LAMA

Em 1992 o dalai lama foi a São Paulo e eu estive lá. O Glad foi comigo ou eu com ele. Acho que mais eu com ele porque nessa época ele queria montar uma confecção de roupas indo-sérias. Eu digo indo-sérias porque as batas e saiões indo-Ganges são muito indo-hippies. E hippie não é sério nem aqui, nem 40 anos atrás.

Ele - o Glad - sempre teve essa vontade louca de transar um nirvana e alcançar o tantra total.

Foi lá no Ibirapuera. Além do dalai, tinha um pessoal meio na contramão, tipo PT ou de movimentos ecológicos de esquerda, salvem tartarugas marinhas ou mata atlântica. Considerando o tipo de leitura e estudo que um monge tibetano tem, eles nem têm idéia do que é uma tartaruga, quanto mais marinha. Muito menos a mata atlântica, a serra do mar ou o rei da pamonha na Anchieta.

Mas fomos lá, Glad, a esquerda festiva e eu. Não havia coro de torcida feito a galera católica quando vê um papa. Nunca fazem festinha pra bispo, arcebispo, mas só pro padre Marcelo e pro papa. Se fosse deus, logo acima do papa, acho que rolava um silêncio constrangedor. Festinha e abano de rabo, só pra papa, padre bobo, qualquer um e um de cada vez.
Católico não pode ver um papa que pira, canta, faz rima. Só falta o papa fazer um golaço de canhota no ângulo do goleiro ateu.

O dalai fez um discurso longo, coisa de meia hora. A gente tava sentado muito longe do cara, ouvíamos a voz do homem pelo pior sistema de som do mundo. No caminho, na expectativa do encontro com uma das encarnações do buda, achei que ia sentir um troço, tipo um transe, um axé, sei lá. Que nada. Chiadeira no discurso eliminando a menor possibilidade de um êxtase federal. Só no dia seguinte li na íntegra o que ele falou, num jornal. Coisa de paz com paz e mais paz.

Cada vez que esses caras pedem paz, menos tem.

Viram o terremoto na China? Coisa pequena lá é de dez mil mortos pra cima. Na China tem tanta gente que quando você solta um pum num local absolutamente ermo e isolado, uns quinze chineses escutaram o fininho. Quando começou a rebeldia no Tibete e o dalai disse que não tinha nada a ver com o rebu, fiquei intrigado. Ele disse que iria orar pela paz. Olha o papo de novo. Aí deu um terremoto. Antes, porém, deu um aguaceiro em Mianmar, ali do lado.

Eu moro no Japão, seu dalai. Me esquece.

2 comentários:

Dani (ela) disse...

em Mianmar os caras não estão deixando ajuda entrar... piração!

ó, fica quieto aí, não reclama muito não prele não te ouvir.

rnt disse...

adorei o texto: acidez mode on. "Eu moro no Japão, seu dalai. Me esquece." é muito legal tbm.