Nada além de papo

Nada maior que isso aqui, essa cadeira, o chão, as teclas e essa vontade de dizer qualquer coisa melhor que ontem.
Sempre.

Gosto de palavras, todas. Gosto de significados inteiros, das infinitas ilusões que um significado nos leva. Gosto de "serendipity", não vou mastigar não, tem lá no googlão, tem tudo lá.

Gosto de palavras que para serem faladas são feitos muitos movimentos diferentes da boca, língua nos dentes, no pálato, recuo de lábios. Diga "subserviência" e sinta-se o máximo, não por sê-la, mas por dizê-la.

Uma palavra atrás da outra. Há milênios estamos dando nomes às coisas. Desde que nascemos damos nomes às coisas que vão mudando de forma, sem perder sua essência. A sequencia é essa: punzinho, peido e gases. Papinha, comida e refeição. Mãe, mãe e mãe. Elas nos ensinam o princípio, o necessário para acharmos que já é. Pois é.

Uma vez eu perguntei ao maior cartunista do mundo porque ele não escrevia uma graphic novel, uma coisa imensa, um livro. Ele só me perguntou de volta: Para que serve um livro?

Nada mais inútil que um livro. A gente lê, se emociona e larga ele na estante feito um troféu. Eu não largo os meus. Releio, reemociono, regargalho. Queria me desprender deles todos e dá-los, mas como? São apenas palavras após palavras e nada daquilo me é útil de fato, mas não largo.
Um livro lido, já foi lido. Um livro nunca lido, ele não existe. Se me explicarem o fetiche que um livro exerce sobre mim, eu nunca mais leio.
Eu amo a literatura. Amo as palavras. Mas pra que? Blogs, redações, dissertações, teses, doutorados, mestrados, nada além de papo, uma boa conversa, um assunto a resolver.

Livros são diálogos silenciosos. Toda guerra, gritaria, escatologia, amor, idéia, filosofia, desespero de um livro já estavam no leitor.
Raramente algum autor nos dá uma nova emoção, uma sensação sem nome, algo que está apenas naquela página, naquela frase, naquele livro.

Para mim, uma das coisas mais perfeitas em literatura é a descrição que GG Márquez faz do cigano Melquíades em Cem Anos de Solidão. Desde o dia que li, acreditei em umbanda e sei que esse cigano é meu encosto.

2 comentários:

Dani (ela) disse...

as palavras me emudecem vez ou outra. deve ser pelo o que elas carregam em si; coisa nossa.

artesmenores disse...

Eu também adoro livros. Mas tenho essa impressão que eles são mais receptáculos temporários para experiências estéticas fugazes. Assim como qualquer outra coisa no mundo!