Então eu tiro o pé pra mostrar que tem gente aqui embaixo

Então clica na foto para ver o pé.

Fui ao centro da cidade bem cedinho, um pouco depois das sete. A repartição pública só abriria às oito e meia , mas cheguei nessa hora para pegar uma vaga no estacionamento, senão teria que pagar um estacionamento particular e é caro demais para um espaço onde um carro fica apenas parado.
Fiquei morgando no carro. Em cinco minutos, não pude evitar, deu vontade de ir ao banheiro.
Aqui no Japão, nessas horas, pensa-se logo num convenience store, onde os banheiros são limpos, sempre cheirosos, papéis e sabão na pia.
Vira ali, depois ali, cai na avenida e duas quadras depois tem um Circle K, perfeito. Como a situação era controlável, deixei o carro, catei a bolsa e fui a pé.
Na verdade eram quatro quadras. Tudo bem.
No caminho, passei por uma galeria subterrânea. Desde que assisti "Irreversível" com a Monica Bellucci, fiquei cabreiro com esses corredores. Mas ou era isso ou eu teria que esperar o semáfaro da avenida. Como desci correndo, fazendo barulho na escada, acordei um cara que estava dormindo. Ele disse "puta que o pariu".
Eu sei que todos os mendigos no Brasil são brasileiros. Pelo menos a maioria. Mas é muito difícil ver um patrício nessas condições no exterior.
Eu disse "desculpa ae, mano".
Fui no Circle K, banheiro etc e comprei uma refeição pronta e um chá. Quando voltei, ele estava cochilando sentado no futon. Cheguei perto, ele abriu os olhos e entreguei a sacola dizendo que era para ele. Ele agradeceu. Eu disse que o governo japonês estava dando o dinheiro da passagem e que ele poderia voltar para o Brasil. Ele disse que estava vendo isso.
Mentira. Dava pra ver que o cara estava se acabando na metanfetamina, ou cristal. Altamente viciante e destruidor, tanto ou mais que o crack. Ele tremia as mãos e os lábios - e não era de frio. A pele estava cinza, os olhos não conseguiam se fixar em nada.
Ficamos em silêncio. Então eu disse:
- Larga essa vida, mano, a pedra não tá com nada.
- Pode crer, mas vou te dar o papo reto, quem cai nessa vida, não sobe mais não, viciado é tudo sem vergonha. Valeu pelo rango e pela idéia, mano.
Expliquei que tinha um blog e que queria uma foto, se não fosse incomodá-lo. Ele disse que tudo bem, contanto que não aparecesse a cara. Ele deitou e se cobriu. Bati a primeira e ficou parecendo um amontoado de pano. Mostrei para ele e ele falou:
- Então eu tiro o pé pra mostrar que tem gente aqui embaixo.
E tinha, infelizmente.

6 comentários:

rnt disse...

porra, nei, que post foda. :/
teu blog tá cada vez melhor, essas suas saudades estão fazendo de vc o melhor cronista de todos os que tenho assinados no meu reader. e olha que tem gente bem boa lá! muito foda esse texto. não tenho adjetivo melhor. mas vc mintende. e "E tinha, infelizmente." foi de arrepiar. bjo, mano. e brigalda por escrever tão lindamente.

Bem disse...

Aqui no Rio o crack chegou, anos após aterrissar em São Paulo, com força total. Agora dá na TV, umas 4 iou 5 cracolândias. Logo esses coitados vão virar parte da Paisagem como o Corcovado, a Praia e as favelas...

Ser estrangeiro no japão não deve ser fácil, ser mendigo então...

LuMa disse...

Putz, Nei. Descreveu tudo em fotogramas, como se eu estivesse na cena. Esse cara já não é nem um número na indigência, mas já na fila para virar poeira num dos arquivos estatísticos.

Nei, belo texto, realmente. Da dor e da ira é que nascem essas coisas, e materiais não devem te faltar.

Anônimo disse...

Do-caralhante esse texto Ney, procurando um adjetivo.. Porra, a imagem que eu trouxe dai pra cah, a saudade que to dai..Agora pouco tinha acabado de ler na UOL sobre esse plano do governo e tal, mas nao adianta dizer neh, os numeros do jornal nacional nem de perto descrevem o q e essa coisa chamada crise... Parabens[4]
Thiago Haruo Santos

AMARela Cavalcanti disse...

Nossa, que coisa chata! Sei mais ou menos o que é isso: perdi um grande amigo, que foiassassinado, porque tava devendo grana muito alta pra traficante. E o pior é saber que você, de certa forma, não pode fazer nada. A gente conversa, dá apoio, mas quando eles não querem, não adianta mesmo.

AMARela Cavalcanti disse...

Nossa, que coisa chata! Sei mais ou menos o que é isso: perdi um grande amigo, que foiassassinado, porque tava devendo grana muito alta pra traficante. E o pior é saber que você, de certa forma, não pode fazer nada. A gente conversa, dá apoio, mas quando eles não querem, não adianta mesmo.