No tempo do meu avô Sadaharu

I - Era assim
Ele chegou com 17 anos no Brasil e depois nunca mais voltou ao Japão. Passou a vida toda achando que todo brasileiro era desonesto e fedido.
Nos anos 30 e 40 o mundo se armava contra o Eixo Alemanha-Itália-Japão. Os japoneses residentes no Brasil sofreram represálias, não que fosse certo, mas era natural, afinal eram súditos do império asiático inimigo. Tudo muito bem escrito e contado em Corações Sujos do Fernando Morais.
Minha avó Tamy conta do pai dela preso só porque tinha livros japoneses em casa e da marmita que ela jovem lhe trouxera e que fora cutucada com o dedo indicador pelo carcereiro. Meu bisavô Okamura era um homem de pequena estatura, mas um grande homem, mil virtudes, sábio, tudo no olhar.
Nos anos 60 todos eles largaram os sítios no interior do Paraná e foram para São Paulo. Meu avô Sadaharu era taxista e me contava, com um certo orgulho e raiva, que não pegava passageiro preto. Só uma vez, porque a preta estava grávida. Na verdade, eu sempre achei que ele tinha cara de japa bem puto e queimadão de sol pelo janela do fusquinha, ou seja, tudo vinha carregado de certo orgulho e raiva.
Nunca entendi nada disso como diferença, mas como igualdade. A igualdade do gueto dos italianos, espanhóis, judeus, árabes, pretos e orientais. Dentro do quarteirão dos orientais, o descarado racismo entre coreanos, chineses e japas, filhos e irmãos étnicos mesma Mongólia, mas inimigos de guerra por séculos. Raiva que se estendeu aos filhos e netos imigrantes. Nunca tive amigos coreanos ou chineses, não por raiva, mas por falta de oportunidade.

II - Agora é assim
Uma das frases mais comuns falada por brasileiros aqui é:
- Tinha que ser japonês.
Quando ouço isso, lembro do meu avô contando de algum passageiro gaijin daquele dia. A situação se inverteu.
Só não entendo porque ao invés de ficar reclamando, não pega um vôo e volta pro Brasil. Hoje em dia é muito mais fácil do que no começo do século passado, uma viagem com meses de navio por oceanos.
Já ouvi uma pessoa reclamando de lugares freqüentados por brasileiros porque brasileiros são histriônicos e mal educados. Essa mesma pessoa gosta de ir em lugares onde há uma maioria de japoneses porque esses são mais discretos. Mas essa pessoa detesta o povo japonês, está há quase uma década aqui e ainda não aprendeu o idioma. A maioria é assim e isso abre o abismo entre os dois povos, o nativo e o convidado.
Meu cunhado é japonês e a gente se comunica de forma muito particular entre o japonês e o inglês. Damos muita risada. Muita. Estivemos no Brasil e ele entendeu muita coisa que pode parecer de uma superfície cultural latina ou minha pessoal ou apenas brasileira, ele entendeu a profundidade de uma diferença cultural que não divide, separa, mas soma. E eu, ao perceber que ele entendeu toda essa trama racional e emocional, descobri que as pessoas são apenas pessoas, muito mais do que mero discurso humanista e anti-racista, mas que isso é uma verdade absoluta e que pode ser normal e cotidiana. As diferenças sempre vão existir, mas as igualdades também e essas lhe são superiores em ordem e grau.

Um comentário:

TARCIO VIU ASSIM disse...

Lendo e aprendendo.
Boa aula é isso, mestre Nei.
-
Té+