Tristezas tropicais

A porrada no meu carro nao foi tao forte, mas bateu na estrutura e no eixo dianteiro e a oficina deu perda total. O seguro do cara que me arregacou cobriu meu prejuizo. Hoje fui ver uns carros no valor. A oferta anda maior que a procura, e' a crise. Mais um pouco e pego um carrinho usado, bom e barato. Quem sabe sobra um pouco do cash.

A crise mundial esta na nossa cara. Hoje um amigo foi ao centro de Hamamatsu e parou no semafaro ao lado do hotel mais chique e caro da cidade. Na frente dele cruzou uma familia, pai, mae e dois filhos. Frio, aqui ja ta muito frio e as criancas estavam de bermudas e os pais nao estavam muito agasalhados. Era nitido que nao estavam preparados para o inverno rigoroso do hemisferio norte. Recem-chegados do Brasil? Era uma familia brasileira, sem-teto. As criancas nao vivem no mesmo mundo dos adultos. Nunca. Elas iam pulando na frente, brincando, rindo. O pai encarava o chao, o branco-preto da faixa de pedestre. A mae, nada.
A mulher do meu amigo lacrimejou, solucou, chorou silenciosa dentro do carro. Comovente.

Todos os dias vou trabalhar e passo por um atalho por baixo de uma ponte em Iwata, a cidade aqui do lado, e, todos os dias vejo uma Toyota Estima parada ao lado de uma das colunas da ponte. E' um brasileiro que mora dentro de um carro de 20 mil dolares porque nao tem emprego e onde morar.

Dizem que os brasileiros sem-teto de Nagoya estao invadindo e fazendo arrastao em lojas de conveniencia para roubar comida. Dizem.

Alguem foi a praia de Nakatajima caminhar e viu um casal de chineses acampando.

O padre salesiano que cuida das almas catolicas de Hamamatsu e regiao acolheu algumas familias no salao paroquial da igreja de Sanaru Lake. Algumas. Dizem que dos 30 mil brasileiros de Hamamatsu, 5 mil estao desempregados e desses tantos, quantos no frio la fora, agora, nesse momento?

Boatos, periscopios alheios, outras cancoes, tristes cancoes de poucas notas, palavras e consolacao. Bateram no meu carro e acho que estou com o maior problema do mundo. Meu egoismo so nao e' maior do que meu ego e amor proprio.
Minha solidariedade, parca e preconceituosa, me enoja. Cru, o lance e' ser cru com sua propria alma e nao negar fogo na sua sombra.

6 comentários:

capiteo disse...

porra meu amigo, aí você falou fundo, tocou o fundo da piscina. quando leio seus textos várias vezes vem uma intriga gigante: qual teu trampo no japão? me diga antes que eu morra de curiosidade.

abraço grande, tristeza e alegria tropical

Nei Ken iti Schimada disse...

Trabalho na Apollo Piano.

Erika disse...

Oi, Nei. Meu pai já foi dekassegui e eu trabalho em um jornal nipo-brasileiro, então estou acompanhando várias notícias sobre as dificuldades dos brasileiros no Japão com essa crise. Triste demais.

Pan Box disse...

Não disse que teve vítima?

Bem disse...

Deu no Japan Probe - http://www.japanprobe.com

Brazilian and Chinese laborers complain about working conditions in Japan

It seems that Al Jazeera English has decided to pay some attention to stories of economic trouble in Japan. They’ve followed up their report on homeless people with this one about foreign workers in Japan:

http://www.japanprobe.com/?p=7594

Patricia Daltro disse...

Esse relato da crise passa longe da midia local. Falam em mercado quebrando, como uma entidade sem rosto, o que falta é o retrato dessa crise. Como o que você acabou de relatar. Ou ler nas entrelinhas dos jornais daqui que acabam de anunciar mais de 1500 demissões na Vale do Rio Doce. A crise tem rosto, nome, sobrenome, família e filhos para cuidar. E desses não se ouve falar que o governo está tentando ajudar...