É covardia II

To escrevendo, to escrevendo. Dois personagens, diálogo, dos fedidos, fudidos, miseráveis, podres, imundos querendo salvar a pele detonado o couro do outro. Sim, eu sou pele, você é couro, seu irracional.
Já me perguntaram se eu to escrevendo e to querendo lançar algo nas comemorações dos 100 anos da imigração japa no Brasil.
Não.
Não mesmo.
Eu fiz o caminho inverso e esse é o meu problema.
Quem fez o caminho anterior criou outro, que bebam em sua homenagem, mas não eu. Nem na minha.

The Darjeeling Limited (2007)



VIAGEM A DARJEELING com Adrien Brody, Owen Wilson e Jason Schwartzman no papel de três irmãos em busca.
Em busca de quê?
Em busca, ora.

É covardia

Quando a gente acha que sossegou, que vai poder sentar a bunda na cadeira pra escrever tranqüilo e docemente aquelas idéias espalhadas em papeizinhos espalhados pelos cantos do mundo, quando tudo parece que se resolve por osmose (e tem se resolvido) e que agora vai que vai, quando até a ladeira é a favor e tal, vem um caminhão te atropelando com planos B, C e D e aquela velha coceira do palco, do cheiro do palco, da cortina empoeirada, do verniz do palco, do cascolac do palco, do palco inteiro descendo pela garganta com o prazer e sofreguidão do masoquismo inteirinho na alma:
- Aí Nei, escreve um texto ai?

BOSTATRONICS - merdow and urinow feelings


A minha velha fixação por banheiros antigos, contemporâneos, residenciais, públicos (esses sim!), extratemporâneos, bisexuais, pansexuais, homo, heteros e afins, de buraquinho, de buracão, de posto de gasolina, de buteco de esquina, de fundo de quintal, de início de quintal, de lado, de frente, de costas, merdow, urinow, de lanchonete da moda, de point night balada típico de fotoblog, de escola e principalmente, as opções japonesas para um descomer confortável, eletrônico e estrovengo.
Pelos meus incansáveis estudos sobre o assunto, é nítido que esse modelo encontrado num restaurante pop, bom e barato da cidade é dos antigos, coisa de 5 anos atrás. Eu nunca sento nisso, mas já sentei e já tive um em casa. A sensação é muito próxima de sentar-se numa frigideira morna sem fundo. Alguém com teor e temor tecnológico (sem muita lógica) quer fritar bundas alheias pelo mundo. Esse alguém, um engenheiro ou designer maluco, nerd e cagão cansou de congelar a bunda nas modorrentas e comuns tampas de madeira ou plástico. Sim, no inverno japonês, se marcar, a bunda gruda no gelo.
Detalhe para o controle de bidê ao lado do assento. Cuidado, um caninho surge do nada acoplado à estrovenga cocozeira e emite agüinha no loló do descomedor incauto e a posteriori, assustado pracaray. Não nunca acionei nada disso sentado. Mas fucei na parada e vi a porcaria que ela faz na sua vida.
O mais assustador, sem dúvida, é o fio de eletricidade que se liga à tampa. Se o designer da bostatrônica tivesse um pouco de bom senso e menos maldade, faria a ligação elétrica a partir da traseira do assento maléfico.
Depois de comer e resfatelar-se, depois da siesta, cagar é tudo de bom. Mas muita hora nessa calma. Ao deparar-se com tal máquina de sincero pavor, não se apavore, levante a tampa e o assento, pegue muito papel higiênico, limpe e forre a louça do vaso como se fez no século 20 inteirinho. Essa coisa pós-moderna de cu quente é para os pós-modernos de cu quente. No século 21, mantenha seu cu cool.

Egberto Gismonti - Circense

É um daqueles discos que pra botar pra rodar precisa de um certo ritual. Também é daqueles onde o ritual começa depois do primeiro acorde. Tudo gira ao redor de uma limpeza n'alma e clareza na feitura de cristais e maciez na cadência de flocos de algodão. É circense, então é algodão doce. É pra rir e é pra sonhar. Egberto, sempre inspirado, tava pra lá de qualquer um. É lindo.
Hoje tem marmelada?

O Cientista Corcunda


Dia da Poesia

Diz aí que dia 14 é o Dia da Poesia,
Diz que sim, que até Castro Alves
se envolveu.

Ora, seu Calendário,
todo dia é ano novo,
nasce Jesus,
vinte reis magos,
trinta mil Marias
e todos os deuses.

Morre alguém importante
para todo alguém
e é todo dia
um dia importante.

Mas te digo, seu Calendário,
todo dia é dia de poesia,
menos ontem,
que só nos resta a lembrança,
não dá mais seus passos nem gritos
e nem abre a cortina lacrimejado
de solidão no extremo andar da
angústia daquele prédio cinza ali.

Todo dia hora mês ano galáxia
é de poesia, seu Calendário,
vai vendo.

To te vendo, Hondinha


Aqui no Japão saem várias publicações em português, a maioria com matéria paga e 80% do espaço interno forrado de publicidade de produtos brasileiros, lojas, importadores, buffets. Até erbalaif tem. E claro, tem as páginas de galinha morta.
Por isso achei interessante esse maninho dono do Honda Fit usando o método brasilis streets de comércio e negócio.
Aqui nas bandas, o japa quando enjoa do carro velho, dá ele de entrada na loja em que vai pegar o novo. Às vezes, velho e todo surrado, manda amassar, sai mais barato que renovar a licença bienal, o shaken. Sem essa licença, o motorista que estiver rodando paga uma multa danada de pesada, quase o preço da licença, coisa de mil dólares, por aí. Esse hondinha tá sem a licença, o cara denota retirando a placa, isso quer dizer que ele perde o valor de venda porque o próximo dono terá que desembolsar uma grana pra poder rodar sem dar rolo.
É a primeira vez que vejo isso. Sei lá se é interessante.

Gênese Teen End

No principio – e não existia solidão nesse principio –
Havia um peito suculento, na verdade, dois
E eram de uma boca só.

Um pouco depois do princípio
E muito longe do epílogo
A colher vinha feito
Barquinho aviãozinho carrinho de doce
Doce a mesma mãe, a mesma mão,
O mesmo principio.

Como todo principio tem por vício
O reinício circulo in vita,
No principio a voz atravessava
O espaço de um quintal,
Se muito de um apartamento
E dizia no miolo de um sorriso
- Tá na mesa, filho.

No fim, no princípio do fim
A convivência longa
Acostumados com seus hábitos caras hálitos,
Esquecidos os peitos barquinhos e princípios,
A dominadora resmunga:
- Vem comer não, ô cachorro sem alma?

Todos estão mortos

Todos estão mortos.
Morreu a menina primogênita da tia mais querida.
Morreu o sãopaulino da banca de jornal que mostrava os peitos das moças nas revistas masculinas.
Morreu o porteiro Elpídio que nos expulsava do prédio com vassouradas no ar.
Morreu o síndico do outro prédio que era uma bicha velha amarga e triste de doer.
Morreu o pai da libanesa feia com cara de homem que queria casar a filha e nos prometia fortunas e lojas e pagava a conta do boteco para começar a barganha pela filha.
Morreu o seu Zé que era o dono do boteco que vendia x-burguer com queijo e x-burguer sem queijo.
Morreu o avô centenário que fazia as sombras dançarem sob a luz do abajur para as netinhas queridas.
Morreu o meu avô que no nosso último encontro me deu uma pequena fortuna em notas falsas fabricadas pela Shindô Remmei, a seita dos assassinos japoneses do interior paulista.
Morreu a C. cujo apartamento tinha um piano e onde embaixo desse piano dei meu primeiro beijo de paixão.
Morreu o Mario Marinho, preto alegre bom de bola que injetava na veia sob o pretexto de viver melhor.
Morreu o homem solitário. Mesmo numa multidão, uma pessoa morre sozinha.
Minha vida não morre porque ainda posso vê-la. Pois é.

Cabeça de Mouse

Tenho um computador
E nunca usei a calculadora.

Não, não me digam onde é,
Preciso fazer contas de cabeça.

Aliás, preciso viver de cabeça
na cabeça de quem vive
e aprender da alma.

Calma. Eram só contas,
na minha matemática não
conto anjos e demônios.

Mas tem cada historinha...
então eu conto.