A rapadura é chutada

Quando vou ao Brasil nunca como rapadura e nem tomo caldo de cana. A rapadura tem aquele gosto de excentricidade como cara estranha e a garapa tem a mesma coisa com uma cor também estranha. Depois que eu soube que um cara pegou a doença de Chagas na beberagem porque tinha fezes do barbeiro na cana de açucar, evito qualquer suco que não seja enlatado ou pet. Na verdade, água é melhor, só não sei até quando.
Achei essa rapadura num mercado brasileiro, a Rapadura Bahianinha. A embalagem é um pouco menor que um dedo polegar, quase não se vê se não for um monte delas empilhadas na prateleira. Mas um monte mesmo. Até dez minutos, fazia uns 15 anos que não comia essa extravagância com cara de caspa marciana. Resolvi matar a lombriga e também porque lembrei do maravilhoso filme Abril Despedaçado onde uma das cenas mais lindas que já vi na tela é a da família fazendo rapadura dentro do barraco com a câmera entrando lentamente, uma aula de iluminação. Queria sentir um pouco do filme na garganta e não apenas nos olhos.
Paguei, entrei no carro, abri a caixinha e tinha um tequinho do troço. Botei na boca e veio aquele sabor típico da iguaria: gosto de rapadura. A rapadura sempre tem gosto de estar velha, passada. Essa, depois de passar por todo o Brasil, descansar na quarentena japonesa, inspeção, etc, chegou meses depois na minha boca.
Um horror, uma bosta, sempre detestei rapadura. Ainda mais quando me dei conta que essa porcaria custou um dólar. A rapadura mais cara do mundo e foi uma bosta.

Led Zeppelin está pronto para uma turnê mundial

TÓQUIO (AFP) - O grupo de rock Led Zeppelin está pronto para uma turnê mundial, após o estrondoso sucesso de seu show de volta na O2 Arena, em Londres, declarou nesta segunda-feira o guitarrista da banda, Jimmy Page.
As especulações sobre uma possível turnê mundial cresceram com o disputado show do mês pasado, ao qual tiveram o privilégio de comparecer apenas 20.000 fãs.
"A quantidade de energia que colocamos na 02", disse Page aos repórteres "é o que se coloca em uma turnê mundial".
No entanto, o guitarrista não quis se comprometer mais, e explicou que qualquer decisão nesse sentido depende dos planos do vocalista, Robert Plant.
Plant "tem um projeto paralelo e está realmente ocupado com isso, certamente até setembro", afirmou Page, referindo-se a um recente disco lançado pelo companheiro junto com a cantora country Alison Krauss.
Em seu show de volta, realizado no dia 10 de dezembro do ano passado, a banda tocou clássicos como "Stairway to Heaven" e "The Song Remains the Same".
O evento, cujas entradas foram vendidas pela internet através de um sistema de sorteio, devido à grande procura, aconteceu 27 anos depois da morte do baterista original, John Bonham.

Timão ê ô

Daqui a dois anos o Timão vai fazer 100 anos e espero que tudo volte a ser como sempre foi. E na fé do coração alvinegro que (ainda) carrego no peito, será.
Hoje tava fuçando num dicionário english-japa e descobri que somos verbete num cafundó idiomático global. Grandíssima merda.

Tratemberg, Gutemberg, Iceberg, tudo a lesma lerda

Lá na Toyo Pianos tem quatro chineses que estão sempre juntos. Tem outros chineses, mas esses quatro são inseparáveis. Tem peruanos, bolivianos, filipinos, brasileiros e um vietnamita, o mano Kiem.
Hoje comentei com o Kiem sobre os quatro chineses inseparáveis. Ele disse que de vez em quando conversa com os caras, que os caras moram juntos e que são da mesma região, perto de Shanghai, por isso são grudados.
Falei ah, que legal e fui andando. Mas voltei e perguntei em que idioma vocês conversam? Em inglês, é claro, você já ouviu um chinês falando japonês, não dá pra entender nada.

A Revista Veja é idiotamente leviana

Atenção, muita atenção ao que escrevem na maior revista do Brasil. Tudo isso é mentira, é como dizer que todo brasileiro é só negro, índio ou branco ou uma mistura disso, ou que todo mundo no Brasil já viu uma onça na calçada ou um macaco no quintal. Ou é assaltante e mora numa favela à beira das Cataratas do Iguaçu ou do Rio Amazonas.

Em resposta (vazia) à Veja, lá vai:
- Eu não moro em apartamento de 20 metros, moro num sobrado e minha tv tem 25 polegadas, acho.
- Nunca ouvi uma música inteira da Ivete Sangalo. Aliás...
- Não adoro samba, só os do Chico Buarque, Cartola e Jorge Benjor. Bossa-nova não é samba, então João Gilberto e Jobim não contam. Traço uma feijoada quando dá vontade e não bebo caipirinha nem urbaninha.
- Não faço trocadilhos. Nem trocadalho do carilho.
- Não faço churrasco todo fim de semana porque metade do ano é inverno. E mesmo que fosse verão, a outra metade continuaria sendo inverno. Nunca ouvi pagode em churrascada, não as que rola sobre o meu carvão. No geral, minhas churrascadas são com roqueiros.
- Meu lixo é clean. Aliás, várias vezes por ano sou fiscal de lixo, num rodízio do bairro. Pra alguma coisa eu sirvo.
- Meu carro não é top de linha da Toyota, mas é um Toyota e já tem 11 anos, porém inteiraço, motor ok, lataria joinha e baixa quilometragem. Nunca tive um Mazda. A Nanci tem um Suzuki, esse sim, zerado.
- Eu amo fazer taissô porque é a única atividade física que rola. O resto é controle remoto, sou um sedentário xiita.
- Eu não sonho em voltar ao Brasil, simplesmente não volto porque não quero e quando volto, me decepciono.

Veja, vai se catar.

Existe uma média comportamental entre os brazucas, claro, mas está longe desse padrão ridicularizante publicado pela revista. Talvez alguns sigam essa norma e se a jornalista Thais Oyama, quando na sua estadia aqui, só entrevistou gente assim, é nítida a profundidade com que a revista se propõe numa matéria comemorativa dos 100 anos de imigração japonesa no Brasil.

Fotos que eu gosto de bater


31 de dezembro, na veia

Um ano inteiro pensando no que pensar no último dia do ano para o ano que vem. O ano que vem é mais importante que esse ano porque ainda não veio, é fictício, é só amanhã. O ano que vem quando começar já estarei com saudade desse ano que passei pensando no que pensar hoje.
Agora é fácil, é só deixar-se levar.
Mas todo pensamento tem uma bifurcação, uma opção, um lado inteiro do cérebro cheio de conexões inverossímeis bajuladoras e eternamente insatisfeitas. "Mas porém contudo" e me fodo sob tais condições.
Vire na próxima à esquerda e terá uma surpresa solitária, complexa e numa camisa de força. Antes que me faça mal, espero brecar o dia e perpetuar esse ano para não ter que encarar tais bifurcações. Putamerda no espocar da cidra cereser.
Então hoje é 32 de dezembro e daqui uma semana será 40.

ASAS DO DESEJO

O tempo pra confessar. Tempo de chover. Chovendo está. Tempo que atravessa o corpo e mata-o, é o limite. Mas é o tempo. E em espaços dividimos o tempo.
Hoje tava voltando pra casa ouvindo SRV no talo. Tudo no talo. Até silêncio no talo - quando silêncio.
Enfim, eu, chuva, volante, SRV e tudo no talo, até a chuva. Quarenta por hora, rua estreita, sexta-feira, pra quê?
Acabou um bluesão histriônico debulhador de setecentas dragonas matracas do inferno. Acabou.
Então porra,

então começou Little Wing.
Nos primeiros acordes percebi que só relaxei em 2008, de fato, naquele momento. 40km/h, chuva, SRV no talo e um insight idiota. Aumentei o volume e desacelerei até dar a seta pra encostar. Clique no freio-de-mão e fechei os olhos. Uma atrás da outra, brother.

Então, é assim que é Little Wing?
Já ouvi duzentilhões de vezes em inúmeras versões e condições, mas hoje eu entendi mais um bocado de coisas no meio das palhetadas do texano. Uma atrás da outra brother.
Ainda estou com asas. O mais importante de possuí-las é não saber como usar ou onde pousar.
É não saber ser outra coisa senão um momento.

Suzuki San, o luthier surf music

Ele só lembra que era a primavera de 45, entre o final de março e meados de maio, porque o inverno já tinha acabado e a guerra não. O Japão se renderia depois do bombardeio de Nagasaki e isso só aconteceria em agosto de 1945. Ele tinha 4 anos.
Um vizinho passou pela rua gritando que os americanos iam bombardear Hamamatsu. Eles estavam com seus navios na costa japonesa de Tokyo a Kobe e aquela pequena cidade estava bem no meio do caminho. Eram 500 km completamente dominados pela marinha mais poderosa do Pacífico. O Japão já havia perdido toda sua armada inclusive seu maior troféu, o Yamato. A última trincheira de resistência que era a ilha de Iwojima já havia caído, a invasão dos americanos por terra era uma questão de meses. O pai dele resolveu sair de casa e fugir para o interior, em direção do vilarejo de Hamakita. Esconderam-se num bosque próximo às plantações de arroz do Rio Tenryu. Aquela foi uma noite longa, as explosões começaram logo que anoiteceu e só terminaram com o sol, de manhã. Ele lembra que via as luzes no céu e na terra e que foi impossível dormir com tanto barulho. Quando as sirenes tocaram avisando que os bombardeios terminaram, a família resolveu voltar para casa.
Quando chegaram lá, só havia um buraco e fumaça saindo de dentro dele. A casa já era. Tremenda família sortuda que resolveu cair fora. Alguns dos vizinhos teimosos morreram e estavam espalhados pelos escombros.
Depois ele apenas sobreviveu, aprendeu a amar o rock'n'roll, virou guitarrista de surf music e há meio século é fã do The Ventures. Trabalha com pianos há 40 anos e sabe tudo da luthieria, tudo mesmo.
Ontem fomos a um estúdio nos desenferrujar. É esse tiozinho do meu lado e me orgulho pra crálio por conhecê-lo. Tocamos Misirlou meio bossa-nova, meio rock'n'roll e Pipeline com a fúria de quem tem 18 anos.
Depois dessa foto, correu pra casa pra ver os netos, gêmeos. Disse que ia contar de um brasileiro, etc.

Jackson Pollock

Pra falar de Jackson Pollock, vou dar uma de Jackson Pollock.
Tem um filme da vida do cara, não lembro o título e nem o nome do ator, mas é legal e bastante fiel, inclusive a semelhança física. No IMDB tem.
Gosto do Pollock porque é cru, action painting visceral, imagem pela imagem, sem explicar ou parar para profundas análises entre baforadas fúteis em cachimbos chiques.
Ele colocava a tela no chão deixando a tinta gotejar pelo branco, dando margem à perversão nobre e infinita da espontaneidade. Podre, como eu disse. Às vezes fazia furos no fundo da lata de tinta explorando ao máximo o caos das cores e do foda-se. Com o imprevisto e o improviso sob controle e com tais qualidades sob os pés ("Pois assim me sinto dentro do quadro"), Pollock eliminou o cavalete e o pincel, instrumentos básicos da pintura.
Morreu num acidente de carro, chapado, bêbado e depressivo.
Ali ao lado tem a TERAPIA OCUPACIONAL JACKSON POLLOCK que te linka a uma página em branco onde você pode exercitar sua piração Pollock. É ínútil, mas de útil, basta o zíper.

Baterias Celestiais

Nanci e eu fomos ao Templo de Okuyama recarregar as baterias celestiais para um excelente e supersticioso 2008. Esse lugar é legal porque é muito próximo da imagem que eu tenho do céu com seus milhões de deuses num patati-patatá traduzido em sânscrito, aramaico e latim.
Okuyama fica numa montanha perto de Hamamatsu (25km) e são vários pequenos templos ao redor do principal. Até agora não descobri se é budista ou xintoísta, acredito que seja os dois considerando que há elementos de ambas as crenças.
No caminho que sobe ao templo-mor há dessas imagens de budinhas pelo caminho. É o patati em sânscrito e tal. Ao chegar lá em cima, há a cerimônia de acender um incenso e depois ir ao sino e tocá-lo para acordar os deuses.
O sincretismo religioso que cerca o dia-a-dia do povo japonês é curioso. Para eles o xintoísmo está para a vida e o budismo para a morte. E são muito supersticiosos, assim como eu, você e qualquer ateu.