Los Day by day





O preconceito, o racismo, o diferencismo está aí, sirvam-se. Dê-me um hipócrita e te dou um homem. Quadrúpede não é hipócrita, árvore não é hipócrita, pedra também não. A coisa não é mineral, vegetal ou animal, a coisa toda é racional e pré-histórica. Não sei quem riu primeiro de quem, se o macaco bípede do quadrúpede ou vice-versa, se o pelado do peludo, se o quase-homem do homem. E disse olha, não é com você.
A diferença faz a piada, o nervosismo, a putidão (de putez, puto mesmo). Ser rei em terra de cego é a mácssima utopia da diferença como fator de dominação e rigor moral. Somos diferentes e somos iguais, eis a sacanagem dos direitos humanos. Acho que não seria tão sacana assim se fossem os esquerdos humanos.
Mas somos todos qualquer coisa diante dos olhos de todos nós. Nunca ninguém disse que ia ser fácil conviver na parte seca do planeta. Nos importamos mais com as diferenças que com as igualdades e elas estão nos olhos e não no invisível aos olhos.
A gente só vê o que quer e é isso, é esse o lance todo.

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Los Day by day



Só um tapinha não dói

Parei de fumar no dia 10 de novembro de 2007. Tomei a atitude de chofre, catei os maço, maços reservas, isqueiros, cinzeiros e joguei tudo no lixo.
A decisão não foi tão violenta e rápida assim, demorou mais tempo, uns dois anos. A idéia de parar aparece sempre que a gente pega o maço, tira o bastão de fumaça e acende. Fuma. Pensa que é o Bogart ou o Dirty Harry. Relaxa, a nicotina relaxa. E tosse e fica fedendo.
Vira um ritual bobótico. Vai tomar um banho, um cigarro antes. Liga o carro, outro. Senta no pc, ajeita o cinzeiro, o café e o maço, acende e pega no mouse. Até o mouse fica fedendo, tadinho.
A vida gira ao redor do cigarro. Eu fazia caminhos para o trabalho onde houvessem máquinas automáticas de cigarros ou onde a loja de conveniências vendesse cigarros. Tinha maço reserva no carro, em casa, no armário. A cor azul clara no tom do Mild Seven 6 mm me fazia alusão ao maço e eu acendia um. Um fetiche, uma droga de fetiche.
Comecei a fumar com 13 anos e parei com 42. Foram 29 anos e estou abstêmio há 7 meses. Às vezes dá vontade, agora por exemplo. A nicotina é poderosa. Não tenho delírios ou tremedeiras crônicas. Mas dá vontade sim e não é numa hora estressante, é na hora do relax. Já me disseram que a vontade será para sempre, que o vício é da vida mesmo. Quando parei achei que nunca mais ia tomar um cafezinho. Balela. A combinação de café e cigarro é o sanduiche dos campeões, disse Jim Jarmusch em Sem Fôlego (1995) numa cena antológica com Harvey Keitel. Aliás numa cena onde ele diz que aquele será o último cigarro, já que ele comprou todos os Marlboros ali na charutaria que o Harvey é gerente ou dono, não lembro.
Mas continuo tomando café e não fumo e o café não fica vice-campeão. Meu time sim, mas isso é outra história.
To escrevendo isso porque hoje vi um homem fumando num ponto de ônibus. Não tinha pinta de Bogart e ele fumava daquele jeito muito escroto que é soltar fumaça fazendo biquinho para sair uma lâmina fina de fumaça. Achei feio e conclui que o cigarro sempre esteve ligado a uma sensação estética cinematógráfica fetichista e freudiana (um charuto é apenas um charuto, herr doctor?) e que freudiano sim, pode ser, mas estético cinematógráfico o escambau porque é feio o ato de fumar. Não que eu seja lindo, mas não devo e não posso piorar-me.
Se faz mal ou não, o problema é de quem fuma. O lance que é feio, o ato todo, o ocupar de uma das mãos para segurar o bastão de fumaça e bater cinzas nervosamente pelo mundo, as bitucas, as bitucas. O pior foi o biquinho. Esse acabou comigo. E com ele.

Los Day by day


É uma série sobre preconceito.
Tem gente que disse que eu era (sou) da elite branca com sofá macio e prestobarba. Sim, claro, conforto não gera culpa, mas não sou de elite branca nenhuma porque sou amarelo, japa, oriental, asiático; nasci no Brasil pra ser japa/estrangeiro e vim para o Japão ser brasileiro/ estrangeiro. Quase um pária sem-pátria flutuando entre a terra santa e o inferno do olhar-de-quem-não-te-reconhece-como-gente.
A questão é que tem esse mal estar entre o politicamente correto e o balde chutado. Dá bleargh ânsia. Tudo isso foi pensado em algum ponto eqüidistante entre o Atlântico e o Pacífico ao norte do trópico de Câncer, numa tarde de tédio e solidão. E isso criou asas até chegar no país do elevador de serviço, da porta dos fundos, do tapinha nas costas com gorgeta, da velha frase É gente como a gente.
Não sei o que é ser politicamente correto. Nem quero.
Tudo isso por causa das cotas nas universidades, do sebastianismo ianque com o candidato Obama, das devoluções de brasileiros nos aeroportos europeus e de uns anos pra cá, da necessidade constante que temos de explicar nossos valores morais e franceses (igualitário, libertário e fraterno) antes de contar uma piada. Esse texto é exatamente isso, um pré-release de apologias politicamente incorretas.
Mas te digo só mais duas coisas: Que todas as cores e todos os sexos e todos os credos e todas as ideologias são obras. Então lavou, tá novo.
A outra coisa é que o foda-se da minha testa não sai nem com tiner.
Pois é.

No resto da cidade

Gritaram até o megafone acabar a pilha.
Era de cima do caminhão e era debaixo de chuva
e era da boca do homem
no mesmo dia em que todos anões correram do jardim.

Cultivam rosas e magnólias
sem saber que irão colorir o epitáfio
de quem as rega.
A água da morte também é límpida
feito o riacho da canção do baiano.

Saem em bandos carnívoros babando
segurando foices e fúria,
cantando gregoriano e italiano
mas nunca em francês porque é brega.

Nunca caem de joelho no milho da discórdia.
Hoje é dia de abobrinha japonesa.
Chove a vida e seca o parto.
A cor da dor de cotovelo é a cor do lenço
do teu pranto, meu amor.

É a cor da primeira coisa que vês,
é a cor da última coisa que vês,
é o calor é o frio é a cor
que não se enxerga,
mas que carregas
porque és.

Deu na FOLHA ONLINE

18/06/2008 - 22h01
Instituto de Cinema dos EUA elege os cem filmes em cem anos
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da Efe, em Washington

Os filmes "O Poderoso Chefão", "Lawrence da Arábia", "Branca de Neve e os Sete Anões" e "Rastros de Ódio" foram escolhidos, entre outros, como os melhores de seu gênero nos Estados Unidos no último século, segundo a lista publicada nesta quarta-feira pelo Instituto de Cinema Americano (AFI, na sigla em inglês).
Periodicamente, o AFI apresenta anualmente a lista dos melhores filmes, mas, pela primeira vez, realizou uma seleção das cem melhores obras cinematográficas dos últimos cem anos divididas em dez categorias. Confira a lista completa:

Desenho animado
1. "Branca de Neve e os Sete Anões" (1937)
2. "Pinóquio" (1940)
3. "Bambi" (1942)
4. "O Rei Leão" (1994)
5. "Fantasia" (1940)
6. "Toy Story" (1995)
7. "A Bela e a Fera" (1991)
8. "Shrek" (2001)
9. "Cinderela" (1950)
10. "Procurando Nemo" (2003)

Comédia romântica
1. "Luzes da Cidade" (1931), de Charles Chaplin
2. "Noivo Neurótico, Noiva Nervosa" (1977), de Woody Allen
"3. "Aconteceu Naquela Noite" (1934), de Frank Capra
4. "A Princesa e o Plebeu" (1953), de William Wyler
5. "Núpcias de Escândalo" (1940), de George Cukor
6. "Harry e Sally - Feitos Um para o Outro" (1989), de Rob Reiner
7. "A Costela de Adão" (1949), de George Cukor
8. "Feitiço da Lua" (1987), de Norman Jewison
9. "Harold and Maude" (1971), de Hal Ashby
10. "Sintonia de Amor" (1993), de Nora Ephron

Faroeste
1. "Rastros de Ódio" (1956), de John Ford
2. "Matar ou Morrer" (1952), de Fred Zinnemann
3. "Os Brutos Também Amam" (1953), de George Stevens
4. "Os Imperdoáveis" (1992), de Clint Eastwood
5. "Rio Vermelho" (1948), de Howard Hawks
6. "Meu Ódio Será sua Herança" (1969), de Sam Peckinpah
7. "Butch Cassidy" (1969), de George Roy Hill
8. "Jogos e Trapaças - Quando os Homens São Homens" (1971), de Robert Altman
9. "No Tempo das Diligências" (1939), de John Ford
10. "Dívida de Sangue" (1965), de Elliot Silverstein

Esportivos
1. "Touro Indomável" (1980), de Martin Scorsese
2. "Rocky - Um Lutador" (1976), de John G. Avildsen
3. "Ídolo, Amante e Herói" (1942), de Sam Wood
4. "Momentos Decisivos" (1986), de David Anspaugh
5. "Bull Durham" (1988), de Ron Shelton
6. "The Hustler" (1961), de Robert Rossen
7. "Caddyshack" (1980), de Harold Ramis
8. "O Vencedor" (1979), de Peter Yates
9. "A Mocidade é Assim Mesmo" (1944), de Clarence Brown
10. "Jerry Maguire - A Grande Virada" (1996), de Cameron Crowe

Mistério
1. "Um Corpo que Cai" (1958), de Alfred Hitchcock
2. "Chinatown" (1974), de Roman Polanski
3. "Janela Indiscreta" (1954), de Alfred Hitchcock
4. "Laura" (1944), de Otto Preminger
5. "O Terceiro Homem" (1949), de Carol Reed
6. "Relíquia Macabra" (1941), de John Huston
7. "Intriga Internacional" (1959), de Alfred Hitchcock
8. "Veludo Azul" (1986), de David Lynch
9. "Disque M para Matar" (1954), de Alfred Hitchcock
10. "Os Suspeitos" (1995), de Bryan Singer

Fantasia
1. "O Mágico de Oz" (1939), de Victor Fleming e King Vidor
2. "O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel" (2001), de Peter Jackson
3. "A Felicidade Não Se Compra" (1946), de Frank Capra
4. "King Kong" (1933), de Merian C. Cooper e Ernest B. Schoedsack
5. "De Ilusão Também se Vive" (1947), de George Seaton
6. "Campo dos Sonhos" (1989), de Phil Alden Robinson
7. "Harvey" (1950), de Henry Koster
8. "Feitiço do Tempo" (1993), de Harold Ramis
9. "O Ladrão de Bagdá" (1924), de Raoul Walsh
10. "Quero Ser Grande" (1988), de Penny Marshall

Ficção científica
1. "2001: Uma Odisséia no Espaço" (1968), de Stanley Kubrick
2. "Star Wars: Episódio 4 -Uma Nova Esperança" (1977), de George Lucas
3. "E.T. - O Extra-Terrestre" (1982), de Steven Spielberg
4. "Laranja Mecânica" (1971), de Stanley Kubrick
5. "O Dia em Que a Terra Parou" (1951), de Robert Wise
6. "Blade Runner - O Caçador de Andróide" (1982), de Ridley Scott
7. "Alien - O Oitavo Passageiro" (1979), de Ridley Scott
8. "O Exterminador do Futuro 2" (1991), de James Cameron
9. "Vampiros de Almas" (1956), de Don Siegel
10. "De Volta para o Futuro" (1985), de Robert Zemeckis

Gângster
1. "O Poderoso Chefão" (1972), de Francis Ford Coppola
2. "Os Bons Companheiros" (1990), de Martin Scorsese
3. "O Poderoso Chefão 2" (1974), de Francis Ford Coppola
4. "White Heat" (1949), de Raoul Walsh
5. "Bonnie e Clyde -Uma Rajada de Balas" (1967), de Arthur Penn
6. "Scarface" (1932), de Howard Hawks
7. "Pulp Fiction - Tempo de Violência" (1994), de Quentin Tarantino
8. "Inimigo Público" (1931), de William A. Wellman
9. "Little Ceasar" (1931), de Mervyn Leroy
10. "Scarface" (1983), de Brian de Palma

Tribunais
1. "O Sol é para Todos" (1962), de Robert Mulligan
2. "12 Homens e uma Sentença" (1957), de Sydney Lumet
3. "Kramer vs. Kramer" (1979), de Robert Benton
4. "O Veredito" (1982), de Sydney Lumet
5. "Questão de Honra" (1992), de Rob Reiner
6. "Testemunha de Acusação" (1957), de Billy Wilder
7. "Anatomia de um Crime" (1959), de Otto Preminger
8. "In Cold Blood" (1967), de Richard Brooks
9. "Um Grito no Escuro" (1988), de Fred Schepisi
10. "Judgement at Nuremberg" (1961), de Stanley Kramer

Épico
1. "Lawrence da Arábia" (1962), de David Lean
2. "Ben-Hur" (1959), de William Wyler
3. "A Lista de Schindler" (1993), de Steven Spielberg
4. "...E o Vento Levou" (1939), de Victor Fleming
5. "Spartacus" (1960), de Stanley Kubrick
6. "Titanic" (1997), de James Cameron
7. "Nada de Novo no Front" (1930), de Lewis Milestone
8. "O Resgate do Soldado Ryan" (1998), de Steven Spielberg
9. "Reds" (1981), de Warren Beatty
10. "Os Dez Mandamentos" (1956), de Cecil B. DeMille

Em negrito são os meus favoritos que estão nesta injusta centena.
E os Indiana Jones? Quer filme mais PERFEITO que Os Caçadores da Arca Perdida?
Acho que só Noite de Cabíria (Fellini) chega junto.
Enfim, coisas assim nunca dão em unanimidade. Ainda bem. Qual é a sua?

Fofoco encafifado

A gente fica mesmo. Os vizinhos do 2B estão esvaziando o apê, não ficaram nem um ano por aqui.
O pessoal do 3A saiu há 6 meses e ainda não entrou ninguém. Fico pensando se eles viram algo que não vi. Deve ser uma coisa bem podre pra não me contarem. Talvez seja eu.
A vizinhança japonesa é quieta e ensimesmada, não gosta muito de entra-e-sai de comadres, trocas de receitas e canapés vespertinos. Cada um na sua. Bom dia, boa tarde e boa noite. Pelo menos isso.
Eu também não gosto muito de papo furado, bom dia, boa tarde e boa noite e basta. Outro dia um dos vizinhos tava na garagem com o tampão do carro aberto olhando atônito o motor do Toyota. Deu pra ver meia dúzia de pontos de interrogação flutuando ao redor da cabeça dele. Cheguei sem estardalhaço perguntando qual era o problema. Ele me encarou com um olhar
o-problema-é-meu dizendo não-é-nada-obrigado.
Parecia o Hannibal the cannibal sussurrando que eu devia engordar mais. Cruzes. Liguei meu carro e mandei ele inteirinho sifu.
O bairro é legal. Tem um templo que dá pra ver aqui da janela (agora não dá porque é verão e as árvores ao redor estão exuberantes), tem plantações de arroz, convenience stores e não tem muita gente. Depois de Hamamatsu, nunca mais me acostumei em São Paulo, tudo me parece muito engolidor por lá.
O pessoal está partindo e depois de uns 250 bons dias e boas tarde e boas noites, podia ter um tchau. Só um. Mas nem isso. O pessoal do 3A deixou lembrancinhas agradecendo, é costume. Quando nós chegamos entregamos lembrancinhas aos vizinhos, tudo conforme as regras japas. Esses aí vão e nem tchum. Então tchau.

Sobre a demissão do Velho Nakamura, descobrimecontaram que é política interna. Chega gente, o cachorro é MUITO grande.

Tem gente bem flhdpt por aqui. De uma forma cômica e extravagante, a comunidade brasileira que mora aqui soa a velho-oeste como se fossemos desbravadores, pioneiros, colonizadores num mundo novo e nessa caravana de cães que ladram e mordem, os oportunistas aparecem.
Já estou mexendo meus pauzinhos contra esses flhdpts sacanas. A casa vai cair, mermão.

Não, nada a ver com os cachorros MUITO grandes. São outros cães. Mas que raça, hein? Vem do outro lado do planeta pra cagar na nossa calçada? Já é.

Saudações dominicais

Domingo é dia de missa. É também o primeiro disco do Caetano, gravado com Maria da Graça que depois virou Gal.
Terminei de ler Caetano e to começando outro Caetano, ouvindo Caetano num domingo que para mim é de manhã, ainda que seja 12:01, hora das comilanças nas casas por todos os lados, menos aqui.
Domingo começa com banho. Não que todos os dias não devam. É que no domingo o banho matinal tem sabor de piscina. É banho azul de ficar mais tempo com a ducha explodindo muita água no meio da cara gritando aaaah.
Se não me engano, há uma canção dos Titãs chamada Domingo. O disco Domingo de Caetano e Gal é pré-tropicália e os Titãs são legítimos herdeiros - como muitos! - do que seria a pós-pós-tropicália. Tudo pós Novos Baianos e tudo mais. Tem o domingo sangrento irlandês do U2. Tem o Sunday Morning do Bolshoi, acho.
Domingo é para se cantar sim, com sangue, cerveja, família, cotidiano e tempero.
Hoje vou ali e já volto com as fotos.
Só vou porque é domingo. Se fosse sábado, como ontem, não iria. Não fui.
Hoje resolvi começar outro projeto cênico, foi no banho, fazendo aaaah com a ducha na cara. Quase todos dão em água, sem trocadilho, mas não desisto. Ler Caetano e ouvir Caetano dessa forma cronológica e lógica é uma das fontes dessa ambição canhestra de fazer arte.
Não respiro outra coisa. Grana também respiro, claro. É a dicotomia que levo para o epitáfio, meu paralelo mais constante, o grande caos da minha condição dominical, diária, horário comercial.
Grana e arte, arte e grana. No dia que juntar tudo num balaio só, degluto e lambo até a raspa da colher, depois dou um arroto barítono de satisfação num domingo, rindo das mesmas piadas de toda a vida.
Só posso dizer que Caetano Veloso é uma pessoa que me faz ter orgulho de ser brasileiro. Muito brasileiro pra caraca.

4 japas, 2 vietnamitas e 1 corinthiano

Daqui pra lá: Eu, Tanaka, Nakamura, Khahn, Suzuki, Honda e mais abaixo, Khien.
Turma boa pra consertar piano zuado.

O Velho Nakamura afina piano sem diapasão, um alquimista.
O Velho Nakamura acabou de voltar de Zurich e Paris.
Está de viagem marcada para a Korea. Depois vai para o Canada, Austrália e Hawaii. Roteiro da mulher, ele disse.
Ele fala alto porque é meio surdo. Mas tem um Lá absoluto na cachola. Pra sempre.

O Velho Nakamura foi demitido.
Por isso, minha homenagem.

Timão ê ô

Silêncio na arquibancada alvinegra.
Todos corinthianos que conheço cantaram vitória antes.
Todos.
Eu nunca mais faço isso com meu orgulho.
Agora olha onde tá o grito de campeão, do outro lado, do lado deles.

Vamos ser campeões da segundona? Não duvido, nem aposto.
Só acho que pro Timão voltar a ser o que sempre foi, é preciso ter pé no chão, a começar por nós mesmos, meros simpatizantes.

All you need is love

Nos anos 80 eu li um troço no Jornal da Tarde onde uma socióloga americana ou inglesa dizia que daqui uns 300 anos iriam lembrar do século XX não por suas duas grandes guerras mundiais, nem pela guerra fria ou pelo Vietnã, mas sim por causa da música dos Beatles e do encontro e mix cultural entre o ocidente e oriente.
Naqueles anos no JT tinha um caderno de leitura aos sábados que era muito bom.
Lembro que fiquei entusiasmado com essa socióloga e que fazer parte do século que seria lembrado por causa do rock'n'roll me deixou bobão por ter nascido no século certo.
O que nem eu e nem ela sabíamos é que a vida corre. Outra grande sacação é que o século termina, o Paul virou um bobo, o Ringo já era bobo e escondeu-se e até o George foi esquecido. Quem lembra do que ele morreu?
O Lennon, sem ironia, soube morrer matado. Mas também virou verbete no wiki e só.
O ocidente come sushi e gueixa. O oriente come hamburguer e gueixa. O ocidente manda 10 porta-aviões para qualquer lugar do planeta em um telefonema. O oriente manda 10 homens-bomba para a sua sala, na hora do jantar. A troca cultural corre solta.
Por essas prefiro ser monoglota, ficar no meu arroz com feijão e não dar mais ouvidos pra sociólogos bêbados.
Do primeiro de janeiro de 1901 até o 31 de dezembro de 2000, não houve um dia de paz nesse século de Beatles, Hitler e Picasso. Em todos os dias houve um tiro de guerra. Alguns mais consistentes como o 6 de agosto de 1945, o super-verão no verão de Hiroshima, outros românticos, como as batalhas de Montgomery e Romell nas areias do norte da África.
Daqui a 30 anos quero estar vivo para lembrar do século XX como o século em que nasci.
E que no miolo dos cem desesperados anos desse século bem doidão, perdi minha virgindade.

Rock in Rio - não no Rio

Vale o nome, a grana ao redor do nome, a cor do nome e o nome Euro, doze estrelinhas em círculo na conta bancária.
Tem a seleção brasileira comandada por uma autarquia, seja lá o que isso significa, que contratou uma empresa árabe de eventos para marcar os jogos amistosos em lugares absolutamente verde-amarelo: Boston, Seattle, Londres, Suécia.
Vale o nome, a cor da camisa tilintando em alguma máquina registradora.
Não dá pra torcer por uma seleção estranha aos olhos e ao coração. Quem é Sóbis? Eu sei quem é, mas de fato, o que ele representa?
De todos os jogadores convocados para as partidas contra o Canadá e Venezuela, só os ex-jogadores do Santos foram campeões em solo brasileiro.
Uma coisa não explica a outra. O Pelé nunca foi campeão brasileiro. O Ronaldinho também não.
Mas é triste perder um vínculo criado pelo simples prazer de ver o time de futebol do meu país, seja numa copa do mundo, seja num amistoso. Tesão pela linha de fundo.
Talvez esse excesso de bastidore$ e carência de bons atores tenha minado essa paixão. Talvez tudo, até mesmo essa famigerada tática idiota que domina o futebol desde a copa de 1982, essa imbecilidade italiana de jogar com dois volantes.

E então tem o Rock in Rio. Teve aquele em 1985. E foi mágico porque foi o primeiro. Agora tem o Rock in Rio - Lisboa. Ok, o Medina quer mais grana, ótimo, a marca, a logomarca é dele, faz o que quiser. Mas me explica aí, ó pá, Ivete Sangalo é rock em que região das coxas de fora?
Vale a grana, a nota e não é a nota blue (blue note) que faz o delírio da gente desde o primeiro 78 rpm de Muddy Waters ou o grito de Chuck Berry. É a nota preta, cabra.
Tão dizendo que o Rock in Rio vai voltar ao Rio. Depois não reclama.
É, eu prefiro ser essa esquizofrenia ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo.

Mucho Lexotan nas guitarras e chuteiras dessa carência de identidade usual. Se acabarem com o rock'n'roll e com o futebol, finalmente acabaram com o século XX. E tudo indica que o século XXI será mais que fast food amanhecido, será Ivete Sangalo num festival de rock carioca nas plagas lusitanas.

Abre os zóio, japonês

100 anos miss

Sempre fui alheio a comemorações, todas, qualquer uma, as óbvias e as inusitadas. Tive uma vez uma festa de aniversário surpresa, não lembro direito, mas já era adolescente e na verdade tenho vagas recordações daquele dia.
Não, ano-novo virou um ritual, nenhuma novidade. Amanhã é dia dois e só.
Mas pensa bem, não sei bem onde e pra que, tá todo mundo comemorando os 100 anos da imigração japonesa no Brasil. O tsunami da mídia já passou, o navio chegou em abril e os japas já desembarcaram em Santos pela centésima vez.
Em 2033 eu comemoro os 100 anos da minha família no Brasil. Se estiver vivo até lá.
Teve festinha com o imperador japonês no meio da brazucada. Teve o principe herdeiro homenageado. Revistas com matéria de capa. Samba, fogos, missa, discursos. Sushi e farofa pra todo mundo. Juro, não saí de casa.
O que não entendi é essa profusão de concurso de miss. Tem a Miss Centenário Brasil-Japão do Japão. Tem a Miss Centenário Brasil-Japão do Brasil e tem a Miss Nikkei Centenário, no Japão.
Deve ter mais alguma e não percebi. Ai ai.

Quem pegou no meu Tupperware


"Aquelas coisas que a gente só pensa quando tá lavando a louça". (Laerte)

Tava lavando a louça e ali do fundo apareceu uma tampa de tupperware diferente de todos os tupperwares de casa. Conheço todos do armário.
É importante esclarecer que o tupperware é uma das drogas mais viciantes e eficazes do pós-industrial tanto quanto o carro, a televisão, o pc e o celular. É daquelas coisas que após algum tempo de uso a humanidade se pergunta como viveu sem aquilo por séculos. Eu me lembro do mundo sem pc nem celular, mas parece que nunca aconteceu. Também me lembro do tempo que não tinha carro e também parece que sempre tive um. Na verdade, o passado tem por condição parecer que nunca aconteceu, ainda mais um passado assim, sem carro, celular e computador.
Mas me lembro de um mundo onde tudo era guardado em pratos e havia uma redoma de plástico que vendia na feira que cobria o produto dentro da geladeira. Um plástico ordinário que trincava à toa e quando quebrava, cobria-se com pano e às vezes ia pra dentro da geladeira com pano e tudo. Pudins ainda vão sem tampa.
Um dia apareceu um tupperware em casa e depois outro e mais e mais até a coisa multiplicar-se feito gremlin na água da pia da cozinha. Depois os tupperwares viraram outras marcas e mais adiante caíram na mão dos chineses e surgiram as lojas de 1,99 e desde então compartimenta-se o mundo em caixinhas multiformas e cores.
Voltando à pia, aquela tampa tinha a sua cara-metade e não poderia estar muito longe.
Lembrei de um jantar na casa de amigos e que ganhamos um tequinho de um doce. Se fosse no mundo pré-tupperware, viria num pires com um guardanapo em cima.
A cara-metade estava no escorredor de louças e a tampa escorregara. Lavei direitinho.
Mas aí vem a frase do Laerte que preambula essa bobagem toda:
Lavei o tupperware com toda gentileza e atenção redobrada pois estou devolvendo e quero deixar boa impressão, se possível, impressão nenhuma sobre o plástico. Devolvo com cheiro de detergente de maçã. A pessoa recebe, diz que não tinha pressa, aquelas coisas. Nós nos conhecemos o suficiente para saber que ambos somos asseados, higiênicos, não temos doenças contagiosas tipo ebola, hepatite ou hanseníase, mas a grande dúvida me corrói: Ao chegar em casa ela vai colocar direto no armário confiando na minha asseada e carinhosa lavada ou vai jogar na pia para lavar de novo, certificando-se do óbvio e dando de si para concluir a higienização de um objeto que é seu?
Vai lavar ou vai guardar?
Se vai lavar, pra que cargas d'água eu lavei com atenção redobrada?
Se vai guardar, ótimo, agradeço a confiança depositada.
A outra questão laertiana que me corrói - essa muito mais por causa da formação latino-judaico-cristã - é:
Porque quando recebo um tupperware que emprestei, mesmo sabendo que a pessoa não tem ebola, hepatite ou lepra, lavo de novo?

IMPOSTORES

I
Hoje choveu um verão. A semana promete.
Hoje tava tranquilo trabalhando e pensando na vida. Não há outro meio de trabalhar senão pensar no que nos faz sair da cama: vida. Tava lá tranquilo, vida, patati-patata, quando tocou o celular. Olhei pra ver e era um número desconhecido. Fiquei intrigado. 13:14 não é uma boa hora para telefonemas. 13:22 e o troço vibrou de novo no bolso. Atendi.
Alô, era o cara do departamento de imposto de renda do município. Ligou para dizer que estava com a minha ficha na mão e que eu havia parcelado a mordida de 2008 e que nenhuma estava paga.
Como esses caras falam japonês para japonês não se importando se você não o é, retruquei dizendo que a parcela referente ao mês de maio eu iria pagar amanhã, dia 4 de junho, que sim estava atrasado, mas que iria pagar amanhã.
O cara do departamento de imposto de renda do município disse que não, que nenhuma parcela estava paga.
Aí minha ficha caiu. Eu estava no meio de um engodo kafkiano. Eu era o próprio Gregor Samsa transformado numa barata e o cara do departamento de imposto de renda do município era um chinelo. Eu disse que não, que havia pago e que tinha os canhotos de todos os pagamentos. O cara do departamento de imposto de renda do município ficou macho, alterou a voz, cresceu. Disse que se assim fosse, que levasse para ele ver. Eu disse que sim, que de qualquer forma iria à prefeitura resolver outras pendengas e que daria uma passadinha no 3o. andar só pra esfregar os canhotos na cara dele. Não disse assim, mas o tom foi esse.
Desligamos.
Liguei no mesmo instante para a intérprete/tradutora da prefeitura falando do cara do departamento de imposto de renda do município que tinha me ligado re-cobrando o já pago etc. Ela disse que iria verificar, que eu ficasse calmo, que às vezes o sistema falhava.
O sistema. Ela citou a palavra errada na hora certa. Ela poderia dizer establishment e ia dar na mesma. O Politburo, a Nomenklatura e nós, os réus.
Liguei às 15:02 e ela disse que na minha ficha no computador eu estava inadimplente. Nada-consta. Zero.
Ok, dear, amanhã eu passo aí e enfio essa...

II
17:34 em casa com o envelope dos canhotos na mão. Toca o celular, era o cara do departamento de imposto de renda do município todo moça, cheio de boas tardes.
Senhor Schimada, ele disse, nós verificamos a fundo e pedimos mil desculpas, mas de fato, está tudo pago.
Ok, senhor cara do departamento de imposto de renda do município, amanhã eu passo aí e você tira cópias dos meus canhotos para incluir no meu prontuário.
Não será necessário, Sr. Schimada.
É necessário sim, senhor cara do departamento de imposto de renda do município, é necessário sim.
Estarei aí às 10:00.
Sim, Sr. Schimada.

III
Eu sou um chinelo, pensei.