Os nossos são melhores?

Tem a reforma ortográfica portuguesa mundial, de Macau a Timor Leste, de Sintra a Pelotas, De Cabo Verde aos 300 mil brasileiros no Japão, enfim, todos nós da última flor do lácio.
Somos bons em analfabetismo. Basta ver que um dos grandes sucessos da internet são as fotos de cartazes, placas e letreiros espalhadas pelo Brasil escritas de forma inculta e bela*.
Como anda o analfabetismo do além mar? Será que somos um fenômeno ímpar no idioma? Não creio. Entre Bandeiras, Camões, Drummonds e Pessoas, há imensos parágrafos preenchidos com digitais e formas toscas e tremidas de assinaturas.
Se somos um povo que não lê, o círculo se completa com o fato de que somos um povo que não escreve. Ou não aprendeu.
Mas temos que insistir.


*Eis o poema de Olavo Bilac:

LÍNGUA PORTUGUESA

Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...

Amote assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

Em que da voz materna ouvi: "meu filho!"
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!


A expressão "Última flor do Lácio, inculta e bela" é o primeiro verso de um famoso poema de Olavo Bilac, poeta brasileiro que viveu no período de 1865 a 1918. Esse verso é usado para designar o nosso idioma: a última flor é a língua portuguesa, considerada a última das filhas do latim. O termo inculta fica por conta de todos aqueles que a maltratam (falando e escrevendo errado), mas que continua a ser bela.

2 comentários:

LuMa disse...

Nei, confesso que qdo preciso mandar alguma correspondência a Portugal, nunca sei se o que escrevo seja uma corruptela da língua-mãe - portanto, um arremedo do português contemporâneo de Portugal - ou se devo me ater apenas ao português brasileiro, com toda a sua distinção cabocla e vida própria. Chega a ser embaraçoso ter que me questionar a cada parágrafo se estou usando pronomes justos e respectivas conjugações verbais qdo falo com Portugal. Em todo o caso, penso sim, a gente somos bastante analfabeta. E olha que a internet, além de revelar escancaradamente o nosso analfabetismo, nos obrigou tbém a ler e a usar a escrita, o que em parte já é um bom passinho para rever o nosso estado.

"Pintam placa-se", é o cartaz mais singelo que eu lí em português de que fala. Tenho até carinho por esta frase(rs). Beijão!

Abel disse...

Ontem vi num bairro não central e antigo da cidade uma faixa na frente de uma associação para recuperação de dependentes químicos sugerindo ao transeunte doação financeira e de afins: PRECIZA DÊ TE.
Há anos – antes do advento Macintosh – vi num bairro central e antigo de Belo Horizonte uma placa ao lado de uma portinha: BOMBEIRO, ELETRICISTA, FAÇO LAYOUTS, CRIO LOGOMARCAS.
Dou-me por ter visto faixas e placas o suficiente.