ESPERANDO ROSA

Chove um malmequer bemmequer desenfreado que ate dava pra controlar no comecinho, nas goticulas frouxas na queda do toldo. Agora com essa multidao de gotas-todas-gotas-right-now ao mesmo tempo agora igual no disco dos Titas, nao ha Cristo que faca a brincadeira do bemmequer sabiamente.Como dizer que me ama se todos os sinais gritam sins e naos ininterruptos?Aqui no toldo e' o quinto cigarro. Ultimo no maco. Ultimo. Tudo cabe no ultimo cigarro. Pode ser a bomba-relogio da despedida solitaria para comecar a caminhar ate a bilheteria para pegar o da meia-noite, voltar indefeso, frouxo e fraco para casa. Pode ser a primeira tragada no ultimo cigarro de hoje. Pode ser o milagre da multiplicacao e comecar a chover Montecristos cubanos de cem dolares. Pode ser um eclipse. Pode ser o ultimo cigarro antes do inevitavel enfisema. Pode ser o inicio de um incendio. Nao. Nao na chuva, Nunca na chuva. Nunca comece um incendio na chuva se voce nao estiver de guarda-chuvas, mesmo embaixo de um toldo de farmacia. Incendio mais bombeiros mais transeuntes notivagos curiosos mais charutos cubanos mais quase meia-noite nao combinam.Um vulto vindo da Santa Efigenia. No lusco-fusco inebriado cinza prata da chuva e lampadas-mercurio, acho que o vulto pode ser voce. Sem guarda-chuvas? Voce nao viria desprotegida, jamais. Talvez viesse nua e de salto agulha, uma aparicao matahari luz del fuego na minha jugular, mas num dia como esse, depois de um telefonema pe-na-bunda, jamais, nem nua ou sem guarda-chuva.Quando eu falei que queria o disco do Pixinguinha, falei brincando. Era pra citar aquela do Chico. Uma citacao, um engodo literario-metaforico-ironico de um trouxa sendo jogado numa van lotada de eunucos inconsequentes. Voce levou a serio, falou que devolvia, que era pra eu esperar ali na esquina da Sao Bento com Boa Vista. Ca estou. Serissimo. Frio de rachar. Ultimo cigarro. Incendio, chorinho, a flauta do Pixinguinha, tu eras minha rosa, tu eras divina e graciosa estatua majestosa do amor por deus esculturada. Ao diabo o disco do Pixinguinha. Ao diabo com tuas lagrimas, teus desejos, nossos jantares, nossos humores, os lencois. Ao diabo esse isqueiro que nao acende. Voce nao chega, nunca vira, nunca viria, nunca esperei. Ao diabo.

Um comentário:

Kenia Mello disse...

Tão lindo...!
Beijos.