ao alcance da mão, por exemplo. Deve ser algo que surge com a idade ou o excesso de comodidade. Ou ambos e trambos. Hoje em dia prefiro um rio e sua margem. Basta a margem, nem tanto o rio. A farra histriônica do verão é cansativa. É, é coisa de gente do século passado.
Tem a coisa do programa de índio. O fenômeno pejorativo destruiu o convite de um índio para sempre. Para qualquer lugar que ele te chame para visitar, passear, usufruir, será um programa de índio. Pode ser até o seu lugar favorito, mas se ele estiver junto, o programa de índio será absoluto e inevitável. Com um índio ao lado, um dia de Louvre é um programa de índio.
O índio pra mim é uma coisa teórica, quase fictícia. Nunca conheci um índio. Não sei onde eles moram, se realmente existem. Se eu ver mais de dez índios juntos, vou achar que querem invadir o forte apache.
Se um programa de índio é aquilo lá, imagine um dia de índio. Um dia inteiro de índio. Agora imagine que todo dia era dia de índio.
Está explicada a atual e eterna contramão pejorativa em que o Brasil se encontra?
Não, não está explicado e o PARTIDO ANARQUISTA MACUMBADO não tem nada contra os peladões e as de peitos caídos. Nada. No entanto, urbano na origem e na concepção, não pode ter nada a favor. Nunca participamos de fóruns sociais com esquimós, ainus, bosquímanos, guaranis e aborígenes. Um dia a gente pode até tirar a camisa nessa orgia étnica. Mas vestir, não sei não.
Então, concluindo, vai lá.
(Como diria o Millôr, daquelas coisas que a gente escreve e pensa que nessas horas, assim como tem o ponto de interrogação e exclamação, tinha que existir o ponto de ironia, que seja, nevermind).

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