Reveillon com Tarantino

Daqui a 3 horas será o dia primeiro de janeiro e eu to aqui em cima lendo o roteiro do Pulp Fiction enquanto a família está lá embaixo vendo o Kohaku Uta Gassen.
O Kohaku é uma festa musical que acontece no dia 31 de dezembro e é transmitida ao vivo pela NHK. É uma disputa entre o time vermelho e branco (as cores da bandeira japonesa).
Invariavelmente, os homens vestem paletós de lantejoulas e as mulheres, vestidos de lantejoulas.
A Susan Boyle foi a convidada deste ano. Cantou "I Dreamed A Dream" num vestido preto de lantejoulas. Me chamaram, desci, vi e subi.
Espero que a minha solitária leitura esteja explicada.

Fotos que eu gosto de bater

Esse restaurante é um pé-sujo de umas tiazinhas lá de Hamakita que faz um Yakiniku Teishoku dos deuses.
Passou a servir cafezinho grátis depois que alguns brasileiros começaram a se deliciar por lá.

Faz de Conta

Faz de conta que essa canção foi feita
só porque teus olhos brilharam no contra luz
de um por do sol de domingo.

Faz de conta e será assim.

Faz de conta que o mundo não é sério,
ninguém é sério e nada do que é
e está cinza ao teu redor existe
– e é verde o asfalto da tua rua.

Faz de conta que é minha a lua e não é turva.
Faz de conta uma porção
e mais outra e mais outra muito mais.
Só não espalha que tudo isso é um faz de conta
porque vão chegar mais perto
e dizer que é de verdade.

Deus dos gagás


A ultraconservadora Igreja Batista de Westboro, Kansas, EUA, declarou que deus odeia Lady GaGa e que ela vai para o inferno.

A minha sobrinha de seis anos é fã incondicional da cantora, então eu odeio a igreja e o deus que odeia a Lady GaGa e amo a minha sobrinha.
Quanto a Lady GaGa, tudo pode mudar. Na idade da minha sobrinha, eu era fã da Martinha e do Toppo Giggio.

É dificil

Hoje falei pruma pa de gente que a Brittany Murphy tinha morrido.
Ninguém sabia quem era a mina.
É fodinski, como diriam em Varsovia.

Hoje o Kiem me perguntou se dezembro tem 30 ou 31 dias.
Trinta e um, eu disse.
Depois caiu a ficha e falei que a vida toda o ano novo era do dia 31 de dezembro para o dia 1º de janeiro.
Ele respondeu só se for pra você, pra mim, ano novo é em fevereiro.
Pode crer, os vietnamitas tem transas chinesas milenares.

Conexões Friorentas

Frio de rachar. Literalmente. Não sei bem o que se racha no frio. Tem gente que racha os lábios. Como aqui na região não neva, mas gela, as poças d’água endurecem formando um mini lago de patinação para insetos fulgazes. Nunca vi nenhum patinando, mas sempre imagino.
Também imagino as formigas enfiadas no buraco, jogando baralho, lareira acesa, comida farta, tirando sarro das cigarras. Formigas são muito pragmáticas, não é muito bom ser comparado com formigas. Formações e paradas militares nos fazem lembrar esse tipo de gente.

Na Venezuela o frio nunca é de rachar porque é um país tropical. Mas têm lá seus militares, paramilitares, supramilitares, fardados para todos os gostos e desgostos. Sempre haverá uma nação latino americana com tais angustias. É assim que o continente funciona, feito as formigas num buraco, ficam lá falando mal das cigarras, democráticas e barulhentas.
Na Itália, o premier Berlusconi tomou um murro na cara e devia estar um frio de rachar na praça em Milano.
No Brasil, que tá um calor de rachar, o governador do DF fatura uma grana preta criminosamente e tudo bem.
Cara de pau não racha, mas toma tabefe.

Mas o frio tá de rachar. Não saio de casa nem pra pensar em voltar pra casa. Me chamam de urso por causa desse meu conceito humano de hibernação. Sair de casa nesse frio é desnecessário. É por isso que prefiro o inverno ao verão, porque dá pra ficar em casa sem se preocupar em ser ou não ser anti-social.
Dá pra ouvir disco de jazz sem passarinho improvisando junto. Tirando um tico-tico japonês que fica em grupo nos fios, um grudado no outro, não tem muita asa batendo por aí nesses dias gelados. Nem os corvos crocitam (gritam) tanto nesses dias de frízer.
Faz algumas horas que estou ensaiando para sair e ir abastecer o carro no posto. Poderia ir à segunda, mas é um self service, nos finais de semana a gasolina é mais barata.

Quando junta na minha cabeça esse frio de rachar com o posto de gasolina, a conexão é direta com os conceitos ecológicos de futuro macabro e o terror antipático que nos fazem acreditar que virá. Não acredito em metade do que dizem e escrevem. Desde o final dos anos 70 a gasolina esta para acabar e o mundo também. Antes disso, sempre, haverá uma solução. E entre uma solução e outra, uma guerra medonha e lucrativa.
Que me importa se o urso polar é canibal* enquanto crianças afegãs brincam de esconde-esconde em escombros de tanques fedendo a carniça ianque?

* Sempre foi. Agora tudo é culpa do aquecimento global.

Faxineiros são mais valiosos para a sociedade do que banqueiros, diz estudo

Pessoas que trabalham fazendo faxina em hospitais têm mais valor para a sociedade do que os funcionários de alto escalão de um banco, concluiu um estudo britânico.
A pesquisa, feita pelo instituto de pesquisas New Economics Foundation, concluiu que o faxineiro de um hospital gera cerca de R$ 30 de valor para cada R$ 3 que recebe.
Já o funcionário do banco (aquele com salário anual a partir de RS$ 1,5 milhão) é um peso para a sociedade por conta dos danos que a categoria causou para a economia global, diz o estudo.
Os especialistas envolvidos no trabalho calculam que este trabalhador destrói cerca de R$ 21 para cada R$ 3 que ganham.

Recomendações
Altos executivos de agências de publicidade, por outro lado, "criam estresse", porque são responsáveis por campanhas que geram insatisfação e infelicidade, além de encorajar consumo excessivo.
E contadores prejudicam o país ao criar esquemas para diminuir a quantidade de dinheiro disponível para o governo, diz a pesquisa.
Já os profissionais em atividades como cuidar de crianças ou reciclar lixo estão fazendo trabalhos que geram riqueza para o país.
A equipe da New Economics Foundation usou uma nova fórmula para avaliar diferentes profissões e calcular a contribuição total que cada uma oferece à sociedade, incluindo, pela primeira vez, seu impacto sobre a comunidade e o meio ambiente.
A porta-voz da fundação, Eilis Lawlor, disse: "Faixas salariais com frequência não refletem o valor real que está sendo gerado. Enquanto sociedades, precisamos de uma estrutura de pagamentos que recompense os trabalhos que geram mais benefícios para a sociedade, não aqueles que geram lucro às custas da sociedade e do meio ambiente".
"Deveria haver uma relação entre o que recebemos e o valor que o nosso trabalho gera para a sociedade. Encontramos uma forma de calcular isso", completa.
O estudo da New Economics Foundation também faz recomendações para uma política de maior alinhamento dos salários com o valor do trabalho.

Martin Shankleman
Da BBC News

A turma da camisa negra

Quando um governo democrático tem a cara e encarna seu líder, a democracia balança.
Quando um governo toma um murro na cara e começa a estapear o povo e doer na cara da Constituição, a democracia treme.
Quando todas as caras que estão ao redor espelham e te fazem enxergar torquemadas, goebbels, fleurys e pinochets, a democracia perdeu a cara e a coragem.

Já estive lá e é um dos paises mais belos do mundo, os homens, as mulheres, as coisas, os lugares. Bons vinhos, excelentes queijos, carnes, massas dadivosas e celestiais, museus, construções, historia, escritores, artistas, futebol.
O melhor da Itália ainda esta por vir.

Quem não curte cheiro de livro novo?

Depois da decepção pelo fechamento da livraria virtual que nos servia aqui no Japão, descobri outra e comprei essa maravilha ai em cima.
Três yeahs para a Kyodai Books!

YEAH YEAH YEAH!

Já chegou, já cheirei o livro todo e to refastelado na página 38.
Mais yeahs!

Caos e Progresso


Já tentei administrar a minha semana estabelecendo dias e horários para aproveitar melhor todos recursos possíveis, como um quadro curricular, uma agenda.
Recurso é o que eu chamo de estudar e isso implica basicamente em ler e escrever.
O que eu queria era ler sempre as mesmas coisas nas segundas, não ler nada nas terças e assim por diante. Idem a escrita, seja um texto, um Los Day by Day ou a peça de teatro que parece que nunca vai sair da vigésima e eterna página.
A ordem mudaria muita coisa e não quero mudar nada, quanto mais muita coisa. Caminho no caos. Eu sei disso porque jamais escreveria isso aqui numa quinta-feira. Também não posso dizer isso. Só posso dizer que o que escrevo é fruto do momento e ele abrange o passado. O passado é o que move a idéia, mesmo as futuristas.
Nada mais antigo que um vidente prevendo o futuro.
E já me basta o fato de acordar todos os dias sob a ordem militar do despertador e seguir rumo cotidianamente, da simplicidade de sair da cama e assumir um lugar em pé na sociedade.
A sociedade admira quem passa muito tempo em pé. Mesmo que for sentado.
A sociedade se ordena em nomes, posições, quarteirões, marcas, velocidades, pesos. Todos estão em algum lugar ou catálogo. Mesmo que este computador contenha pastas e o próprio blog contenha arquivos que se alinham cronologicamente, acima de tudo – e abaixo – impera o caos e sua deliciosa satisfação aleatória.
Um dos motivos de continuar escrevendo é justamente tentar continuamente estabelecer a tal ordem, mesmo que seja interna e imaginária.
Três da tarde, sábado e eu estou com sono. Nada me impede. A ordem me impediria.
Então, a gente se vê depois que eu acordar.

Livro é luxo – ou lixo – o que dá na mesma

Neste feriado de fim de ano, íamos para Hiroshima. Mas fazendo as contas grana/tempo/carro ou grana/tempo/trem-comum ou grana/tempo/trem bala e ainda considerando a estadia num youth albergue e rango, o melhor mesmo é ficar ao redor dos 250 km de casa e ficar indo e voltando. As opções são boas, ir até a província de Fukui ken, que fica na costa japonesa voltada para o continente asiático e depois ir ate Gotenba, perto do Monte Fuji. Turistada de bate-e-pronto, almoçar por lá, curtir e voltar pro sweet sofá.
Com a grana que sobrou da aventura Hiroshima, pensei em comprar alguns livros.
Liguei o pc atrás daquela livraria virtual japonesa, ligada a uma grande editora nipo-brasileira que publica um jornal semanal e uma revista quinzenal.
Nada consta, diz o link para o site onde desativaram os serviços por tempo indeterminado.
Eles tinham bons títulos e não só a lista da Veja ou coisas de auto-ajuda ou kardecismo de balcão. Tinham, por exemplo, todos os livros do Chico Buarque ou dois ou tres do Loyola, alguma coisa do Nabokov, Mario Prata, Machados, Clarisses e muito mais.
Mas aconteceu a crise financeira e com ela desativaram a livraria. Não fiquei surpreso, só chateado. E não com os donos da livraria, mas com a maioria da clientela brasileira que não lê nada e conseqüentemente, não compra nada. A livraria andava as moscas, mesmo nos tempos das vacas gordas.
Era inevitável que demitissem a pessoa que recebia os pedidos e fazia os tramites de compra e transporte do Brasil para cá e para a casa do leitor.
Ontem estive com um amigo que é dono de um mercado brasileiro que vende carne australiana. Toda a carne vendida nos mercados brasileira é de origem australiana. Quando cheguei lá, ele estava no balcão conversando com o distribuidor japonês que estava dizendo que a importadora não tem carne. Nem carne, nem panis, nem livros, nem circenses. Nem nada.
Assim que o japonês se despediu, ele me confidenciou que iria faltar carne. Já estão me faltando os parágrafos, pensei.
O que ainda me salva são os 40 quilos de livros que eu trouxe da recente passagem pelo Brasil. A companhia aérea me deu o direito de carregar duas malas de 32 quilos. Eu não ia trazer mortadela ou salaminho, a não ser que fosse o gibi de Ibanez, o Mortadelo & Salaminho.
Ainda devo ter uns 15 quilos para consumir. A densidade é relativa. Tem um Santo Agostinho que é fininho assim, mas pesa tanto quanto o Boeing que me trouxe. E paradoxalmente, me faz voar.
Quanto à carne, faz tempo que não como um bife. Não por causa do importador da Austrália, mas por opção.
O que a maioria das pessoas não sabem é que um livro é mais saboroso que um bife. E não engorda.
O problema é que diante de algumas situações, cortam-se as letras, os salários dos professores, as pernas das carteiras escolares. Na cidade de São Paulo, quase cortaram a merenda escolar do orçamento.
Para ilustrar a situação e dar um desfecho dramático, senão trágico, na semana passada, lá onde trabalho, chegaram oito pianos de cauda usados, da Yamaha, para serem lustrados, afinados e embalados para as oito escolas públicas japonesas que os receberão na próxima semana. Escolas públicas, eu disse.

Los day by day

Na Vila Madalena os donos dos bares começaram uma campanha para os clientes não jogarem bituca no chão da rua.
Em Tokyo, Yokohama, Hamamatsu e várias outras cidades japonesas, é proibido fumar na rua, caminhando ou parado. Há locais próprios para fumantes. Eu acho.
O carro da Nanci, um Suzuki-2006, já veio de fábrica, originalmente, sem nenhum cinzeiro, na frente ou atrás.
O meu, que é mais velho e ainda tem cinzeiro, virou porta-moedas.
Ela e eu paramos de fumar no dia 10 de novembro de 2006, num sábado, inesquecivel.
Ate hoje sinto vontade.
Já sonhei que estava comprando, fumando, tragando, sentindo a nicotina na cabeça.
O pior de tudo é que eu não sabia que eu fedia tanto.

Famílias

Uma mulher queixava-se dos silêncios
Do amante, do marido e do filho.

Aos gritos queixava-se.

Uma mulher exibia sua insatisfação
Aos quatro ventos
Aos quintos dos infernos
Ao sexto sentido.

Mais longa - e louca - a historia seria
Se ela se queixasse dos silêncios
Do amante do marido do filho.

Quentin Tarantino:

- Arrivederci!
- River dirt.

(Inglourious Basterds, cena de cinema no cinema ou cena do cinema no cinema)

Fugu é fogo


Onze pessoas em Nato, na provincial de Toyama, foram intoxicadas com um prato de sashimi de fugu, o nosso baiacu.
O baiacu exala uma toxina poderosa que pode matar em 6 horas se a pessoa infectada não tiver cuidados médicos a tempo.
Nem todos sushiya san tem o certificado que o habilita a cortar a iguaria, que dizem, ser dos céus. O que parece, o peixinho pode levá-lo rapidinho para lá.
Sashimi de salmão e atum ainda são inofensivos.
Mesmo que o sushiya san tenha tal certificado, evite. É uma roleta russa, é como pegar carona num caminhão carregado de dinamite numa estrada trepidante e o motorista está fumando charuto.

Bastões de algodão

Tomar banho. A vida resume-se a tomar um banho.
Acordar, levantar, sair de casa,
passar o dia inteiro fora de casa e voltar.
Na volta, tudo melhora depois do banho e
todos os elementos do banho,
os vapores, cheiros, cores.

Água passando pelo corpo.
A vida melhora depois do banho.

Mas nada disso teria importância se não fossem os cotonetes.
Cutucar a zoreba com os bastões
são o clímax de um dia vivido para os outros,
as responsabilidades alheias,
indecisões, satisfações, melhorias.

Os cotonetes são um dos grandes ícones da vida pós-industrial.

Circulo vicioso (sobre um outro teto, claro) e impunes

Shoppings centers desabam porque estão podres.
Estão podres porque foram feitos com material de terceira categoria.
O material é de terceira porque faturam no orçamento escrevendo um preço e comprando noutro.
Compram noutros números porque os empresários se permitem, se permutam e se consideram.
Se consideram porque há esse corporativismo insensato de ternos, gravatas e camisas de boa seda.
Tudo mal vendido e bem comprado nos shopping centers.

(Falando sobre o SP Market - que novidade! - desabou)

Coelhice

Entrei numas de salada antes das refeições para ver se como menos e emagreço.
Hoje é o segundo dia praticando essa maluquice.
Segundo dia e já to me sentindo um coelho.

Crianças Mudas Telepáticas


Acabo de assistir na NHK um documentário sobre um urbanista que fez maquetes 3D da cidade de Hiroshima e faz palestras para estudantes com elas.
São várias maquetes históricas, desde 1840 ate o dia 5 de agosto de 1945, um dia antes da bomba e no dia 7 de agosto, um dia depois.
Ele tinha três anos de idade na ocasião e estava na casa dos avós que era num sítio a 50 quilômetros de distancia de Hiroshima enquanto seus pais procuravam emprego na cidade.
O meu problema com documentários na tv japonesa é que presto tanta atenção no texto para tentar decifrar algumas palavras e citações que acabo esquecendo o nome das pessoas. E sempre penso, na próxima anoto alguma coisa. Nunca mais vou saber ou lembrar o nome desse urbanista.
O fato de vermos as maquetes e observarmos o desenvolvimento da cidade nos 100 anos anteriores à bomba é muito mais comovente. Todos sempre pensam nas fotos em preto e branco pos-devastação, na Rosa de Hiroshima do poema de Vinicius ou nas pessoas mutiladas, mortas, inexatas.
O fato de ser uma cidade portuária, o desenvolvimento cultural da cidade era grande. No fim do século 19, com a reforma Meiji, vários navios estrangeiros traziam novidades para esse grande porto ao sudoeste do Japão. Muitas pessoas queriam aprender inglês e holandês para terem mais contato com os gaijins dos grandes vapores cheios de novidades, desde na vestimenta e alimentos às maravilhosas máquinas de teares que encantavam os promissores ex-senhores feudais que buscavam uma nova forma de enriquecerem na nova sociedade capitalista e burguesa que surgia.
Nas maquetes mostradas, aparecem desde onde foram instalados os primeiros semáforos ate onde aconteceram os primeiros engarrafamentos de transito com, pasmem, dez ou quinze automóveis, pois aos domingos, os ricos iam ao centro para tomarem a grande maravilha do ocidente: o sorvete.
Em 1914 construíram o que é hoje o Genbaku Dome (foto) ou A Cúpula da Bomba Atômica que estava 150 metros de onde foi o hipocentro da explosão. Foi originalmente construído para a “Exposição Comercial da Prefeitura de Hiroshima”, celebrando justamente a absorção cultural do antigo império feudalista por novos valores burgueses da revolução industrial emergente na Europa. Seria um símbolo para o encontro entre o ocidente e o oriente no esperançoso inicio do século 20.
Ironicamente manteve-se em pé com a explosão e virou um monumento de esperança para a paz mundial e a eliminação total de todas as armas nucleares.
Aproveitaram a visita do presidente Obama a Tokyo para transmitirem tal documentário pelo fato de que ele disse que faria todos esforços para eliminar as milhares de ogivas nucleares pelo mundo.
Além de palestras com suas maquetes históricas, o urbanista também entrevista os últimos sobreviventes de 1945. Todos são os derradeiros de suas famílias, os únicos. Quase todos ainda carregam as mazelas radioativas, muitos são senhores e senhoras, pessoas solitárias que não tiveram famílias, esposos e filhos por acharem que poderiam passar seus males para as próximas gerações e não queriam que o sofrimento continuasse. Todos choram durante as entrevistas, o urbanista, os entrevistados, produtores. A idéia era mandar a fita para o presidente americano. Nada mais oportuno, o atual tem um Nobel da Paz por antecipação.
O homem mais poderoso do mundo há que fazer muito pra tal merecimento. Pode iniciar tudo apenas assistindo aos depoimentos munido de pipoca, lenço de papel e caneta para assinar alguns decretos para honrarmos com tranqüilidade o futuro da humanidade.

Piano

Richard Clayderman em estado de graça.

27 Pianos usados da Yamaha comprados em Hong Kong trazidos para o Japão recebendo uma garibada federal de um brasileiro que gosta de jazz dos anos 50, um japonês que toca guitarra base numa banda de musica havaiana e outro japonês que morou 17 anos em Londres. Tem os vietnamitas que estão noutra.
27 pianos usados da Yamaha que vão para uma loja em Toronto cujo dono é sino-americano e fala inglês fazendo biquinho como se falasse francês.

Um piano branco novo da Apollo Piano que vai para algum lugar em Beijing.
Eu detesto piano branco, me dá a sensação de papel em branco, vazio, nada, cérebro em branco, oco, vácuo. 
O som não se propaga no vácuo.
Fica no ar uma sensação meio Richard Clayderman com show sertanejo chique.

Muito pior foi ontem que tive uma overdose rúbia com um piano vermelhaço da Kawai.

E então pensei:
- Mas quem vai para um motel tocar piano?
- Richard & Clayderman, os sertanejos chiques, pedrobó. 

King Kong de apostila e o mico acadêmico

Não sou ecológico como deveria ser, mas fico indignado diante de barbáries que acontecem em zoológicos com jaulas imundas e pequenas demais para a vida (sobrevida?) de alguns animais lá instalados.
Elefantes que vivem em florestas indianas pra lá e pra cá, nômades, gordos e felizes, ganham um espaço menor que um campo de futebol. Claro que é para facilitar a quem pagou o ingresso para ir visitá-los.
Mas sou ecológico o suficiente para não jogar nada, nem cuspir chiclete pela janela do carro e para selecionar o lixo daqui de casa.
Lembro do filme “Medicine Man” (1992), com Sean Connery. Ele faz o papel de um cientista que se embrenha no meio da floresta amazônica e fez a descoberta do câncer. Qualquer câncer. O problema é que ele não consegue reproduzir em laboratório a química da tal flor que só cresce a trinta metros do solo no topo de uma especifica arvore. Depois ele descobre que o importante mesmo não é a flor, mas o inseto que mora no interior dela. Então, chega um pecuarista e bota fogo em tudo. Correm ele, sua assistente e a tribo toda para o meio do imensamente tudo atrás de outra especifica arvore com a mesma flor e o tal insetinho cujo cocô freia as células mutantes do nosso corpo.
Fico pensando nos gorilas e orangotangos que morrem para perder apenas as mãos por serem iguarias caras no prato de gente muito, mas muito esquisita e com gosto duvidoso com uma travessa contendo uma mão de gorila e algumas batatas assadas ao redor. Molho madeira. Ou os tigres que morrem na China para que moam o pênis do felino para virar um pó mágico para outros pênis tristes e cabisbaixos que acreditam na milenar medicina chinesa de cobras, ervas, pedras, pênis e insetos em contrapartida a famosa pílula azul.
Pior mesmo é a situação dos bichos nas mãos dos cientistas. Até mesmo dos criadores da famosa pílula azul. Durante os experimentos, alguns macacos devem ter ficado eretos e excitados por horas e um cientista – pervertido – olhando para a jaula com um cronômetro na mão.
Há alguns dias, alguns desses símios com o cérebro na ponta do membro em estudo, escaparam e espalharam-se pelos corredores e salas de uma faculdade de um grande centro urbano e a mídia toda registrou.
Todos os discentes bugios em bandos resfolegaram, ganiram, correram, bateram as mãos no peito e gritaram diante da fêmea alfa que estava apenas mais fêmea que nos outros dias. Há o registro de um deles subindo pelas paredes.
Todo mundo sabe disso, assistiu, discutiu, opinou, riu.
Como é mais fácil lidar com a perda de uma e não de setecentas mensalidades, a tal faculdade do grande centro urbano resolveu expulsar a moça. Na contabilidade dos cifrões (evidentemente necessários) o pragmatismo impera sem titubeio. Mas na civilidade não.
O exemplo dado pela tal instituição de ensino, cultura e educação ecoa e ecoara pelos corredores locais como os gritos bestiais de alguns exemplares dos podres primatas de uma elite machista masturbatória, individualista e infeliz.
Meu medo é que esse fato estudantil e essa atitude institucional tornem-se corriqueiros e recorrentes, por isso volto dias depois e falo tudo de novo, não por moralismo beato e cristão, mas por defesa da condição humana, pura e simples. Como se, em contrapartida, não bastassem as burcas afegãs ou as metralhadoras vendidas como picolés nas fronteiras do cone sul.
Não foi por receio de retaliações que não citei o nome da faculdade. Mas por nojo.
Também acho que deve ter um monte de gente bacana e bem intencionada por lá. Aproveitem, fim de ano, bom período para transferências.
Olha o currículo...

Los day by day



Ministro Juca Ferreira diz que Brasil vive "apartheid cultural"

O ministro da Cultura, Juca Ferreira, disse hoje que o Brasil vive uma situação "dramática", similar a um "apartheid cultural", e pediu maior apoio financeiro para facilitar o acesso do povo a cinemas, teatros, museus e literatura.
O ministro Juca Ferreira pediu mais apoio financeiro para facilitar o acesso a cinemas
"Nenhum produto cultural chega a 20% da população. Menos de 10% dos brasileiros já entraram em um museu, só 13% vão ao cinema, 17% compram livros e 92% dos municípios não têm nem cinema nem teatro", afirmou Juca Ferreira no programa de rádio "Bom Dia Ministro".
Para o ministro, a cultura em geral é "inacessível para a maioria dos brasileiros" e é preciso um projeto legislativo, que está em trâmite no Congresso, para financiar o consumo das atividades culturais.
"Não poderíamos continuar financiando só a produção sem financiar o consumo (...) A média de despesa em cultura da maioria dos brasileiros não chega a R$ 40 por ano", comentou.
O projeto prevê a criação de um vale mensal de R$ 50 que seria dado aos trabalhadores e que poderia ser trocado em livrarias, lojas de discos, cinemas, teatros e museus.
O funcionamento seria parecido ao vale-refeição que a maioria das empresas dá a seus empregados para que possam comer no horário de trabalho.
Segundo ele, se o projeto for aprovado, o Governo financiará cerca de 70% do vale, o trabalhador fornecerá 10% e a empresa deverá assumir o resto.
Juca Ferreira ressaltou que o chamado vale-cultura repercutirá na qualidade de vida dos trabalhadores e disse confiar que o Congresso o aprove antes do fim do ano.
"Espero que no Natal possamos dar este presente aos trabalhadores (...) porque a cultura é uma necessidade básica como a comida. Não se pode pensar no ser humano sem cultura", concluiu.

Deu na Folha

Viajando na maionese

Anos nessa brancura – e sem pão.
Abro site da Folha e está escrito assim:

Morre aos 100 anos o antropólogo francês Claude Lévi-Strauss

Nunca li nada do homem. Só sabia que ele tinha morado no Brasil, dado aula na USP e que tinha detestado a Baia de Guanabara (segundo Caetano em “O Estrangeiro”), pareceu lhe uma boca banguela.

Pra mim, ele já tinha morrido em algum momento entre a Bossa Nova e a Tropicália, não pela boca banguela, nem por nada, mas pela idéia de passado distante.

Clash anuncia relançamento do álbum "London Calling"


Os integrantes do Clash anunciaram que irão relançar o clássico disco da banda, "London Calling", informou o site especializado em música NME.

O disco, intitulado "30th Anniversary Legacy Edition", chegará às lojas em 14 de dezembro, cinco anos depois do "25th Anniversary Edition" ser lançado.
De acordo com o NME, ainda não foram divulgados detalhes sobre o que o novo disco terá de novidades, mas um pacote reunindo CD e DVD da banda é esperado pelos fãs.
Paralelo ao relançamento, Mick Jones e Topper Headon, antigos integrantes da banda, voltaram ao estúdio juntos depois de 27 anos. A dupla se uniu no mês passado para gravar uma versão de "Jail Guitar Doors", de 1979, que terá seu lucro revertido para uma campanha de reabilitação de presos.

Deu na Folha Online

24 horas num Boeing com escala

Conheci um rapaz que chegou recentemente do Brasil. E pela primeira vez cá no arquipélago, coisa rara depois de 20 anos de imigração.
A maioria dos brasileiros residente aqui no Japão são os que chamamos de veteranos, com mais de cinco anos de residencia.
Alem de seu olhar perplexo com a grande diferença gestual, paisagística, sensorial, era nítido o fato de que nós aqui somos muito relaxados – os veteranos – não no sentido relapso da palavra, mas no sentido de “não tensos”.
Adquirimos isso com a tranquilidade urbana, com a falta de violência gratuita, não só a da bala perdida, mas a violência de existirem crianças circenses no semáforo, as calçadas quebradas, os carros em cima das calçadas, os motoristas loucos, a sujeira da cidade, as doenças dominando bairros através de seringas e drogas destruidoras com o inferno na ponta da molécula.

O individuo brasileiro é o melhor ser humano do mundo. É completo em corpo e alma. Por causa de seu idioma e sotaque, consegue aprender e falar qualquer idioma do mundo. É simpático e educado, caridoso e generoso. Risonho, bem humorado, solícito, simpático, papo bom, inteligente, sagaz e romântico. Sabe jogar bola como ninguém. Tem a poção e o segredo do homem de Nietzsche.
Mas eu não gosto de mim, de você, de todos nós no coletivo. Coletivamente a gente ta se lixando um pro outro. Nós criamos uma sociedade triste que ri por ri e por fora, hipócrita e infeliz que prefere a individualidade – eu também, claro – a criar formas e situações para sei lá, mudar a cara do senado federal, por exemplo.
Ou catar cocô de cachorro na rua. Ou desinventar os elevadores sociais e de serviços. Ou não invadir a faixa de pedestre. Ou não corromper e ser corrompido em um ou milhões de reais.

Conheci um brasileiro tenso em busca de trabalho e felicidade para si e sua família.
Não falei muito, prefiro não falar, interferir. É melhor que ele descubra esse país e se descubra nele por si só. É melhor, eu sei.
Apenas sorri, o que é mais importante para quem chega.

Please Mister Postman, look and see

Clique na imagem para ampliar.
O Royal Mail, correio do Reino Unido, descolado que só ele, decidiu fazer uma edição especial de selos que reproduzem capas de grandes discos do rock – britânico, é claro.

A lista foi criada a partir de uma pesquisa nas listas de melhores capas de álbum existentes e finalizada com a ajuda de editores de três revistas de música e designers.
Os selos serão lançados dia 7 de janeiro de 2010, impressos em litografias de 32 x 28 mm. Eles representam cinco décadas de rock, com álbuns de algumas das bandas mais representativas dos últimos 50 anos.
Deu na Folha Online

Listas e abismos

A Táta quando hiberna, mora numa caixa de tênis.


Eu tenho um réptil. Ele tem a mim. Na verdade, é ela, é uma tartaruga fêmea chamada Táta, parece pintada a mão, linda, nascida na Florida para ser pet de gente – como eu – que acha bicho com pêlo barulhento e feito para os quintais e não para os pequenos sobrados japoneses.
A Táta passa a vida me ignorando e se esquecendo da nossa relação. Naquele cérebro que deve ser menor que a ponta do meu dedo mindinho, ela só guarda os caminhos pela casa e a hora de comer. Sabe a direção do sol nascente e espera, paciente e secretamente a luz da manhã para seu esporte predileto: tomar um banho de sol.
Nesses dias até o inicio do inverno, ela vai começar uma hibernação que vai ate a primavera do ano que vem, meados de abril. Não comemora o primeiro de janeiro, as vitórias, as ideologias e nem o próprio aniversario. Ela comemora a vida, dia após dia e não se importa em abanar o rabo para sobreviver.

A humanidade comemora, celebra, festeja. É a risada. Está em todas as culturas e povos. A risada veio antes da escrita, é anterior a história, aos fatos. Com a escrita e as gargalhadas, a humanidade viu que era bom e criou a cultura e a ideologia. Depois, diz a lenda, foi descansar no sétimo dia.

A ideologia baseia-se em verdades, listas e abismos, ideologistas e ideologismos. Entra muito coração nisso também. Com a fragmentação de tudo – absolutamente tudo – no século 20, qualquer palavra solta no concreto e no abstrato cuida de separar-se do resto e criar uma sólida redoma defensora de grandes tudos contra outros nadas baseados em perfeitos vazios.

Qualquer coisa, coisa, palavra, substantivo, adjetivo, está nas mãos dos ideólogos: hoje sou vermelhista; amanha adotarei meu visceral colchãonismo e passarei o dia deitado; já fui um bom lasanhista, mas o cardiologista disse umas coisas, sabe como é.

Até mesmo esse meu pseudo - outra palavrinha sacana - anarquismo entra no rol dessa reclamação toda que é um grande nada baseado num grande vazio.

Nas nossas eternas fantasias acreditamos que somos especiais porque lemos coisas bacanas, ouvimos musicas raras, tomamos vinhos importados e temos na cozinha um utensílio criado por um designer de nome impronunciável.
Lerebi, mai frendi.

A Táta acordou e esta dando um role outonal pelo andar de baixo batendo o casco no piso de madeira a cada passo capenga. Não queria ser como ela porque não sei se ela é feliz. Não acredito que ela saiba o que é felicidade.

Infeliz de quem sabe.

Meu Caetano Favorito

TRANSA, 1971 - Gravado em Londres no exilio.
"You Don't Know Me" (Caetano Veloso) – 3:49
"Nine Out of Ten" (Caetano Veloso) – 4:57
"Triste Bahia" (Gregorio de Matos, Caetano Veloso) – 9:47
"It's a Long Way" (Caetano Veloso) – 6:07
"Mora na Filosofia" (Monsueto Meneses, Arnaldo Passos) – 6:16
"Neolithic Man" (Caetano Veloso) – 4:55
"Nostalgia (That's What Rock'n Roll Is All About)" (Caetano Veloso) – 1:22

Invento japonês simula virgindade feminina para muçulmanas

No mundo muçulmano, os homens continuam a exigir que as mulheres sejam virgens antes do casamento. Para resolver a situação delas e de outras com exigência semelhantes, um invento japonês que simula a virgindade pode ser uma boa oportunidade, diz o jornal espanhol "El Pais".
O site da empresa chinesa Gigimo, que comercializa o "Hímen de Virgindade Artificial", diz que "com este produto, você pode ter sua primeira noite de volta a qualquer hora".
Colocado na vagina ao menos 20 minutos antes da relação, vai soltar um líquido - totalmente seguro, afirmam - semelhante ao sangue, o suficiente para manchar o lençol de vermelho. Material que pode depois ser exibido pelo marido como suposta prova da virgindade da esposa até então.
"Acrescente alguns gemidos e você não será descoberta", conclui.
Vários teólogos e imãs no Egito já se mobilizaram para tentar proibir o kit da Gigimo, que é vendido por US$ 29,50. Mas por enquanto não tiveram sucesso.
Abdel-Moati Bayoumi, do Centro de Pesquisas Islâmicas, emitiu uma fátua (decreto religioso muçulmano) que condena os importadores porque "expandem o vício e incentivam as jovens a manter relações ilícitas, ao saber que podem 'recuperar' sua virgindade.

Deu na Folha Online

Os olhos de Fellini


Este filme é um poema.

Ganhou o Oscar de Filme Estrangeiro em 1954.
Da fase neo-realista de Federico, ontem assisti pela primeira vez e já é um dos meus favoritos, junto com “Noites de Cabiria” (1957).
De tabela, tem Anthony Quinn poderoso e magnífico, sempre.
A trilha sonora é assinada por Nino Rota. O tema que Gelsomina toca no trompete tem aquele frescor infantil que sempre acompanha a partitura do maestro.

Apesar de ser parecida com Fernanda Montenegro, amo Giulietta Masina como amo Marilia Pêra.

Outono, Cinema e Comunas

Pés descalços, gelados, pulando da cama para uma corridinha ate o banheiro. O outono finalmente da as caras com cara de outono e não de aquecimento global.

Ontem comprei uma claquete de cinema numa loja de 100 yenes (o equivalente a 1.99 no Brasil). Tem o tamanho de um cd.
Aos poucos vou erguendo meu império cinematográfico.

No tempo do Homem Aranha (O Um), fui no parque temático da Universal Studio, em Osaka. Entre zilhões de traquitanas, encontrei uma claquete e a trouxe. Sumiu no armário das traquitanas que foram feitas para sumirem.

No armário das traquitanas tem um acordeom meia-boca (mas novo, na verdade, um oito-baixos, como dizem) que comprei na fase que eu queria ser o Piazzolla.

Minha única performance foi quando minha sobrinha veio em casa e ela começou a brincar com as cordas do violão. Achei que havia baixado um espírito musical na menina. Tios acham tudo e sempre tudo errado. Catei o oito-baixos e me montei dentro dele. Na hora que abri o fole e dei um Dó para tocar “Parabéns a Você”, ela abriu o berreiro.

O legal do acordeom é que ele é um instrumento musical feito para ser vestido.

Sábado à tarde vou até ali na beira do Rio Tenryu bater uma bola com meus amigos vietnamitas (Khan e Kim Ahn) e outros vietnamitas. Só sei falar três palavras em tien-viet: Xingar a mãe, chamar de viado e mandar o cara sair fora. Prum futebolzim, é o suficiente, de resto, me viro em inglês e japonês com os caras.

Realmente, uma das coisas mais humanas, de Itaquera a Hanói, de Nova York a Galapagos, é xingar a mãe do outro.

Mesmo tendo a política comunista do partido único, há uma relativa liberdade religiosa no Vietnam. A maioria deles tem uma origem budista. A esposa do Kim, porem, é católica romana. Outro dia ele me recitou um Pai Nosso. Ele carrega uma Nossa Senhora de prata que ela deu para a estadia dele no Japão.
Tudo bem, ele disse. Mas prefere ser comunista-capitalista no estilo chinês, mesmo não acreditando nem em Karl Marx, só em trabalho e grana no bolso.

Fotos que eu gosto de bater


Chefinho sangue bom


Uma vez eu comentei aqui que o assovio é ofensivo e mal educado para os japoneses. Eu vivo assoviando, fodam-se eles. Gosto de reproduzir os metais da canção “Do Leme ao Pontal”, do Tim Maia. Tem também o “Descobridor dos Sete Mares” que pode fazer um suicida mudar de idéia já nos primeiros acordes. Beatles e Caetano grudam na memória sonora como gordura da palma da mão em mesa de vidro.

Hoje eu estava assoviando “Take Five”, do Dave Brubeck Quartet.
Quando eu fui saído da Apollo Piano, a minha chefa era pianista, mas dessas que estudaram piano porque as quartas-feiras estavam livres e precisava escolher entre nado sincronizado ou piano. Daquelas que gostam de Chopin porque todo mundo gosta. É igual rosa, todo mundo acha que gosta.
Voltei e já tinham saído com ela.

Como eu dizia, hoje o “Take Five” grudou na minha cachola.
Na hora do almoço o chefe atual me perguntou se eu gostava de Brubeck. Ops, respondi, mais particularmente desse disco (acima) pelo fato dele ter sido gravado na mesma igrejinha onde gravaram o “Kind of Blue”, do Miles Davis. Alem, claro, de ser um pusta disco. Oh, ele disse, você gosta de jazz! Colou num piano Yamaha que botamos de pé ontem e começou a fazer a intro de “Take Five” explicando que prefere Bud Powell e Oscar Peterson.

O fato é que até hoje, só estávamos nos cumprimentando formalmente e claro, falando de serviço. Para quem conhece chefes japas, isso é uma grande barreira a ser derrubada, o primeiro papo informal e logo de cara, Brubeck. Miles e cia.

Amanha assovio Egberto e ele me vem com Jobim. Massa.

Exposição no México mostra história de Gabriel García Márquez

Com uma série de livros, documentos e fotos, foi aberta no México a mostra "Gabriel García Márquez: Uma Vida", que percorre a história do laureado escritor colombiano, visando servir de preâmbulo para o lançamento de uma biografia.
No Palácio de Belas Artes, no centro da capital mexicana, uma centena de peças documenta cronologicamente aspectos da história pessoal do autor de "Ninguém Escreve ao Coronel", assim como seu trabalho criativo em diferentes episódios de sua vida.

"Esta exposição pode ajudar a trazer García Márquez de volta à memória das pessoas e propiciar sua releitura", disse Teresa Vicencio, diretora do Instituto Nacional de Belas Artes, na noite da última quinta-feira (8), durante a inauguração da mostra.

A exposição é baseada na obra homônima do escritor Gerald Martin, que durante quase duas décadas se dedicou a esquadrinhar a vida do literato colombiano residente no México para redigir sua única biografia autorizada, que tem 762 páginas.
A versão em espanhol de "Uma Vida" será lançada também no Palácio de Belas Artes, em 26 de outubro.
Ao longo da mostra, as fotos do pequeno Gabo, como o escritor é conhecido, se misturam com imagens de seus pais, seus tios, suas viagens pela Europa e do escritor conversando com o peruano Mario Vargas Llosa e o mexicano Carlos Fuentes.
García Márquez também posa sorridente para a câmera, abraçado a seu amigo Fidel Castro. Em outra foto, aparece recostado numa poltrona, com as mãos atrás da nuca e os pés esticados sobre um móvel.

"É uma homenagem a um escritor que inspirou e iluminou as vidas de centenas, milhares e milhões de leitores," declarou Pedro Huerta, diretor geral da Random House Mondadori, editora do livro de Martin.

Uma das joias da exposição é o contrato que o octogenário escritor premiado com o Nobel assinou em setembro de 1966 com o editor Francisco Porrúa para a publicação da primeira edição de "Cem Anos de Solidão", pela qual recebeu um adiantamento de US$ 500.
Durante a mostra, os organizadores pretendem fazer uma maratona de leitura da obra de García Márquez, que publicou em 2002 suas próprias memórias, "Viver para Contar".

A exposição "Uma Vida" ficará aberta ao público até 26 de outubro.

12/10/2009
NOÉ TORRES
da Reuters, na Cidade do México

Segunda de manhã

Todo mundo reclama da segunda feira. Eu também. Mas o pior mesmo são aqueles segundos entre o travesseiro horizontal e a borda da cama na semi-vertical, sentado. Os pensamentos que passam na cabeça nesse instante dão num longa metragem.

Agora são 6:51 am, segunda de manhã. Bom dia.

Fotos que eu gosto de bater



Matsuri pelas ruas do meu bairro.

Sem zebras, parque em Gaza pinta burros com listras

Zoologico Marah Land, na cidade de Gaza.

da Folha Online 08/10/2009
Em janeiro deste ano, os conflitos entre israelenses e palestinos na faixa de Gaza fizeram vítimas também no zoológico local.
Duas zebras morreram de fome devido à escassez de comida e outros itens básicos para a população. Sem animais da espécie para apresentar ao público, o parque Marah Land, na Cidade de Gaza, resolveu então improvisar. Um par de burros foi pintado para simular as zebras.

Tinha um violinista no telhado – agora tem um percussionista

Hoje passou um taifu (tufão) a 55 km/h cujo olho esteve sobre a minha cabeça as quatro da manhã.
Acordei com a gritaria da orgia do vento, desci, tomei um chá e liguei a tv pra ver o movimento do bicho pelos olhos do satélite, imenso, poderoso, um show do James Brown. Depois voltei a dormir.

Acho que estou trinta centímetros pra lá. Ou pra cá. Se alguém tinha algum pincher no quintal, ele acaba de pousar na Coréia.

Essa historia de dar nome aos furacões e tufões. Os nomes são escolhidos por ordem alfabética que reiniciam no começo do ano. Dar nome aleatório não tem graça.
Eu acho que ha muitos artistas que são uma força da natureza numa cena de cinema, num palco, num banquinho e violão.

Hoje foi o James Brown. Mas já vi o Al Pacino de Michael Corleone e o Selton Mello cheirando o ralo. Muitas Meryl Streeps e Marilias Pêras. Jorges Luis Borges e Benjor.

Só no pianinho

Depois de muitas peripécias, incluindo um curso profissionalizante de operador de empilhadeira industrial, voltei para a Toyo Piano e orgulhosamente posso dizer que sou luthier novamente.

A felicidade tem dono e sou eu. Hoje sou eu.

Funcionários da prefeitura de Fukuroi são punidos

A punição foi uma carta de advertência para os oito funcionários

A prefeitura de Fukuroi, em Shizuoka, divulgou na quinta-fera (1) a punição para os oito funcionários - a maioria no cargo de chefia - envolvidos no caso de 10 brasileiros que foram obrigados a assinar um documento se compremetendo a dar entrada no subsídio do governo para voltar ao Brasil.
Segundo o jornal Mainichi, a punição aos oito funcionários foi em forma de carta de advertência entregue no dia 25 de agosto.
A prefeitura também informou que o problema envolvendo os 10 brasileiros já foi concluído, depois do pedido oficial de desculpas e explicações.

(Fukuroi fica a 20 minutos de carro daqui de casa).

Deu na IPC Digital, publicado em 02/10/2009

Fab Four em 999


No dia nove de setembro desse ano (999), lançaram toda a discografia dos Beatles com nova remasterização.

Todo mundo tem seu beatle predileto, eu não. Juntos, eram uma perfeita unidade, separados, todos foram artistas medíocres. Uma ou outra canção, para não ser injusto.

Eu prefiro ter um álbum predileto que é o REVOLVER. Se falam que o neolítico do punk esta em Link Wray ou Lou Reed ou Stooges ou MC5, ok, perfeito. Mas o macaco primal dessa deliciosa porcaria é este disco.

O álbum REVOLVER remasterizado superou a minha expectativa de fã. Já era um petardo em 1966. Detalhes sonoros foram encontrados e peneirados pelos alquimistas da mixagem. Em alguns casos, acredito que a digitalização não superou o original em vinil. Há vários discos de jazz que são melhores no diamante da vitrola, tipo o BIG FUN, de Miles Davis.

Mas os quatro garotos idosos - vivos e mortos - de Liverpool mereciam essa homenagem sonora. Nós também.

E é bom dizer que pago por décadas de sarro e exclusão sacaneando o cara. Depois de rigorosa audição de vários álbuns remasterizados, digo que o Ringo Starr é um bom baterista. Mea culpa, somente mea culpa.

E lá vamos nós


Serendipity é uma palavra de origem inglesa cunhada pelo escritor inglês Horace qualquer-coisa que significa “fazer descobertas felizes e inesperadas por acaso”.
Eu acho que a única arte capaz de nos serendipitar em toda sua magnitude como um sopro de vento ou um abraco invisivel, é a musica. É a única arte que nos pega desprevenido, disse Millor. Um assovio pode mudar o dia de uma pessoa. Um alto falante aos berros na porta de uma igreja evangélica também.
Mas também é possível entrar numa sala e encontrar um quadro ou uma escultura magnífica. Ou o seu amor para as próximas cinco décadas.
Um odor pode vir de maneira graciosa do cômodo ao lado. Ou não, se for um set de Fellini e lá houver um hipopótamo míope ensaiando hip hop.

Eu vi Manet e na sala seguinte era Monet e estava tudo em paz no meu peito. Monet tem a leveza impar que a simples menção de seu nome já traz. Mas ver uma sala inteira com suas cores é o satori dos zens de Kyoto.
Distraído, virei os olhos para o outro extremo da sala, a porta de acesso à sala conseguinte.
Era Van Gogh. Aquilo foi uma serendipitada. Meu coração perdera a paz para sempre.
Depois veio Cézanne e hoje me da vontade de chorar, pois eu deveria ter levado correntes e cadeados e ter me trancado naquele andar do Museu D’Orsay para sempre.

Em literatura também podem acontecer coisas assim. A primeira leitura de uma letra de Chico Buarque, “Construção” e “Deus Lhe Pague”, por exemplo, pode trazer tantas e novas informações maravilhosas que podem mudar a política de um país.
Língua” e “O Quereres”, de Caetano Veloso trazem sensações e descobertas lingüísticas sutis e magnânimas.

Escute isso:

“Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendia havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo.”
Essa é a primeira linha de “Cem Anos de Solidão” de Gabriel Garcia Márquez.
Não canso de falar dele, desse livro, dessa frase que mudou o rumo da minha escrita, do meu pensar musica, comida, amor, perfeição. Sempre serendipo e engulo seco ao iniciar mais uma releitura do livro da minha vida.

TRRAVA

Tudo muito lindo em céu de brigadeiro. Abre-se o Office e os pés já não tocam mais o solo, a cabeça se eleva, o texto flui e de repente tudo TRRAVA sem nenhuma explicação.

A queda brusca vertiginosa, taquicardia insolúvel, cadê aquela frase de ouro que estava aqui?
TRRAVA, a porrra trrava, nada mais se fabrica no batuque dos dedos no teclado.

Finalmente desisto e naninha neném.

Yakult, madrepérola e jazz

Com a crise financeira do ano morto que está passando, tem aumentado o numero de vendedores porta-a-porta aqui no Japão.
Já havia a turma dos Testemunhas de Jeová japoneses.
E não adianta dizer que es brazuca, meu rei, pois eles têm a revistinha em português pré-reforma. Eu digo não quero e dou um sorriso de Buda, dando um tom ecumênico a essa curta relação.
Ou é prereforma?

No Brasil havia as tiazinhas do Yakult. Aqui, até alguns anos, também. Mas sumiram como somem os colares de verão e as memórias.

Outro dia caiu um panfleto na minha caixa de correios e era sobre um detetive particular very secret que estava dando um desconto de 50% só para aquele mês.

Imaginei o Ultra Seven fazendo conta para pagar o aluguel do escritório esfumaçado, noir, e entra a Lauren Bacall segurando uma longa piteira de madrepérola, enfim...

Ainda nas películas, falam em Marilyn Monroe ou Sharon Stone ou Kim Bassinger ou Nicole Kidman.
Louraça belzebu foi a Lauren Bacall por causa daquele olhar devorador e porque era em preto e branco. Ok, ela era meio ruiva, mas era em preto e branco.

Ainda nas louraças, ontem reassisti “Quem Vai Ficar com Mary?”, dez anos depois. Bom, sempre é bom.

Ainda nas relíquias, comprei um Box do Thelonious Monk e deixei ao acaso para depois. E depois é agora.
Monk, cara, Monk pra caray.

To devendo um texto pra Fla e Glad. Até quando, deuses e gnomos dos parágrafos?

Nas margens do Danubio

Não lembro onde eu li uma critica sobre a escola de atores para telenovelas da emissora carioca onde todos parecem apresentar uma atuação “naturalista”. Ninguém interpreta nada. Como a novela deve representar uma fantasia da realidade, a realidade deve ser bem feita, natural.
Olha como ele toma sopa tão bem. Olha como ela fica bem de “traída-e-submissa-que-vai-dar-a-volta-por-cima”. Olha como ele é engraçado, parece o tio de Mato Grosso.
Mas em cinema não é assim. No cinema a interpretação deve ser num tom em que nada deve ser excessivo e nada deve ser desperdiçado. O tom efêmero e calculado da interpretação teatral tampouco serve para a lente da telona. No teatro, todos os dias de um personagem grudado na pele e na alma são diferentes, mesmo por anos sob o mesmo texto e luzes. No set de filmagem, em meses, tudo está acabado – mas é para sempre.
Alguns consagrados nomes globais acham que a técnica de cinema é muito próxima de uma minissérie. Nananinanão. Mesmo em minisséries, alguns apertam o piloto automático e carregam o fardo ate o fim.
Na novela, atua-se para a câmera. No teatro, para o personagem e para a platéia. No cinema, para o filme. Acho que é assim que funciona.
O problema da televisão é o excesso de close. A resposta emotiva rápida está na cara, na lagrima explicita. O ator de telenovelas esquece do resto do corpo.
No filme BUDAPESTE há esse contraste. Eu gosto do Leonardo Medeiros, ele é cinema pracaray, um ator maravilhoso. A atriz Giovanna Antonelli, linda, deliciosa, brasileiríssima, é atriz de televisão. Pronto, o filme fica por ai e cresce quando passa a ser narrado em Budapeste, por sua fotografia e pela excelente e linda atriz Gabriella Hamori.
Outra coisa que irrita é que em todo filme brasileiro alguém tem que pagar um peitinho desnecessario para a dramaturgia. Nesse filme tem dez pares. Só as velhas húngaras é que não se prontificaram.
O livro é muito, mas muito melhor. E não é apenas o clichê de que a obra literária é sempre superior à cinematográfica. Tem boa intenção, mas esse filme peca. Vale para fãs do ator Leonardo Medeiros, como eu. Vale pela curiosidade de ler Chico Buarque na telona.

Mais Garcia Marquez

Filme baseado em livro de Gabriel García Márquez será rodado no México

da Efe, no México
O romance "Memória de Minhas Putas Tristes" do Prêmio Nobel de Literatura colombiano Gabriel García Márquez será transformado em filme graças a uma coprodução internacional que terá o México como cenário da rodagem, informaram hoje fontes do projeto.
A cidade de Puebla, a 120 quilômetros da Cidade do México, receberá as filmagens, graças a uma coprodução entre os governos do México, Espanha e Dinamarca, além do conglomerado de comunicação Televisa e da engarrafadora Femsa, ambas companhias mexicanas.
"Os governos de Espanha e Dinamarca estão entusiasmados e parece que vão pôr uma quantia grande à disposição", afirmou à imprensa o secretário de Finanças do estado de Puebla, Gerardo Pérez, já que o governo local também participará do projeto.
De acordo com o site especializado IMDB, o projeto teria o dinamarquês Henning Carlsen como diretor e o ator mexicano Damián Alcázar como protagonista.
Segundo Pérez, o orçamento da produção é de aproximadamente US$ 8 milhões.
Outras obras de García Márquez já foram levadas para o cinema, como "Crônica de uma Morte Anunciada", "Ninguém escreve ao Coronel" e "O Amor nos Tempos do Cólera".
Deu na Folha Online de hoje