E lá vamos nós


Serendipity é uma palavra de origem inglesa cunhada pelo escritor inglês Horace qualquer-coisa que significa “fazer descobertas felizes e inesperadas por acaso”.
Eu acho que a única arte capaz de nos serendipitar em toda sua magnitude como um sopro de vento ou um abraco invisivel, é a musica. É a única arte que nos pega desprevenido, disse Millor. Um assovio pode mudar o dia de uma pessoa. Um alto falante aos berros na porta de uma igreja evangélica também.
Mas também é possível entrar numa sala e encontrar um quadro ou uma escultura magnífica. Ou o seu amor para as próximas cinco décadas.
Um odor pode vir de maneira graciosa do cômodo ao lado. Ou não, se for um set de Fellini e lá houver um hipopótamo míope ensaiando hip hop.

Eu vi Manet e na sala seguinte era Monet e estava tudo em paz no meu peito. Monet tem a leveza impar que a simples menção de seu nome já traz. Mas ver uma sala inteira com suas cores é o satori dos zens de Kyoto.
Distraído, virei os olhos para o outro extremo da sala, a porta de acesso à sala conseguinte.
Era Van Gogh. Aquilo foi uma serendipitada. Meu coração perdera a paz para sempre.
Depois veio Cézanne e hoje me da vontade de chorar, pois eu deveria ter levado correntes e cadeados e ter me trancado naquele andar do Museu D’Orsay para sempre.

Em literatura também podem acontecer coisas assim. A primeira leitura de uma letra de Chico Buarque, “Construção” e “Deus Lhe Pague”, por exemplo, pode trazer tantas e novas informações maravilhosas que podem mudar a política de um país.
Língua” e “O Quereres”, de Caetano Veloso trazem sensações e descobertas lingüísticas sutis e magnânimas.

Escute isso:

“Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendia havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo.”
Essa é a primeira linha de “Cem Anos de Solidão” de Gabriel Garcia Márquez.
Não canso de falar dele, desse livro, dessa frase que mudou o rumo da minha escrita, do meu pensar musica, comida, amor, perfeição. Sempre serendipo e engulo seco ao iniciar mais uma releitura do livro da minha vida.

2 comentários:

LuMa disse...

Ah, compreendo a sua serendipada com Van Gogh, daquela de emudecer pra sempre! Tô esfregando as mãos desde já, pois em outubro vou serendipar - e já vou preparada com calmantes - com a pintura de Edward Hopper na cidade.

PS: Trabalhei 8 anos com uma megera de Tóquio, diretora-ditadora de uma importadora que leva este nome. Ao final dos 8 anos de inferno, tive um treco e parei no hospital. Sim, existe tbém o anti-serendip!

Dani (ela) disse...

serendipiei no post!

:)

e sim, claro, deveria ter se trancado mesmo. sinto o mesmo. dá vontade de ir prum cantinho, se esconder e esperar a galeria (ou museu) fechar para ficar sozinha a noite, fazendo a retina e cérecro felizes!