Paciências

Quando eu soube que o Luiz Fernando Veríssimo e o Chico Buarque jogavam paciência ao invés de trabalhar, fiquei tranquilo com relação à minha relação com esse jogo. A desculpa inevitável é que estamos distraindo a atenção do objeto, que é o texto. Chega a ser quase hegeliano. A pessoa que colocou esse jogo na primeira versão do windows e que tem sobrevivido aos avanços tecnológicos do programa mantendo-se intacto e igual, sabe o valor totêmico que tais cartas dispostas assim exercem sobre os jogadores. Aprendi a jogar paciência com a minha avó que também me ensinou pifpaf e maumau. Nas cartas de verdade, é possível roubar quando o jogo de paciência trava. A minha avó reembaralhava três vezes e reiniciava inocentemente o jogo, vencendo ao baralho, claro. No computador não, a gente perde e perde e ele fica ali, estável, desafiador, esperando teu clique no mouse. Esse desvio de conduta e atenção, enquanto descreve-se uma cena, uma fala de um personagem e passa-se ao jogo sem sentimento de culpa - ou carregado disso, mas inevitavelmente, jogando - é muito parecido ao que aconteceu ao Ronaldo e seus travestis. Parece nome de banda de rock. A idéia que eu tenho de um milhão de dólares é diferente da que ele tem. Não sei qual é a dele, mas sei qual é a minha, a inalcançável e utópica idéia que tenho dos sete dígitos na minha conta. E quando há uma idéia diferente da minha com relação a tal montante de grana, sua sexualidade vale o que você quiser, bêbado ou careta. A minha sexualidade vale o que eu quero, ainda nos seis dígitos. Mas deixar o texto de lado, a cena, a fala crucial de um personagem para ir jogar paciência na janela sobreposta do meu pc equivale a sair bêbado de uma boate e procurar ajuda sexual e emotiva de três travecas. Na verdade, engana que eu gosto, é isso. Agora, jogar no ventilador e negar quando todo mundo viu, é feio. Por isso, eu jogo paciência sim. Mas se tivesse um milhão de dólares ou mais, não iria pra farra com três travecas. Nada contra. É só uma questão de gosto, prefiro a paciência que minha avó me ensinou, roubando, inclusive.
Aliás, prefiro mulher.

2 comentários:

Kenia Mello disse...

Armar com a Globo pra limpar a barra foi o cúmulo da forçada de barra mesmo.
Agora, quem na posição dele não negaria? Acho que bem poucos teriam bolas para isso, com o perdão do trocadilho. :)

Rꬬ disse...

paimei adora paciência. é capaz de ficar horas na frente do micro. especialmente se estiver precisando se acalmar. virou especialista em mouse por causa diss: joga contra o tempo tbm ¬¬