Ser ou not to be

TARCIO VIU ASSIM disse...
Caçamba! Nei é curintiano e eu nem sabia!
- Mais um ponto pra vosmecê, cumpadre!
- Sport e Timão pra sempre!
1 de Novembro de 2008 04:52


Para quem ja se conhece, faz e desfaz, fica facil identificar-se pelo time de coracao. Sem desmerecer o alvinegro sagrado da farda e flamula do Timao, foi foda ser corintiano em 2008, o ano do fundo do poco, a era das incertezas, o pe-na-jaca, o-ano-em-que-aguentamos-piada-ate-de-quem torce-pra-Portuguesa - quase um fusca lotado.

Em 1989, na primeira eleicao presidencial depois dos coturnos, perdemos para o grande vazio de Alagoas, Collor e corja. E a cidade de Sao Paulo, reduto primal do petismo nacional, foi preponderante para que Nandinho vencesse. Logo na posse, porem, houve o confisco das contas correntes e das poupancas e como efeito de anti-midia e never-fiz-isso, onde estavam os colloridos? O grande sumico dessa massa tambem aconteceu no impichamento do Homem, todos desapareceram, todos viraram defensores da austeridade brasiliense, ninguem votara em Fernando Collor de Mello para presidente.

Eu vi alguns corintianos guardarem suas camisas no fundo da gaveta, negarem e esconderem suas cores, sacrificarem seus ritos cabalisticos por medo da Inquisicao dos bobocas do Morumbi e dos babacas da Lapa. Sem querer justificar, a minha sempre esteve la, so a visto em vitoria de final de campeonato ou em ascencao a primeira divisao.

A gente fica meio puto. Queria ter falado mais do Timao aqui no blog ou nas ruas. Mas nao deu. No final das contas a gente acabava aguentando jocosidades alheias, se defendendo. Mas acabou. Por isso a surpresa do Tarcio com as cores do meu coracao. Fiquei na moita. Mas acabou.

Todo Poderoso

Obrigado aos torcedores rivais pelas piadas em 2008. Nada melhor que isso para indicar a saudade que deixamos em todos voces. Voltamos para a primeira divisao para encher seus sacos, estadios e cofres.
E', ainda nao temos o nosso proprio estadio. Pra que? A gente usa os seus e nem precisa fazer faxina.

Chora, burguesia, o Timao voltou!

Deixa-quieto

Na paz social fica claro que a convivencia humana passa pelo filtro do deixa-quieto.
O deixa-quieto e' a condicao inteligente e aprazivel que o homem ocidental escolheu para viver em formigueiro, colmeia, favela, cidade, vila, pensao. elevador, toldo de loja.

Se um porco obceno (a) soltar um pum no elevador e aquilo criar uma forma invisivel e quase tactil, deixa-quieto. Qualquer movimento brusco de avanco e ataque ao pescoco do porco obceno (a) pode gerar uma lufada brusca de ar que vai transformar a forma invisivel num pequeno e perigoso tufao interno no elevador, espalhando a obcenidade de tal maneira que pode grudar na roupa por horas.

Mendigos bebados e putrefatos, meninos e meninas podres, drogados e fedorentos, lixo nas ruas: deixa-quieto. Desvie o caminho e o olhar. Ha sempre uma vitrine interessante, um passaro num rasante ou alguem da sua cor e raca e genero para olhar e ate convidar prum suquinho de laranja naquele buteco.

Voce sai de casa na estiada dessa chuva que cai desde a madrugada. Chuvona, canivete, sapo, cuspe de anjo, mijo de deus. Resolve ir ate ali na esquina so pra comprar uma lata de leite condensado pra fazer aquela porcaria de pudim. Dez metros da sua casa, passa um escroto num carro e joga agua em voce.
Deixa-quieto, mermao. So olha bem pro carro e pense positivo, bem positivo, materialize um pensamento direcionado pro inimigo e venca a batalha. Sim, ele porrou o poste depois daquela curva.

Dia comum de trabalho, nada a mais ou a menos. Mas o chefe - cujo ego rejubila-se por essa merda de trampo - resolve te usar de cobaia na deliciosa experiencia de capacho. Deixa-quieto, claro!
Mas some com aquele corretor de texto da gaveta dele, vai ate o wc masculino e escreve o numero da casa dele com a tintinha e desenha uma bunda embaixo.
Escreveu? Viu como a vida pode ser uma rede e uma batida de maracuja?

O deixa-quieto tambem funciona se sua auto-estima estiver em baixa, tao infeliz e analfabeta quanto o prefacio de um auto-ajuda.
Se voce estiver se sentindo um bosta, acredite, uma mosquinha, pelo menos uma, vira te beijar.
E ame e aproveite o momento, nao sera o ultimo, mas sempre e' unico.

(Segundo o brother Fabiano Tapioca, de Americana-SP, aqui no Japao nenhum sorvete exotico tem o gosto do produto exotico que leva o nome. Ou seja, o de batata-doce, no post la embaixo, nao tem nada de batata-doce. Pode ser doce, mas nao e' batata).

Homem Primata, Capitalismo Selvagem (porque eu digo nao e eles sim)

Cheio de nove horas, titulos longos e revolucoes constantes desde hoje porque assisti Antonio das Mortes de Glauber. E como sempre, aplaudi um filme chato-arrastado. Assisto Glauber pra me punir de mim mesmo, da minha burrice, talvez.
Eu acho a obra de Glauber um saco. Por isso eu sou burro. Todo mundo ve um cinismo de genialidade naquele monte de discurso datado e stalinista-conservador. Glauber filmava o futuro porque fazia um filme como se escrevesse um blogue, tudo ao redor de seu umbigo baiano urbano. E mentiroso, cantando (cinicamente) o feio do sertao. Aplaudo Glauber por sua tremenda cara de pau. Morta, mas constante.
Eu gostaria de escrever um blogue como se fizesse um filme. Talvez saisse melhor que a camera na mao e uma ideia na cabeca. Ordem e Progresso, veni vidi vinci, in hoc signo vinci. Frases de ontem e macos de cigarros. Bu!
O big-brother das tomadas na parede sao as verdadeiras cameras-ocultas em busca de nossas fragilidades. O liquidificador, o barbeador eletrico, abajur e serra tico-tico nos vigiam deflagrando a grande conspiracao eletrica pela estetica e prazer pessoal.
A foto que estampa esse bla-bla-bla representa meu cotidiano. Eu sou um dos jacares do meio e nao quero ser nenhum. O grande jacare-cabecudo nao entende que eu nao faco parte desse fauna e nao represento um grupo, uma faccao ou tao somente-eu-mesmo nessa hierarquia burra. Nunca acreditei em heraldica e poderes e responsabilidades sob normas.
Acredito em 3 repteis: Minha tartaruga Tata; a Clara Crocodilo de Arrigo Barnabe e o jacare dos Piratas do Tiete. O resto e' dog eat dog, mermao.

Fotos que eu gosto de bater

Sim senhor! Sorvete de batata-doce. Nao, melei a mao num de manga. Arrisco, sempre que posso e ate curto essas exotices locais, mas nao petisco tanto assim.

Ruy Ohtake e Gaudi


La em cimao, Ruy Ohtake. Abaixo, a Sagrada Familia, de Gaudi.

Em toda cidade que passeio a pe, nos centros, rente aos predios, arranha-ceus ou nao, gosto de olhar pra cima, ver o quanto aquele teto toca o ceu. O contraste entre o etereo e o telurico no meio da arteria urbana, concretao, latex e massa corrida. A arquitetura me fascina por causa do conceito simples e basico que e' viver numa obra de arte idealizada estetica e eticamente entre o arquiteto e o morador. A praticidade e a estetica num conceito unico, a sua casa, o lar. Isso e' fascinante. Ha muitos anos um grande amigo e artista plastico me mostrou Gaudi e infelizmente - para ele - nao gostei e ainda nao gosto e acho que nunca vou gostar.
Estava partindo de Madrid para Paris numa tour mochileira pela Europa e Gaudi me foi altamente recomendado por Fernando Cea na visita a Barcelona. La, fui ao Sagrada Familia, uma imensa catedral, a grande obra de Gaudi e me decepcionei. Nunca vi coisa mais feia, hedionda e pavorosa, porem tao cultuada. Na volta a Madrid, ele me perguntou o que eu achei da catedral.
- Um intestino virado do avesso.
Foi um choque, uma blasfemia, quase uma ofensa.
Ja Ruy Ohtake foi uma surpresa dentro da surpresa. Nao sei porque estava andando sozinho no Itaim, por ali. Acho que tinha saido da casa do Glad - que nessa epoca morava quase na beira do Ibira - ou estava perdido mesmo. E no meio de tantos predios residenciais, estava olhando para cima ate que encontrei o predio da primeira foto, essa obra-prima de Ruy Ohtake. Fiquei la de baixo olhando todas aquelas ondas e elas dancavam sob as nuvens. Varios minutos. Atravessei a rua, fiquei bem de baixo, um pouco mais afastado, de lado, namorei a obra de todas as formas. Nem sabia que era do cara. O grande insight foi ver a arte sendo usada apenas para morar dentro. O bale dos balcoes dos terracos num equilibrio de formas e ousadia. Um tesao.
O porteiro saiu e perguntou o que eu queria. Nada, so olhar. Nao pode. Claro que pode, isso e' lindo, foi feito pra olhar. Nao, nao pode. Tentei argumentar, conquistar dizendo olha que predio maravilhoso, voce trabalha num lugar maravilhoso. Nao pode, os proprietarios vao reclamar, e' melhor circular, japones. Cara ignorante, mula energumena, caga-osso. Dei uma ultima olhada e quase mandei um beijo.
Anos depois fiquei sabendo que era do Ruy Ohtake e aplaudi mais uma vez, quase um bis da sensacao daquele dia.
Ontem eu estava jogando conversa fora com o Fabio - que e' arquiteto - e citei esse predio. Ele me disse que e' da fase antiga do Ruy e que tambem concorda que o bagulho e' do balacobaco.
O Ruy, nessa atual nova fase, corta uma melancia gigante e bota um hotel dentro. Ja nao me inspira tanto.

Insone II

A insonia ja e' uma perna, nao tem como arranca-la, viver sem as excursoes ao banheiro pela madrugada, o copo d'agua, a conferida na Tata, na porta de entrada, na garagem, nos carros.

E a ciencia empirica, senhores.
Ela esta la, naquele voo silencioso e flutuante, um colibri da sacarose.

Mosquinha de banana tambem nao dorme!

Da infancia me lembro que as formigas em Peruibe dormiam. Eram umas sauvas vermelhas que atravessavam o terreno em frente e brilhavam quietas forradas de orvalho matinal. Bastava cutucar uma, so uma e a fila toda andava constrangida dessa estranha greve beiramar .

Chefes, o que sao essas esquisitices anti-darwin?

Fio, acredite, essa gente toda envolvida em planos mirabolantes para salvar empresas e dizer que sao seus amigos, na verdade sao as sauvas vermelhas do seu jardim. Cuidado, na hierarquia do mundo onde Tom Jobim, Emily Dickinson e Joan Miro estao proximos do topo, chefes nao constam. Nem cozinheiros de raspa-burguesia.

5:10 e friozim.

Dom Michael Corleone

Antes

Depois

"O Poderoso Chefão" restaurado ganha duas sessões na Mostra de SP

Recentemente, a trilogia "O Poderoso Chefão", de Francis Coppola, com Al Pacino protagonizando os três segmentos da saga, passou por uma extensa restauração, que incluiu até correções de cor e exposição na magnífica fotografia de Gordon Willis. O resultado pode ser visto na caixa "O Poderoso Chefão - The Coppola Restoration", com um disco recheado de extras que explicam todo o processo pelo qual os três filmes passaram.E agora também poderá ser visto na 32ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, que vai exibir uma cópia em película restaurada do primeiro filme. O público paulistano será privilegiado: serão duas sessões, uma a mais do que no Festival do Rio. A sala escolhida, a princípio, será o Cinesesc, na rua Augusta, zona oeste da cidade. As datas ainda serão definidas. No entanto, a organização aponta para os primeiros dias da programação."O Poderoso Chefão" não só elevou Francis Coppola à categoria de mestre. A saga impulsinou as carreiras dos principais artistas envolvidos na sua realização. E transformou para sempre o gênero do filme de gângster, criando um culto em torno de tudo que girava em torno da máfia ítalo-americana e da família Corleone. Mas não é só isso. Coppola dá uma aula de narração clássica como jamais se viu depois na história do cinema americano. De todos os filmes de sua carreira, este é um dos que exige a tela grande.

Insone

A insonia e' uma mula-sem-cerebro. E' a grande sacanagem do stress, da vertigem burguesa por uma vida melhorzinha. Na insonia esta o segredo da vida idiota do conto do vigario do bom salario, do sofa confortavel, do espetaculo das intemperies do lado de fora da janela. E chove a cantaros, baldes, sensacoes.
Pra quem costuma dormir todas as boas horas de uma noite, a pessoa que sofre de insonia e' uma praga estranha a ser desvendada.
A grande pergunta e' o que se passa na cabeca desse solitario amante da escuridao dos zumbis?
O que sobra da escuridao e do zumbi e' a solidao, meu caro dorminhoco. E nela esta a formula para tentar voltar a dormir depois de sentir-se um bife e virar de um lado a outro da cama-frigideira. As quatro paginas do livro de nada valeram, nem o gibi, o Laerte, Asterix ou Mafalda. E chega de Maracugina ou camomila.
Eu sei o motivo da minha insonia. Essa e' a pior parte porque o que me resta e' tentar salvar um pouco da humanidade daqueles escrotos que trabalham comigo enquanto estou acordadao no vespertino e proletario horario dos vivos.
No fundo, no cerne do fundo do meu indelevel umbigo, eu quero que todos eles vao se fuder. E que me abandonem na escuridao e me deixem bocejar em paz como um cachorro feliz na varanda.
Em tempo, sao 3:46 da madruga e correndo.

Fernando Gabeira - 43


Eu nao voto em ninguem. Nao por essa rebeldia anarquica pos-tudo, nem pela inconsequente falta de opcao politica para administrar a cidade, o estado, a nacao. Nao voto porque nao moro no Brasil.
Em Sao Paulo meu voto seria uma ausencia e todas as explicacoes posteriores no tribunal eleitoral. A opcao e' melhor que a obrigacao, a minha democracia do coracao quer assim. O voto obrigatorio e' a maior arbitrariedade que criaram desde que mamae Medici amamentou seu futuro generalzinho, isso ha quase um seculo pro tosco ficar adultao e dar em encrenca no auge da ditadura militar.
Mas isso e' historia. Eleicao tambem. Todas. Pelo menos e' o que a nossa eterna esperanca aguarda a cada teclada na maquininha.
Por isso, Gabeira no Rio e nada mais. A cidade do Rio de Janeiro precisa dele. Nao e' porque ele e' honesto ou correto, pai de familia, bom vizinho e reciclador de lixo. E' so porque ele e' um pedaco muito bacana do Brasil.
Entao, gente boa do Rio, Fernando Gabeira pra prefeito. ele e' 43.
Hoje no Rio, amanha no Brasil. A gente merece.

PS. Aproveita o domingao, passa numa livraria e leia Gabeira. Pode ser aqui tambem.

Um filme patati patata com La Bellucci

Vi um filme com La Bellucci e ela foi estuprada no meio da pelicula por um cafetao gay. Nao, ela nao trabalhava pro cara.
A cena ate ficou tecnicamente boa, mas de um mal gosto, mal agouro, sem tesao.
La Bellucci nao merece uma merda dessa no curriculo. Nem no curriculo curriculo.

Tem La Bellucci no Matrix e ela muda tudo com sua presenca incontestavel e magnetica.

Pensei num argumento para um roteiro de um curta.

Um cara muito comum casa com La Bellucci. Nao com uma personagem de La Bellucci, mas a propria. Casa linda, modernosa, requinte para ir do terraco ao lavabo, saca? Rua larga, pouca iluminacao. Lua-de-mel num iate nas cidades costeiras no Mediterraneo, sul da Espanha, da Franca, Italia e Grecia. Y la Bellucci todos los dias, maio biquini, nua, vestidos, sarongues e oculos escuros. Dezenas.
Voltam para casa.
O cara pendura um poster em tamanho natural de Monica Bellucci na parede do quarto, moldura folheada a ouro, de frente para a cama, local nobre.
Expulsa La Bellucci do quarto, diz que ela nunca mais vai entrar ali, que ela e' Made in China, dumping, falsificada, canalha.
Fim.