Quem te viu, quem te vê

Foto típica dessas caminhadas

Nunca fui de praticar esporte nenhum, gosto de sofá, controle remoto e um filme atrás do outro. Ou mesmo futebol. Sou um esportista teórico.

Fiz meus gols na adolescência, alguns antológicos que só eu lembro, mais ninguém. Já fiz gol de bicicleta, de peixinho e sem-pulo, um de cada. Os outros, pouquíssimos, na casa das dezenas, redundantes gols genéricos em quadras, campos e muitos, quase todos, no futebol de rua ali na Rua Miguel Carlos, uma rua curta e larga paralela à avenida Senador Queiróz, perto do Mercadão.

Como tudo que cultivo desde moleque, sempre transporto as formas da vida para que tenham uma cara artística, moldada na sensibilidade em cores, notas, palavras, movimentos, que seja. É uma tendência pessoal. Por isso, até mesmo o futebol de rua da Miguel Carlos virou arte. Arte suja e podre, mas muita arte, de pintar o sete.

Numa tarde de domingo modorrenta e tediosa, só preenchida pelo futebol, entrei numa dividida com o Léo, um garoto ruim de bola e de pé extremamente duro. A bola foi, meu pé ficou e ele chegou forte. Caí, retorci de dor e não era encenação.

Fiquei um mês engessado, tornozelo torcido, imóvel, eu e duas muletas inseparáveis. Fui até num show de uma banda de funk soul instrumental no MASP. Suingando com duas muletas, bro. Nunca mais joguei futebol com a mesma disposição. Disposição, não leveza e virtuose, é diferente.

Como nunca achei graça em outro esporte coletivo além do association, parei de fazer coisas que suassem. Basquete, não. Volei, nem pensar. Handebol, o que é isso?

Aliás, correr por correr, não vejo graça até hoje. Não tem uma bola na frente, nem uma baliza para encerrar o assunto.

Nessa época do acidente com o Léo - que seguiu carreira militar, pelas contas deve ser um jovem oficial hoje em dia - o Bado veio morar no bairro. O Bado é uma das figuras mais punks do mundo. Montamos uma banda punk-rock homenageando o futebol da rua de trás: Miguel e Seus Ex.

Essa é a explicação para o nome dessa banda que também só é inesquecível para quem tocou nela: Pirulão, Grego, Tony, Lennon, Bado e eu, éramos os Miguel e Seus Ex.


II

A banda acabou, o Collor chegou e meses depois do confisco eu estava desembarcando aqui. Estou há 18 anos nesse vai e vem entre dois hemisférios.Cheguei até a jogar um futebolzinho chinfrim com outros compatriotas nessas plagas. Eu acho que era mais uma necessidade de criar um fator de identificação com o Brasil lá longe do que querer praticar um esporte, a coisa de suar.

Desisti. Os brasileiros que jogam futebol - para se divertir! - por aqui são muito "profissionais". É a coisa da identificação mesmo. O prazer do gol, da vitória, da derrota, da cerveja e do sarro não existem. O que existe é um bando de cara chato metido a boleiro. Puá.

Mas, pasmem, de um mês para cá resolvi caminhar.

Então é assim, acordo uma hora mais cedo - às cinco e meia - e vou pra rua sem nem pensar, porque se pensar, fico. Claro, levo a câmera, sempre tem alguma coisa interessante. Hoje tinha a parede que a minha vizinha derrubou com a traseira do carro. Mas não vou publicar essa foto, não vou levar essa fofoca ao extremo da imagem.

O grande lance de caminhar pode até ser ir caminhar e suar e saúde, blablablá. Mas o melhor mesmo é ter a câmera esperando um clique, um olhar, uma cor. E te digo, às cinco da manhã tem uma luz muito boa.

Além do que, todo provérbio existe porque é verdade e está provado o que ele contém em rima, palavras e sabedorias: Paguei com a boca. Eu que achava que caminhar era uma besteira urbanóide para vender tênis de marca, descobri que é legal e faz a diferença mesmo.

2 comentários:

Patricia Daltro disse...

Eu odeio atividades físicas, mas gosto muito de caminhar. Aqui no Rio, caminhava muito no Aterro do Flamengo, tendo a Baia de Guanabara como companhia, hoje, meio longe do bairro da minha infância, ainda me esforço para vez em quando andar.

Diego? Glommer? disse...

Pôxa, também não sou muito adepto de esportes. O problema é que ainda sou ruim no futebol. Daí minha motivação é zero.

Quanto a caminhar eu também gosto. E muito por causa desse lance do inusitado. De ver coisas que você não veria se estivesse andando apressado pra chegar a algum lugar.

Tô ouvindo o Kind of Blue aqui... Tô começando a conhecer melhor jazz, daí eu me lembrei que você indicaou o álbum aqui certa vez. É algo maravilhoso mesmo.

Abraços!

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