IMPOSTORES

I
Hoje choveu um verão. A semana promete.
Hoje tava tranquilo trabalhando e pensando na vida. Não há outro meio de trabalhar senão pensar no que nos faz sair da cama: vida. Tava lá tranquilo, vida, patati-patata, quando tocou o celular. Olhei pra ver e era um número desconhecido. Fiquei intrigado. 13:14 não é uma boa hora para telefonemas. 13:22 e o troço vibrou de novo no bolso. Atendi.
Alô, era o cara do departamento de imposto de renda do município. Ligou para dizer que estava com a minha ficha na mão e que eu havia parcelado a mordida de 2008 e que nenhuma estava paga.
Como esses caras falam japonês para japonês não se importando se você não o é, retruquei dizendo que a parcela referente ao mês de maio eu iria pagar amanhã, dia 4 de junho, que sim estava atrasado, mas que iria pagar amanhã.
O cara do departamento de imposto de renda do município disse que não, que nenhuma parcela estava paga.
Aí minha ficha caiu. Eu estava no meio de um engodo kafkiano. Eu era o próprio Gregor Samsa transformado numa barata e o cara do departamento de imposto de renda do município era um chinelo. Eu disse que não, que havia pago e que tinha os canhotos de todos os pagamentos. O cara do departamento de imposto de renda do município ficou macho, alterou a voz, cresceu. Disse que se assim fosse, que levasse para ele ver. Eu disse que sim, que de qualquer forma iria à prefeitura resolver outras pendengas e que daria uma passadinha no 3o. andar só pra esfregar os canhotos na cara dele. Não disse assim, mas o tom foi esse.
Desligamos.
Liguei no mesmo instante para a intérprete/tradutora da prefeitura falando do cara do departamento de imposto de renda do município que tinha me ligado re-cobrando o já pago etc. Ela disse que iria verificar, que eu ficasse calmo, que às vezes o sistema falhava.
O sistema. Ela citou a palavra errada na hora certa. Ela poderia dizer establishment e ia dar na mesma. O Politburo, a Nomenklatura e nós, os réus.
Liguei às 15:02 e ela disse que na minha ficha no computador eu estava inadimplente. Nada-consta. Zero.
Ok, dear, amanhã eu passo aí e enfio essa...

II
17:34 em casa com o envelope dos canhotos na mão. Toca o celular, era o cara do departamento de imposto de renda do município todo moça, cheio de boas tardes.
Senhor Schimada, ele disse, nós verificamos a fundo e pedimos mil desculpas, mas de fato, está tudo pago.
Ok, senhor cara do departamento de imposto de renda do município, amanhã eu passo aí e você tira cópias dos meus canhotos para incluir no meu prontuário.
Não será necessário, Sr. Schimada.
É necessário sim, senhor cara do departamento de imposto de renda do município, é necessário sim.
Estarei aí às 10:00.
Sim, Sr. Schimada.

III
Eu sou um chinelo, pensei.

5 comentários:

Kenia Mello disse...

Ai, quando eu estou com a razão eu cresço, viro plataforma de drag queen. :/

Dani (ela) disse...

puuuuuxa, quero ser chinelo várias vezes por semana! odíu cum bem força ser barata...

:-)

Hiel disse...

Ok, ok, não ando lendo muito e vai demorar mais uns dois anos para começar. Onde leio sobre este negócio do chinelo só pra saber do que você estava falando?

Kenia Mello disse...

A Metamorfose, de Kafka. :)

Hiel disse...

Valeu, Kenia