Só um tapinha não dói

Parei de fumar no dia 10 de novembro de 2007. Tomei a atitude de chofre, catei os maço, maços reservas, isqueiros, cinzeiros e joguei tudo no lixo.
A decisão não foi tão violenta e rápida assim, demorou mais tempo, uns dois anos. A idéia de parar aparece sempre que a gente pega o maço, tira o bastão de fumaça e acende. Fuma. Pensa que é o Bogart ou o Dirty Harry. Relaxa, a nicotina relaxa. E tosse e fica fedendo.
Vira um ritual bobótico. Vai tomar um banho, um cigarro antes. Liga o carro, outro. Senta no pc, ajeita o cinzeiro, o café e o maço, acende e pega no mouse. Até o mouse fica fedendo, tadinho.
A vida gira ao redor do cigarro. Eu fazia caminhos para o trabalho onde houvessem máquinas automáticas de cigarros ou onde a loja de conveniências vendesse cigarros. Tinha maço reserva no carro, em casa, no armário. A cor azul clara no tom do Mild Seven 6 mm me fazia alusão ao maço e eu acendia um. Um fetiche, uma droga de fetiche.
Comecei a fumar com 13 anos e parei com 42. Foram 29 anos e estou abstêmio há 7 meses. Às vezes dá vontade, agora por exemplo. A nicotina é poderosa. Não tenho delírios ou tremedeiras crônicas. Mas dá vontade sim e não é numa hora estressante, é na hora do relax. Já me disseram que a vontade será para sempre, que o vício é da vida mesmo. Quando parei achei que nunca mais ia tomar um cafezinho. Balela. A combinação de café e cigarro é o sanduiche dos campeões, disse Jim Jarmusch em Sem Fôlego (1995) numa cena antológica com Harvey Keitel. Aliás numa cena onde ele diz que aquele será o último cigarro, já que ele comprou todos os Marlboros ali na charutaria que o Harvey é gerente ou dono, não lembro.
Mas continuo tomando café e não fumo e o café não fica vice-campeão. Meu time sim, mas isso é outra história.
To escrevendo isso porque hoje vi um homem fumando num ponto de ônibus. Não tinha pinta de Bogart e ele fumava daquele jeito muito escroto que é soltar fumaça fazendo biquinho para sair uma lâmina fina de fumaça. Achei feio e conclui que o cigarro sempre esteve ligado a uma sensação estética cinematógráfica fetichista e freudiana (um charuto é apenas um charuto, herr doctor?) e que freudiano sim, pode ser, mas estético cinematógráfico o escambau porque é feio o ato de fumar. Não que eu seja lindo, mas não devo e não posso piorar-me.
Se faz mal ou não, o problema é de quem fuma. O lance que é feio, o ato todo, o ocupar de uma das mãos para segurar o bastão de fumaça e bater cinzas nervosamente pelo mundo, as bitucas, as bitucas. O pior foi o biquinho. Esse acabou comigo. E com ele.

3 comentários:

rnt disse...

com biquinho ou sem biquinho, o problema do cigarro é que FEDE como todos os demônios. e me faz espirrar. e ano passado fui encontrar um casal de amigos mor legal, mas os dois fumavam loucamente, era um bar, voltei enjoada meio quase vomitando pelo caminho e paimei morreu de dó: desacostumei da fumaça, não saio mais de casa, quase. daí qdo encontro alguém fumando, estranho muito.

rnt disse...

com biquinho ou sem biquinho, o problema do cigarro é que FEDE como todos os demônios. e me faz espirrar. e ano passado fui encontrar um casal de amigos mor legal, mas os dois fumavam loucamente, era um bar, voltei enjoada meio quase vomitando pelo caminho e paimei morreu de dó: desacostumei da fumaça, não saio mais de casa, quase. daí qdo encontro alguém fumando, estranho muito.

Kenia Mello disse...

Deixei de fumar há sete anos, mas não foi por causa da feiúra, biquinho e tal. Larguei por nada me prende, nem os vícios.
Além do mais, na época malhava 5 dias por semana e estava ficando sem fôlego pra isso.