Causos no bosque do Monte Fuji

Quando as hostilidades norte-americanas se interromperam logo apos as bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki e, conseqüentemente, a rendição do Japão, ele tinha onze anos e morava em Yokohama. Seu nome e’ Goto.
Durante a guerra, numa tarde de verão, Goto e alguns amigos resolveram variar e desviar o caminho de volta para casa, passar numa praia distante alguns quilômetros da casa e do bairro que moravam. Apesar de ser proibido ir para perto do mar, quem diz não a garotos na saída da escola? Para ir de sua casa para a escola e vice-versa, atravessavam um bairro comercial onde alguns moradores e comerciantes temiam por sua própria sobrevivência pois eram considerados alvos táticos dos constantes e quase diarios bombardeios da frota americana na costa japonesa.
Naquele dia foram para a praia porque era verão e o céu estava claro; os aviões atacavam geralmente à noite e nunca num dia com um céu como aquele, estavam tranquilos. Conversavam e riam sentados na areia quando os estrondos vindos do mar gritavam e antecipavam a tragédia que viria. Na cidade comecaram as sirenes. Por poucos minutos, Goto e os amigos esqueceram que estavam em guerra e isso, apesar de nao ser agradavel lembrar, esquecer e' imperdoavel.
As bombas assoviavam, rasgavam o céu e explodiam exatamente no bairro que era o caminho da escola. Naquele dia chegaram muito tarde em casa pois tiveram que desviar do bairro que ardia em chamas. Por dias, o cheiro de carne queimada era insuportavel.
Goto e sua familia, centenas de familias ficaram alguns dias sem comida porque os locais de venda e distribuicao de alimentos do exercito era nesse bairro.
Quando o general McArthur desembarcou para tomar as rédeas do pais vencido, tropas inteiras chegaram para ajudar na reconstrução de setores básicos como comunicações, transporte, saúde e alimentação nas cidade de Tokyo e Yokohama.
Nesses dias de desespero, perdas, mortes, cólera e destruição, Goto aprendeu a sua primeira palavra em inglês:
- Chocolat, gimme a chocolat!
Depois aprendeu muito mais e viajou o mundo, inclusive o Brasil.
Hoje ele e’ presidente aposentado de uma fabrica de tapeçaria para automóveis e muito meu amigo.

2 comentários:

Kenia Mello disse...

Gosto tanto de ouvir histórias assim, direto da fonte, mas sou suspeita porque também gosto muito de contá-las. :P

Beijo.

Patricia Daltro disse...

Hist�rias de vida s�o sempre fascinantes. Alias, essa hist�ria me lembrou um filme de anima�o japon�s - O T�mulo dos Vagalumes - deu branco no nome do diretor, que fala sobre a inf�ncia de dois irm�os durante a 2� Guerra no Jap�o. Chorei que nem crian�a ao ver esse filme, alias, choro sempre que o vejo. � muito lindo.