Quem pegou no meu Tupperware


"Aquelas coisas que a gente só pensa quando tá lavando a louça". (Laerte)

Tava lavando a louça e ali do fundo apareceu uma tampa de tupperware diferente de todos os tupperwares de casa. Conheço todos do armário.
É importante esclarecer que o tupperware é uma das drogas mais viciantes e eficazes do pós-industrial tanto quanto o carro, a televisão, o pc e o celular. É daquelas coisas que após algum tempo de uso a humanidade se pergunta como viveu sem aquilo por séculos. Eu me lembro do mundo sem pc nem celular, mas parece que nunca aconteceu. Também me lembro do tempo que não tinha carro e também parece que sempre tive um. Na verdade, o passado tem por condição parecer que nunca aconteceu, ainda mais um passado assim, sem carro, celular e computador.
Mas me lembro de um mundo onde tudo era guardado em pratos e havia uma redoma de plástico que vendia na feira que cobria o produto dentro da geladeira. Um plástico ordinário que trincava à toa e quando quebrava, cobria-se com pano e às vezes ia pra dentro da geladeira com pano e tudo. Pudins ainda vão sem tampa.
Um dia apareceu um tupperware em casa e depois outro e mais e mais até a coisa multiplicar-se feito gremlin na água da pia da cozinha. Depois os tupperwares viraram outras marcas e mais adiante caíram na mão dos chineses e surgiram as lojas de 1,99 e desde então compartimenta-se o mundo em caixinhas multiformas e cores.
Voltando à pia, aquela tampa tinha a sua cara-metade e não poderia estar muito longe.
Lembrei de um jantar na casa de amigos e que ganhamos um tequinho de um doce. Se fosse no mundo pré-tupperware, viria num pires com um guardanapo em cima.
A cara-metade estava no escorredor de louças e a tampa escorregara. Lavei direitinho.
Mas aí vem a frase do Laerte que preambula essa bobagem toda:
Lavei o tupperware com toda gentileza e atenção redobrada pois estou devolvendo e quero deixar boa impressão, se possível, impressão nenhuma sobre o plástico. Devolvo com cheiro de detergente de maçã. A pessoa recebe, diz que não tinha pressa, aquelas coisas. Nós nos conhecemos o suficiente para saber que ambos somos asseados, higiênicos, não temos doenças contagiosas tipo ebola, hepatite ou hanseníase, mas a grande dúvida me corrói: Ao chegar em casa ela vai colocar direto no armário confiando na minha asseada e carinhosa lavada ou vai jogar na pia para lavar de novo, certificando-se do óbvio e dando de si para concluir a higienização de um objeto que é seu?
Vai lavar ou vai guardar?
Se vai lavar, pra que cargas d'água eu lavei com atenção redobrada?
Se vai guardar, ótimo, agradeço a confiança depositada.
A outra questão laertiana que me corrói - essa muito mais por causa da formação latino-judaico-cristã - é:
Porque quando recebo um tupperware que emprestei, mesmo sabendo que a pessoa não tem ebola, hepatite ou lepra, lavo de novo?

5 comentários:

rnt disse...

pq no caminho, drendo carro, ou mesmo drenda sacolinha que vem no colo da mãe, ela pega ventinhos cheios de pó e bactérias e daí a gente fica imaginando aqueles monstrinhos invisíveis pulando da tupperware viajante e atacando nossas loças residentes limpinhnas...

Kenia Mello disse...

Ah, pois eu tive uma vizinha que sempre que eu mandava alguma coisa pra ela num prato, travessa ou tupperware, ela devolvia com alguma comidinha pra mim, muito gentil isso.
Mas o danado era a contrapartida: ela sempre me mandava coisas e eu tinha que devolver com outras e como não sou muito de cozinhar, adotei a técnica de mandar bombons, acabou meu stress. ;)

Eu lavo sempre quando recebo, não por não confiar na higiene alheia, mas porque de tanto ir de mão em mão, acaba sujando. ;)

Hiel disse...

Nunca pensei nisto, vai ver foi porque nunca lavei um tupperware... é assim mesmo que escreve-se isto?

Dani (ela) disse...

"quem souber, morre". é assim que minha irmã responde perguntas irrespondíveis :D

também lavo. e daí?!?!?

Hiel disse...

Mudei