A Posse

A cada quatro anos, um cidadao brasileiro toma posse do cargo de presidente da republica no dia 1 de janeiro. Esse pode ser o inicio de uma serie de erros para erguer o grande monumento da estultice nacional.
Fico imaginando esse cidadao no dia 31 de dezembro cercado dos assessores, de familiares, todos rindo e rindo e rindo e rindo. Rico ri a toa. Imagino-o nas horas intimas do gozo da solidao fisiologica, o nosso maxi-cidadao olhando o azulejo, em pe ou sentado, pensando "e' hoje". Tudo e todos voltam a ser gente comum no chacoalhar das partes ou na posse dos metros do papel branco, higienico, biodegradavel. Ate as rainhas europeias, quanto mais um cidadao da gente.
Mas po, fio, e' a super-bunda estatal!
Num momento de seriedade civica e ja vestido com a soberba do cargo, nosso cidadao rele o discurso de posse, suas promessas, seus regozijos e agradecimentos.
E ele, nesse momento inedito de fim de ano na vida de qualquer homem comum, afinal e' a presidencia de uma nacao, porem comum a todos, afinal e' fim de ano, comeca a fazer suas resolucoes para o ano vindouro.
E' ai que o bicho pega.
Ninguem segue a risca as resolucoes de fim de ano. Todas as viradas importantes na vida de alguem sao feitas num dia comum que deixaram de ser comuns porque coisas e atos aconteceram. Casamentos, viagens espetaculares, partos, cirurgias, enterros, idas, vindas, despedidas, solidoes, shows de rock, noite de autografo, vernissage, diarreia, ataque cardiaco, derrame, porre homerico, primeira transadinha, beijo de lingua, rapidinha, demorada, tantrica, adulterio, peca de teatro, primeira ida ao cinema. Eu nasci em julho, me casei em abril, fui a' Europa em maio, parei de fumar em novembro, cheguei em setembro na Asia e amanheco todo dia 1 de janeiro pensando "e dai?".
Por isso, um ato tao importante quanto o de tornar-se presidente do Brasil devia ser ali pelo segundo semestre, sem alarde, sem fogos nem confete e serpentina, pierros e colombinas, batucadas e pais de santo, craques da selecao, estrelas da televisao. Sem nada, entra, assina e ve o que tem que ser feito.
Devia ser numa segunda-feira para ir logo trabalhando, de mal humor, mas sabendo que a semana e' longa e a escrivaninha anda cheia.

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