O vira-latas de Nelson

O brasileiro tem medo da palavra intelectual. Acha que isso e' muito pro seu caminhaozinho. Nao concorda que alguem o seja se nao for um academico de uma universidade ou leitor diario de Kant e Schopenhauer. Intelectual tem que ouvir Erik Satie e Steve Reich porque Beethoven e Wagner sao pops. Tem que andar curvado, macambuzio, falar sozinho e ficar olhando a vida passar pela janela, olhando nuvens e inspiracoes divinas invisiveis. Ou tem que ter uma blusa no ombro, estar confortavel em mocassins macios e tentar jogar a sua fiel plateia um ar despojado blase ultra-carregado de politicagens corretas recem vindas das vernissages da Soho. Intelectual tem que ter a cara e pose do Richard Gere ou Sean Connery ou Austragesilo de Athayde e nao do Jack Black ou Mussum. Tem que ter carro fudido ou andar de onibus. Tem que desconhecer Felipe Massa, Big Mac, campeonatos de ioio e Darth Vader. Intelectual nao pode ser feliz, risonho, comum, ordinario, filho da puta e feder.
A palavra intelecto nao tem a mesma origem de intelectual. Soa como femur e cranio ou tibia e caveira. Vomitar e descomer.
Se alguem ainda duvida do complexo de vira-latas que Nelson Rodrigues viu em si e na vizinhanca, continue duvidando, e' assim que se exercita o intelecto. Mas tenha um bom argumento, mizinfi.

Benedita quinta-feira

A quinta-feira e' tao ou mais bendita que a sexta-feira porque voce sabe que amanha e' sexta e ja vai trabalhar melhor, num clima melhor consigo e com tudo ao redor.
Encarar a quinta como um preambulo da sexta faz da sexta um enorme adendo do sabado.
A maioria das pessoas encara a sexta como o preambulo do sabado e isso deixa o sabado apenas sabado. Se voce encarar a quinta-feira com espirito de sexta, seu final de semana vai ter tres dias, incluindo a sexta-feira, mesmo que seja um dia de trabalho normal. Mas e' do clima o lance, nao do batente que eu to falando. O trampo e' detalhe nessas horas, beneditas horas.
Claro que isso nao pode ser pensado em meses senao o carnaval ia comecar em outubro, la pelo dia 12, dia da padroeira, e ia terminar em maio do outro ano, no dia do trabalho. Ia sobrar uns 5 meses de micareta, o que e' pouco.
Se o Brasil que ja e' maluco tentando ficar careta tomasse essa overdose de brilho, seria o paraiso de outros povos e o inferno de si mesmo. Ops.
Mas hoje ja e' sexta-feira e tudo e' muito melhor, mesmo que chova surdao e treme-terra desse carnaval que se quisermos, e' a vida toda, todo dia.
Entao bumbum pratigundum brugurundum pra voce e pra toda a familia.

Causos no bosque do Monte Fuji

Quando as hostilidades norte-americanas se interromperam logo apos as bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki e, conseqüentemente, a rendição do Japão, ele tinha onze anos e morava em Yokohama. Seu nome e’ Goto.
Durante a guerra, numa tarde de verão, Goto e alguns amigos resolveram variar e desviar o caminho de volta para casa, passar numa praia distante alguns quilômetros da casa e do bairro que moravam. Apesar de ser proibido ir para perto do mar, quem diz não a garotos na saída da escola? Para ir de sua casa para a escola e vice-versa, atravessavam um bairro comercial onde alguns moradores e comerciantes temiam por sua própria sobrevivência pois eram considerados alvos táticos dos constantes e quase diarios bombardeios da frota americana na costa japonesa.
Naquele dia foram para a praia porque era verão e o céu estava claro; os aviões atacavam geralmente à noite e nunca num dia com um céu como aquele, estavam tranquilos. Conversavam e riam sentados na areia quando os estrondos vindos do mar gritavam e antecipavam a tragédia que viria. Na cidade comecaram as sirenes. Por poucos minutos, Goto e os amigos esqueceram que estavam em guerra e isso, apesar de nao ser agradavel lembrar, esquecer e' imperdoavel.
As bombas assoviavam, rasgavam o céu e explodiam exatamente no bairro que era o caminho da escola. Naquele dia chegaram muito tarde em casa pois tiveram que desviar do bairro que ardia em chamas. Por dias, o cheiro de carne queimada era insuportavel.
Goto e sua familia, centenas de familias ficaram alguns dias sem comida porque os locais de venda e distribuicao de alimentos do exercito era nesse bairro.
Quando o general McArthur desembarcou para tomar as rédeas do pais vencido, tropas inteiras chegaram para ajudar na reconstrução de setores básicos como comunicações, transporte, saúde e alimentação nas cidade de Tokyo e Yokohama.
Nesses dias de desespero, perdas, mortes, cólera e destruição, Goto aprendeu a sua primeira palavra em inglês:
- Chocolat, gimme a chocolat!
Depois aprendeu muito mais e viajou o mundo, inclusive o Brasil.
Hoje ele e’ presidente aposentado de uma fabrica de tapeçaria para automóveis e muito meu amigo.

Um Beijo Roubado - 2008


Eu sei, o titulo em portugues nao ajuda, mas pra quem gosta das comedias-romanticas novaiorquinas cheias de encontros e despedidas, amores e desilusoes, com um elenco afiado com o diretor, com um diretor afiado com o publico, com um publico afiado com o filme, recomendo essa pequena obra-de-arte de excelente camera, cor e fotografia, texto enxuto, sem exageros linguisticos (feito esse agora) e montagem estupenda.
Nesse caso, sem pipoca, prefira balinhas de hortela pra se beijar muito no final. E nao e' um sarro com o titulo, e' romance e tesao mesmo. Claro, assista bem acompanhado (a).
Tem o Jude Law com aquela cara de quero-colo-senao-choro de sempre e as gatas Rachel Weisz, Natalie Portman e a grata surpresa, Norah Jones. O ator David Strathairn ganha o filme do meio em diante. Direcao de Wong Kar Wai.
Rola um mea culpa nessa coisa toda pois uma outra pelicula do mesmo diretor ja me fora recomendada ha algum tempo e ignorei, esqueci, escafedei no bau. Coisas da vida.
Cara, a trilha sonora... Chega! Assiste o trailer aqui.

Bola de meia, bola de gude

Ontem um cara veio falar comigo com a bochecha inchada por causa daquelas balas redondonas feito uma bola de gude, das exageradas.
E' impossivel nao olhar praquilo enquanto a pessoa conversa com voce. Nao que voce queira, mas aquilo chama a atencao.
Constrangido, me deu duas, nao uma, mas duas balas.
Educadamente, eu disse nao, cara, so uma.
Nem, pega as duas.
Molecote de tudo, enfiei as duas na boca por pura felicidade, joguei uma pra cada bochecha e em seguida me senti um saco.

Expressoes

Dialogo:

- Putzgrila, hoje o dia demorou pra passar.
A pessoa responde:
- Pior.

Ou:

- Acho que vai chover.
- Pior.

Diz ai, quale quie a do pior?

O Amor em Garcia Marquez

Nao da pra entrar na discussao livro x filme e cair no lugar comum de que o livro e' melhor. Obvio, pedro bo', qualquer livro vai ser melhor que qualquer adaptacao cinematografica.

Tem coisa que se salva quando o proprio livro fora escrito para ser um filme, coisas do Stanley Kubrick ou outras porralouquices de Terry Gilliam.

O filme O Amor nos Tempos do Colera tem Garcia Marquez pra dedeu. Nao na literatura ou nas entrelinhas magicas do colombiano, mas no humor e na escolha do elenco.

Li uma vez que ele jamais daria os direitos autorais de Cem Anos de Solidao, pois considerava impossivel alguem transportar o universo de Macondo para duas horas de projecao. Apesar de eu achar que O Amor tem muito mais da bagagem literaria de GG Marquez do que Cem Anos, acho que o filme ficou bem acabado, rico nos detalhes, textura, fotografia e dialogos.

E tambem concordo com o autor quanto a Cem Anos ser impossivel no cinema. Macondo nunca sera tema num parque tematico feito Disneylandia, Beto Carrero ou Universal Studio Park. Nem queira, meu cigano Melquiades, em qual recanto do inferno estiveres, que permitam a Globo fazer uma mini ou uma novelargh. Nos basta Dona Flor by Giulia Gam e Edison Celulari.

Se o filme e' piegas? Claro! Olha o titulo! Mas sao personagens que nasceram da batucada de Gabriel numa maquina de escrever e isso faz totalmente a diferenca. Vixi.

Foi pra Maracangalha


Nao ha influencia maior na MPB do que a musica de Dorival. Pra quem acha que musica baiana e' essa chatice de hoje em dia, ledo engano. A musica baiana e', para sempre, Dorival Caymmi.
Ele foi o nosso Jimi Hendrix. Ou o Dorival deles. Nao como instrumentista virtuose ou icone junkie de uma ou varias geracoes. Mas um ponto de convergencia musical. A partir dele a Musica Popular Brasileira aprendeu a fazer a cancao, essa de barzinho, essa de Chico Buarque, Joao Gilberto e Tom Jobim, essa de Caetano e Djavan. Essa senhora Bossa Nova. Os anos 70 de Gonzaguinha, Ze Ramalho, Elba e Belchior. Os roqueiros Cazuza, Renato Russo e Nando Reis.
Definitivamente, ele foi pra Maracangalha.

Monge Ze'

Nenhuma preocupacao na cabeca, pasmem.
Tranquilo, mas nao careca como um monge zen, sentei aqui pra escrever sobre isso. E ai, sim, no ser binario que a gente vai se transformando, nas bifurcacoes e escolhas necessarias pra ir, simplesmente ir, surge a primeira duvida com suas duas setas indicando seus opostos: Continuo ou nao a escrever isso.
Sabe-se desde ja a minha opcao. Mas voce tem outra, e e' mais facil, e' so' me esquecer e ir tomar um cha.
As acoes abruptas tipo tomar um banho rapido, comer rapido e sair rapido para nao pegar transito, hoje nao sao necessarias. Hoje estou de folga e isso me deixa bundamolao e sossegado, um monge Ze'.
E' isso. Chega.
Daqui a pouco vou ate o posto botar gasolina e depois vou queimar uma picanha com a familia.
Ontem fui tocar com um guitarrista e tudo deu certo, a escolha do repertorio, as nuances mediunicas de primeiro ensaio e feelings musicais. Agora falta o baixista, esse famigerado sumido. Baixistas sao musicos em extincao. Po, ontem tocamos Follow You, Follow Me do Genesis, meu chapa. Isso e' legal pracas.

Minimiza, minimiza

Uma vez eu disse num antigamente do Arte Mutua e num post recente que o Gabriel Garcia Marquez estava vivo e isso era muito importante porque a gente respirava o mesmo ar que ele.
Na verdade, no recentemente, falei de Saramago.
O Eduardo Galeano tambem e esta lancando um livro novo.

Caetano e Roberto no palco. Uau. Respirem, respirem.
A maioria das pessoas acha o Roberto Carlos um boboca brega. Ele e', mas e' o bobo-mor, o Rei. Num lugar onde um monte de gente ficou comovido com a Dercy morta e calada, pode-se tudo, ate punk achar o Roberto legal. Tudo pro inferno, bicho.

E' fato que nos ultimos 30 anos ele nao fez nada de bom. E a Dercy em 101?

Vai ter Gilberto Gil em Nagoya e Pato Fu aqui em Hamamatsu. Nagoya nao e' longe, mas eu ja moro em Hamamatsu, portanto, sorry, ex-ministro.

Pode ate ser que a Takai ataque com umas bossinhas no lance lindo que ela gravou com as coisas da Nara Leao. Insensatez ficou muito massa.

Nesse pc novo tudo e' japones. Por isso o acento agudo e' um apostrofo e nao tem como meter um circunflexo ou tremas e tils e cedilhas. Economizo muito no agudo pra nao ficar esse risquinho em riste na leitura. Agudo e' inclinado, um charme, e nao essa baioneta de sentinela.

Tudo vai mudar quando eu voltar ao velho pc velho. Toda essa poeira entre a vida real e o virtual vai sair de la de dentro com o tubao de ar que adquiri, uma Katrina engarrafada, parece.

Praia praia praia. Que mais posso querer? Mais praia? Claro.

Me disseram que estou engordando. Ha anos, eu disse. Me disseram que estou barrigudo. Desde o seculo passado, confirmei. Me disseram que isso faz mal 'a saude. Viver tambem, magro-politicamente-correto-patrulha-ideologica-de-academia. Eu quero viver ate morrer, boboca.

Tem magro que acha que vai viver ate viver.

Anti-estetica, sua barriga saliente e' anti-estetica.
Estetica pra mim e' uma Ferrari Testarossa urrando aceleracao. Ou o olhar blase da Bundchen na ponta da passarela. Tem as fotos do Salgado e do Joao Caldas. Um quadro. Dois quadros, um museu. Isso e' estetica.
Minha barriga e' so' um umbigo exagerado na ponta. No dia que aparecer outro - espaco nao falta! - juro que vou na televisao, fico milionario e todo mundo se diverte, ate os magros chatos bicoes de festa.

Chega, prum petisco de insonia, ta de bom tamanho.

A Coisa Yasumi

A Coisa funciona assim, nao tem ferias anuais como a CLT da brava gente. Tem uma Coisa que a gente vai se acostumando porque senao desembarca.
La pelo dia 29 ou 30 de dezembro, comeca o SHOGATSU YASUMI* e dura uma semana, ate o dia 6 ou 7 de janeiro. Nao, tupinamba, aqui nao tem essa de natal em familia nao. Ate tem, mas sem cerimonia, ceia ou tititi de tia.
A vida corre pelo rigoroso inverno de janeiro e fevereiro, a primavera chega junto com as flores de cerejeira e vem, em maio, o GOLDEN WEEK YASUMI, como o nome ja diz, uma semana de descanso. Calha de ser junto ao obon e as festas de semeadura do arrozal. O obon e' uma especie de Finados.
A vida ainda se toca, ja mais quentinho e chega agosto, summer top, verao no pico, termometros explodindo, usinas nucleares bombando (!) energia pra todo mundo ligar os condicionadores de ar (ares condicionados?).
Em agosto temos mais uma semana de faz-nada-nao-cara, o NATSU* YASUMI. Como o verao+praia+tempo-bom so' dura 8 semanas (deus agendou TUDO no weather daqui!), tem que aproveitar essa semaninha pra lagartear na areia e dar os pulinho atrasados ou adiantados pra Yemanja.
A Coisa e' Coisa porque TODOS estao de ferias desde sexta-feira passada. So' eu e a tchurma da Apollo Piano trabalhamos ontem e vamos ralar hoje. Uma coisa, de fato. Mas amanha boto o pe na jaca ou ashi jaca ni ireru, meu chapa.

(*)
Shogatsu - Festa de virada de ano
Yasumi - Descanso
Natsu - Verao

Minas e Manos



Trofeu na mao, hora de discurso.

Obscuro momento de transcender a agorafobia e fazer historia. Deixar um bilhete feito Getulio Vargas. Depois criar uma fundacao com o meu nome. Ficar citado foreva como o neutro, o nada, cloro inodoro incolor anador. Bum e nao boto o cano frio de um trezoitao na tempora por nada desse mundo. Nem no peito, meu Jesuscristinho, nem pela historia e sua entrada a pontapes.

Titia Batata nao acha isso e despejou petalas pelo meu caminho, ao redor, na minha paisagem. Agradeco a citacao ao Premio Dardos e junto a ele, veio a condicao de citar toda essa gente que faz a gente entender e satisfazer-se com as idas e vindas da humanidade: blogueiros.

Os blogueiros seriam uma especie em extincao se nao fossem pacientes e, paradoxalmente, teimosos.

Sem mais filosofia. Tenho um pouco mais de 15 links na lista de minas e manos, os brothers. Mas tenho quase isso ou mais que isso, tenho uma lista de gente muito afim de acertar o passo e consertar um tequinho de ceu e terra atraves da palavra & imagem, do som e do sonho. Sao As Minas e os Manos aqui do lado. Todos. Juntem essas cabecas e coracoes e ganhe um infinito. Infinitao, meu chapa.

Back back baby

Fiquei uma semana sem tocar nas teclas de um pc. Sem abrir a pagina do weather ao inves de olhar o ceu pela janela. Sem saber que no mundo tudo continua igual sem minha participacao. Nao soube de nenhum tropeco de uma diva de Hollywood ou de um inusitado arremeco de filhos pela vida - ou seu oposto. Nem de fugas ou rebelioes ou tombos estonteantes de governos sonambulos. Nenhum livro online me hipnotizou, nenhuma paisagem ou estrela nova do Hubble.
Nao soube da pouca euforia do Laerte ou do sarcasmo de Angeli ou da dura realidade de Adao. A cegueira de Saramago e Meireles nao vi. Nao vi o rei calar ninguem e nem O ninguem ser calado pelo rei. Nao vi deus fora do pc. Nunca o vi dentro, entretanto.
Uma semana sem pc e descansei alguma coisa que nao sabia ser possivel descansar. Ainda nao sei, mas sei que tirei ferias de mim em mim. Tudo continua a salvo atras da tela do meu pc voador. As ideias descansam, as azaleias pululam e nao sei quais sao as cores de suas petalas. Posso ir ao google e perguntar, mas prefiro a duvida e o esquecimento. Isso nao me faz mais burro, nem menos curioso, so' mais um pouco humano.
Mas voltei, ufa.

Eles dizem goru

Torcida uniformizada do Jubilo Iwata, time da Yamaha.

Ontem foi o debut da Nanci numa partida de futebol ao vivo no estadio. Fomos ver Jubilo Iwata x Vissel Kobe no estadio do Jubilo, pela Primeira Divisao da J League, o Brasileirao dos japoneses. O Jubilo e' o time da regiao, da cidade de Iwata que fica aqui do lado. Pena que a cor do uniforme seja com esse azul argentino/uruguaio senao eu torceria mais. Alias, to nem ai, meu time continua aquele da arrogancia eterna, do eterno porvir, o campeao dos campeoes, o retrato em preto e branco do Brasil.

Fazia muito tempo que eu nao ia a um estadio e tudo aquilo me recarregou as baterias do gosto pelo association. Gosto de futebol porque o melhor de uma partida e' o efemero, o lance que acontece e nunca mais sera' revisto. Tem o videotape, a repeticao do lance que estragou um pouco essa magia do instante unico.

Tirei varias fotos. Escolhi essa por causa da bandeira brasileira ali no canto direito, no meio da uniformizada do Jubilo. Nao me lembro de nenhum brasileiro em campo ou contratado, mas sei que o Filipao (do penta) foi tecnico e o Wilson Mano e o Dunga jogaram por aqui. Outros vieram, mas nada que merecesse minha atencao.

Morei num predio baixo ali em Tenno cho onde tambem morava o centroavante Nakayama do Jubilo. Ele tinha alugado uma vaga no meu predio para o seu Porsche prata e varias vezes nos encontravamos no ir e vir. Meu Hondinha Today ficava do lado do roncador nervoso do mancebo. Esse Nakayama fez o primeiro gol do Japao numa copa do mundo e e' 100% idolo, ruim, mas idolo. O estilo atropelador dele me lembra o Roberto Dinamite (Vasco, anos 70) entrando tropecando na area. Quando digo a um japones essa historia do estacionamento, ele nao acredita. Foda-se, o idolo nao e' meu.

Japoneses no estadio

Criancas, familia, criancas na fralda, velhos de binoculo, cerveja em copos de papel que nao ficam espalhadas pela arquibancada, tudo muito limpo e organizado como no Scala di Milano. Banheiro limpo. A Nanci foi ao feminino e nao reclamou - alias, sem fila. Local para fumantes e muita calma. Na minha frente, o casal de velhos comiam macarrao e salsichas fritas. Mais ali embaixo, a menina no iphone via a partida aqui e acola. Do meu lado, um rapaz de terno e gravata e walkie-talkie, descobri, nao era seguranca, era lanterninha e arrumava lugares vazios para atrasados. O velho do meu lado tomava seu cha verde na sua propria garrafa termica. A velha do lado da nanci assistia a tudo sem entender nada. Sabe aquele olhinho de tudo-vale-a-pena-pelos-meus-netinhos?

Eu vi um 0x0 com 3 bolas na trave e pouca imaginacao. Entao eu disse `a Nanci quando der 40 do segundo tempo, a gente vai saindo pra nao pegar a muvuca. Dito e feito, 39 do segundo, escanteio pela direita, cruzamento perfeito no segundo pau e gol do Vissel, um a zero pro inimigo. Mea culpa, boca marvada, pensei. Juntos erguemos a bunda dura de arquibancada e descemos para o estacionamento, sem empurra-empurra.

Saudade do Pacaembu quando dava pra ir e voltar sem precisar de escolta.

Deu Wood - desboond

Wood de pau. O meu pc, velho como o seculo passado, reinventou-se em traquitana sem uso, cansado.
Domingo volto a mil. Nao to em casa.

PS. Mas a abertura em Pequim, hein? Desbunde made in china que nao se encontra em loja de one dolar, 100 yenes ou 1.99 reais shop. Sim, sem bunda e sem acento, desbunde, esse post.

Idiossincrasias dentro e fora do grande império

Daqui uns dias começa a Olimpíada na China e com isso começou um China pra cá, China pra lá e tal, em todas mídias. Chinês curte a China, uma chinoca e um gueto, isso sim. Observando alguns deles com os quais convivo na Apollo Piano, posso dizer que no começo, aquela multidão de atletas vai ser muito bem tratada, serão vistos e respeitados como honoráveis visitantes do exterior que-muito-nos-honram-com-sua-magnânima-visita.

Mas também te digo que lá pro fim do torneio de badminton ou pólo aquático ou qualquer um desses esportes de multidões, lá na última semana das competições, os chineses vão estar de saco cheio de tanto gringo rindo e tirando foto de tudo. Além do fato de que nem todas as medalhas ficarão no peito varonil dos membros do Partido.

Medicina chinesa é balela, meu sinhô. Não engulo pó de barba de tigre branco pra conseguir uma ereção ou curar uma hérnia. Também fica o fato de que a tradicional e milenar medicina chinesa tratava de gente cuja média de vida era de 35 anos. O cara fica só 35 anos tomando xarope de pó de pena de faisão para aquela rinite e depois bau-bau, morre. 35.

Eles e elas são muito teimosos e se convidam como se o seu espaço fosse um mero detalhe, provavelmente, um detalhe deles. Se convidam na tua mesa de trabalho, na tua cadeira e não respeitam o fato de você ser você. Você é algo no universo coletivo do socialismo triunfante e boboca que socaram na cachola deles nos últimos 60 anos.

Quando eu soube que lá não há fila, entendi muita coisa sobre a ordem e o respeito dentro de uma ordem universal pré-estabelecida e que não está escrita em lugar nenhum. Sabe essa coisa de lei da gravidade e mil matemáticas e equações? Pra que fazer conta se ela está aqui e agora e faz a minha bunda ficar grudada nessa cadeira? Essa lei universal é assim, nós vivemos numa boa porque é uma idéia comum. Agora, considere isso num lugar sem fila, sem o respeito pela ordem de chegada. E é um lugar onde a solidão deve ter umas 100 pessoas juntas. É o país do um bilhão de pessoas.

Por essas e outras entendi muito dos chineses que trabalham comigo. Um saco, um bilhão deles.
A tal sabedoria de Lao Tsé e Confúncio e tal, é tudo papo furado. Furadíssimo. É o mesmo estereótipo dos 200 milhões de técnicos de futebol ou do samba ser uma coisa comum a todos.
Conheço gente que detesta futebol e outras que detestam samba. Tem os que não se entusiasmam com feijoada e os que, como eu, troca uma churrascada por uma boa pizza marguerita.

Minha heresia passa do ponto, eu sei. E também sou teimoso, chato, um saco. Mas não sou chinês.