Eu, eu mesmo, o burro

Fui lá, tinha que ir. Não gosto de repartições publicas, situações cartoriais, burocracias, guichês, explicações infindáveis de coisas que se repetirão, nunca vou entender e fica por isso mesmo, meu chapa.
Eu estava lá esperando com o papelzinho na mão, numero 123, um bom numero, sempre presto atenção nesses papeizinhos, pode haver uma dica para a loteria, pode ser um aviso místico, sei lá, nesses parcos minutos de tédio quase virando um coma induzido, qualquer pensamento cabe, ate mesmo o numero do papelzinho.
Chamaram o 123. Fui lá com a minha papelada na mão para facilitar a tudo e todos. Ao meu lado, uma mulher brasileira com o filho agarrado em suas pernas olhava atônita a cara do japonês explicando qualquer coisa. Ela não estava entendendo nada de nada. Eu já tinha resolvido tudo. Botei as coisas na pasta e fui caminhando para a saída. Ela disse “O”. Olhei. “Você é brasileiro? Me ajuda aqui”. Nem tive tempo de responder se era. Nem mesmo um “por favor” foi dito. Acho que o que me denunciou foi a camiseta do Sepultura.

Parei, o japonês explicou que o tradutor estava em horário de almoço, por isso não estava por ali. Eu disse a ela. Ela ficou aliviada, tinha pensado que era para voltar depois do almoço.
Eu perguntei qual era a questão, era algo relacionado ao auxilio-leite que a prefeitura de Hamamatsu fornece para a criança recém nascida contanto que as vacinas estejam em dia e outras obrigações, há algumas regras para serem cumpridas. O japonês explicou que ela não tinha cumprido algumas e por isso a ajuda havia sido cancelada, mas que a ajuda voltaria caso ela retornasse com a caderneta de vacinas carimbadas pelo medico. Expliquei. Ela disse que isso estava entendido, a questão era que ela queria o retroativo. Ele disse que isso era impossível.
Ela retrucou. Pediu que eu traduzisse de novo. Traduzi. Ele disse ser impossível, de novo. Eu repeti novamente a ela, dessa vez, pausadamente.

Acreditem, ela me chamou de burro. Eu.

Deu vontade de dizer que burro era o mau hálito dela.
Não, virei as costas, disse "olha, eu tenho um compromisso" e sai andando. Ela ainda falou uns tres "O".

- Burro é o teu marido que ainda faz filho em você, dona - respondi ligando o carro, mas era tarde demais.

2 comentários:

Patricia Daltro disse...

É impressionante a cara-de-pau da mulher. Você foi muito educado com uma pessoa que não merecia 1/3!

LuMa disse...

"Ô, vem cá", neste caso, dá pra batizar o marcador de "um milhão de ovos voando"!

O lema deles é "direitos, antes de mais nada". Ô tristeza...