CARTA ABERTA

Querido:

Vi suas fotos em Lugo, acho.
Vi Evaristo e Júlia, um gato e a Cris.
Te vi.

O que mais emociona nas amizades apaixonantes
é ver e ver e ver. Ever.

Nada mudou a não ser os anos e um móvel aqui,
uma cadeira ali. Algumas coisas jogamos fora,
outras adquirimos
e nada se perdeu.

As noticias voam e nossa solidão também,
nunca nos cansamos dessa conversa
nem desse jeito histriônico de abrir portas e corações.
Algumas vezes silêncio, vento, mar:

- Quem não tem esse perigoso sonhador no último
andar do infinito da cachola? É, ele não grita
e no entanto não está mudo.

Tem dias que acho que nunca mais vou te ver
e compenso a vida com mais azul e céu
para saber que sim, um abraço há de sobrar
para contar num livro, em duzentas páginas
descrevendo as sensações. Fora o vinho.

Nada está perdido, benedito.

Inté.

Los Day by day


Daddy Walt


Não somos uma sucursal do Tribunal do Santo Ofício, isto não é uma caça às bruxas e tampouco cabe a mim ou a você ou a quem acredita botar a mão no fogo pela previsão malévola ou benéfica do futuro. Ao destino, uma boa noite de sono para que logo chegue. Ou uma passagem para Paris para dizer se vale ou não a pena ter vivido tanto por visitar tal cidade.
Mas Daddy Walt está aqui na ilha entre nós resolvendo os imbróglios e desatinos dos vivos e mortos. Ele desata nós. Ele dá sete pulinhos nas praias do Oceano Pacífico. Pobre Iemanjá que recorre a Namor ou Nemo ou Moby Dick ou Posídon para uma carona very fast das praias do nosso Atlântico sul tropical, caliente, afinal, são pulinhos de Daddy Walt.
Esse merxam achei numa das revistas dos brasileiros no Japão. Nas 110 páginas desta, 60 são publicidade, 20 são empregos, 20 são matérias e fotos e o resto é o resto. Ela e todas outras são gratuitas.
Daddy Walt frequenta nossas publicações há muito tempo. Sempre com essa foto na sua cozinha do apartamento e sempre com os erros de português.
Santo que é santo não é alfabetizado.
Não aguardo e nem temo presepadas e represálias místicas do digníssimo bodsatva africano, pois, de antemão e por opção político-partidária-incréu, sou do PAM (PArtido Anarquista Macumbado) pra não ter erro, nem papa, nem dalai, Daddy Walt, nem nada. Só eu e deuses. E também não.

(Escorregadela: Clica na imagem para ler e ver melhor. É melhor).

Patati e patatás

Tremeu nada, segundo o Laerte. É invenção da CIA pra alguma coisa que está por vir.
Invasão do Irã?

Assisti a entrevista do pai e da madras no Fantástico.
Ele tem pobrema em articular a palavras. Com os pluraus tambéns.
Ela não olhou para ele em momento algum da entrevista, estranho. Ela chorava sem lágrimas.
Ele não respondia nada com nada. Ela cortava as respostas dele.
O que eu acho? A casa caiu, seu Alex e dona Anna.

Ontem emprestei um cd do Egberto Gismonti prum professor de luthieria lá da Apollo Piano. Ele detestou. Achou que um frevo era samba. Muita nota em pouco espaço, disse, música assim cansa.

Hoje a insônia não me pega, tomei uma aspirina. Devo crer que se é Bayer, é do bom. Então dá barato.

INSÕNIA DE BOBO


Insônia de merda. Pelo menos 3 vezes por semana, há meses.
Agora é assim: Acordo 3 da manhã, desço até o banheiro, pips, vou à cozinha, tomo uma água, subo, acendo o abajur e leio umas duas páginas do livro. Não entendo absolutamente nada. Apago, tento dormir. Nada e nada. Acendo, volto ao livro, isso já são umas 4 e meia, leio uma página das duas que li e continuo não entendendo nada. Apago. Fico pensando silêncio. Pensar silêncio faz mais barulho e fica ricocheteando e ecoando no crânio. Desisto de ler. Pra quê? Não vou entender nada mesmo. Dá um soninho. Finalmente. Faltam 15 minutos pro despertador tocar. A vida é sonhar que vai dormir.
Chega fim de semana e durmo até com o sol na cara.

Dia do Indio, que líndio


Todo dia era dia de índio. Depois que vim morar no Japão e o verão rareou na farra do ano e começou a ser menor que o inverno, o primeiro dia de praia nesses bissextos veraneios é quase um novo ano novo.
E por uma tradição que sei lá porque deu na telha, escrevo na areia "todo dia era dia de índio" nesse primeiro dia na primeira praiada.
Mas já não gosto tanto de praia assim. Aquele exagero de natureza me cercando por todos os lados rola uma solidão e bate uma saudade de pisar em chão liso ou ter uma tomada ao alcance da mão, por exemplo. Deve ser algo que surge com a idade ou o excesso de comodidade. Ou ambos e trambos. Hoje em dia prefiro um rio e sua margem. Basta a margem, nem tanto o rio. A farra histriônica do verão é cansativa. É, é coisa de gente do século passado.
Tem a coisa do programa de índio. O fenômeno pejorativo destruiu o convite de um índio para sempre. Para qualquer lugar que ele te chame para visitar, passear, usufruir, será um programa de índio. Pode ser até o seu lugar favorito, mas se ele estiver junto, o programa de índio será absoluto e inevitável. Com um índio ao lado, um dia de Louvre é um programa de índio.
O índio pra mim é uma coisa teórica, quase fictícia. Nunca conheci um índio. Não sei onde eles moram, se realmente existem. Se eu ver mais de dez índios juntos, vou achar que querem invadir o forte apache.
Se um programa de índio é aquilo lá, imagine um dia de índio. Um dia inteiro de índio. Agora imagine que todo dia era dia de índio.
Está explicada a atual e eterna contramão pejorativa em que o Brasil se encontra?
Não, não está explicado e o PARTIDO ANARQUISTA MACUMBADO não tem nada contra os peladões e as de peitos caídos. Nada. No entanto, urbano na origem e na concepção, não pode ter nada a favor. Nunca participamos de fóruns sociais com esquimós, ainus, bosquímanos, guaranis e aborígenes. Um dia a gente pode até tirar a camisa nessa orgia étnica. Mas vestir, não sei não.
Então, concluindo, vai lá.
(Como diria o Millôr, daquelas coisas que a gente escreve e pensa que nessas horas, assim como tem o ponto de interrogação e exclamação, tinha que existir o ponto de ironia, que seja, nevermind).

YEAH

De todas as coisas engraçadas do mundo - e tudo é, considerando o mundo como é - a mais engraçada de todas são as crianças.

Principalmente as que a gente ama, as próximas. No meu caso, minhas sobrinhas.

Hoje eu sei que quando eu for pai - e isso tem me feito pensar objetivamente em futuro e coisas legais - eu vou me esborrachar de rir até um ponto da gargalhada que desconheço, mas almejo.

50 100 Duzentos


Comemora-se tudo. Em 1961, hoje - tá no gugo - Yuri Gagarin subia e sabia que a Terra era azul. O Sputnik já sabia antes, mas não sabia falar.
Pior se o cosmonauta (pois é, astronauta é ianque, cosmonauta é vermelho) dissesse que a Terra era roxa, um Paranazão nesse mundo véio sem porteira, sô. Além dos russos descobrirem que o camarada Yuri era dautônico e o mandarem para a Sibéria por propaganda estatal enganosa, haveria o mico socialista científico em letras garrafais no Pravda.
Mas 2008 chega carregado de efemeridades comemorativas suculentas e insossas. Algumas não.
Tem é claro, o fato de que, se você que está lendo esse texto está vivo, em 2008 você VAI comemorar seu aniversário, ou não, dependendo da solidão da porta pra dentro de casa. Pelo menos, sobreviva até lá e confira.
Nesse ano, algumas pessoas interessadas em vender mais quitutes nas barraquinhas da feirinha no bairro da Liberdade, estação Liberdade, na Praça da Liberdade, em frente à Igreja dos Enforcados (!!), vão comemorar os 100 anos da chegada dos primeiros japoneses no porto de Santos. Uau.
Tudo é muito morno ao cuidarmos dos japoneses no Brasil. Não, não to cuspindo no prato que comi e nasci, mas é sim. Tá na cultura, no modus operandi milenar ser e estar desapercebido, sutil e silencioso.
Outro dia eu disse isso a um cara, que esses 100 anos não me atingem de maneira emocional em nada e que tudo permanecerá como tal até os 101 e 102 anos. Ele argumentou que se não fossem os pioneiros há 100 anos, poderíamos ser argentinos, mexicanos ou bolivianos feito Hugo Chávez.
Claro, eu disse. Mas meus avós chegaram no Brasil em 1933, eles poderiam ter sido os pioneiros e que se danem os que chegaram antes. O fato de ser argentino ou mexicano me deixariam bastante contente pois do mesmo modo eu teria a cultura latina, ibérica, sacaninha e tiraria sarro dos botocudos brasileiros. Mas boliviano feito Hugo Chávez seria impossível. Ele replicou dizendo que isso é racismo, que etc etc. Eu disse não, meu chapa. Um navio japonês nunca ia atracar num porto boliviano porque lá não tem mar e o Hugo Chávez é venezuelano, jefe.
Em 2008 tem 200 anos de Dom João VI, esse sim uma grande figura. Principalmente quando quem o faz é o Marco Nanini em Carlota Joaquina - Princesa do Brasil, da Carla Camurati.
Há muitos anos, passeando em Londres, no bairro de Hammersmith, eu vi um cartaz desse filme pregado num poste. Deu um nó na garganta de orgulho! Ali eu já estava comemorando a chegada dos Bragança em terras tropicais. Mas assistam, é um filmão.
Mas o que eu vou comemorar mesmo são os 50 anos da Bossa Nova ouvindo muito piano, violão, poesia, sussurros e Chet Baker e tal.
O João Gilberto virá em novembro, especificamente, em Tokyo. Vou lá, ouço, assisto, tenho um orgasmo e um desarranjo intestinal. Pronto. Um mico maior que a terra roxa de Gagarin.

Redunda, cara de bunda


Nessa época do ano rola uma polinização pra fazer espirrar uns quatro Godzillas e cinco Jirayas. Das montanhas centrais do Japão voam os pozinhos de pólen até acharem teu nariz, garganta, olhos. A gente que é meio tupinambá, não tem os antiporcos contra essa miséria e passa fevereiro, março e abril espirrando junto com os Godzillas e Jirayas.
Isso acontece com muitos nativos que também são alérgicos ao trocinho irritante. Por causa disso, a Apollo Piano deixa caixas de máscaras para infelizes como eu. Hoje fui abrir uma e estava esse manual de instruções de como-colocar-uma-máscara-na-cara.
Será que alguém colocou uma máscara nas nádegas, sofreu com os pólens e processou judicialmente a fabricante 3M? Ou usou como sutiã e percebeu que estava faltando um lado e também processou a empresa?
Há o famoso caso da mulher que comprou um motor home e saiu. No carro tinha piloto-automático, ela acionou, largou o volante e foi lá atrás fazer um café. Na primeira curva deu merda. A mulher processou a Ford e ganhou a causa. Hoje, todos os carros com piloto-automático têm um aviso dizendo que a engenhoca é para manter uma velocidade média e não é igual ao dos aviões, onde piloto e co chegam a cochilar por horas.
É o caso do manual da máscara que explica que máscara se põe na cara e não em outra parte do corpo, no ombro, por exemplo.
É a típica explicação necessária para quem lê livros de auto-ajuda, acho.

Ecologia aos 9 anos de idade

putsgrila, quando a psora falava em ecologia (há 30 anos!!) eu pensava numa forma de não poluir e achava que se os escapamentos de carros fosse voltados para baixo, só iria poluir o chão e zoar com a vida das minhocas e formigas. Como nunca gostei de pescar, era uma forma de preservar os peixes e as formigas que se danem. Enfim, a ecologia era isso no 3o. ano primário.

Sperman


Depois de um papo com o Lama, ele mandou essa tira dizendo que tinha a ver com o papo e realmente tinha e que tava pronta pra sair na folha no dia 5 de abril, hoje. Deu coceira, mas não ia sacanear o patrão publicando antes do cheque cair na conta e tasco uma bicota paralelo à grande imprensa.
De graça, só no jornal do vizinho, do cara no ônibus, no banco da praça ou aquela bisbilhotada ligeira na manchete pendurada na banca.
Ou aqui, pros poucos e exclusivos, amigos leitores.

Fotos que eu gosto de bater


Fui dar uma olhada blog do Zé Dirceu. Tem uma amiga que escreve lá. Ela disse passa lá e dá uma lida. Ela não é amiga do Zé, mas ganha uma grana, que é o que importa, tem filhos e precisa encher a geladeira.
Os textos são bons, claros, sucintos com devem sê-lo num um blog de uma pessoa pública preocupada com a realidade nacional.
Cara, deu ânsia.
O que mais ele pode querer? Voltar ao cenário eletivo depois dos anos de quarentena judicial? Faturar, dilapidar, limpar, afanar? Roubar.
Ânsia.
Aquela cara dele deu um forrobodó no estrombo que só podia dar em foto de Pol Pot ou Adolph.
Eu que sempre gostei de política, não achei que fosse passar mal.
Mas já passei mal vendo o Maluf em campanha no Mercadão, andando ali perto das peixarias com um séquito de Odoricos Paraguaçus e Napoleões de zoológico e eu, um moleque assanhado metido em política estudantil louco pra arrancar um robalo do monte e dar na cara de um deles feito um quadrinho de Asterix. Um robalo seria de uma simbologia semiótica estupenda. Quase Nobel.
Mas no século 21 o blog do Zé deu ânsia.
Nunca imaginei que fosse comparar o Zé com o Paulo.
O Brasil anda historicamente embrulhado mesmo. Meu estrombo também.

Mãe Pai e Filhos

Eu queria ter um filho chamado Gabriel
não por causa do anjo expulsador,
nem por causa das asas de condor,
mas por causa dos 100 anos da minha solidão.

Eu queria ter uma filha chamada Beatriz
não por causa do amor fiorentino de Dante
que visitou céu e inferno
e carregou a renúncia pelos labirintos
de um purgatório interno.

Mas a menina chamada Beatriz
seria tão feminina que seria
quase sinônimo de flor
ou ursinho polar em festa
de aurora boreal com cheiro de jasmim.

Um casal de Gabriel e Beatriz
para salvarem o mundo
e dizerem a todos que
o pai pretensioso escrevia sem rima
num jardim imaginário fincado
num escritório árido de vegetação.

O menino Gabriel dando voltas
como um cigano tonto puxando
elmos de guerreiros espanhóis
dos tempos dos reis devidamente divinos.

E da bola seria mestre
e dos meus sonhos,
realidade.