24 horas num Boeing com escala

Conheci um rapaz que chegou recentemente do Brasil. E pela primeira vez cá no arquipélago, coisa rara depois de 20 anos de imigração.
A maioria dos brasileiros residente aqui no Japão são os que chamamos de veteranos, com mais de cinco anos de residencia.
Alem de seu olhar perplexo com a grande diferença gestual, paisagística, sensorial, era nítido o fato de que nós aqui somos muito relaxados – os veteranos – não no sentido relapso da palavra, mas no sentido de “não tensos”.
Adquirimos isso com a tranquilidade urbana, com a falta de violência gratuita, não só a da bala perdida, mas a violência de existirem crianças circenses no semáforo, as calçadas quebradas, os carros em cima das calçadas, os motoristas loucos, a sujeira da cidade, as doenças dominando bairros através de seringas e drogas destruidoras com o inferno na ponta da molécula.

O individuo brasileiro é o melhor ser humano do mundo. É completo em corpo e alma. Por causa de seu idioma e sotaque, consegue aprender e falar qualquer idioma do mundo. É simpático e educado, caridoso e generoso. Risonho, bem humorado, solícito, simpático, papo bom, inteligente, sagaz e romântico. Sabe jogar bola como ninguém. Tem a poção e o segredo do homem de Nietzsche.
Mas eu não gosto de mim, de você, de todos nós no coletivo. Coletivamente a gente ta se lixando um pro outro. Nós criamos uma sociedade triste que ri por ri e por fora, hipócrita e infeliz que prefere a individualidade – eu também, claro – a criar formas e situações para sei lá, mudar a cara do senado federal, por exemplo.
Ou catar cocô de cachorro na rua. Ou desinventar os elevadores sociais e de serviços. Ou não invadir a faixa de pedestre. Ou não corromper e ser corrompido em um ou milhões de reais.

Conheci um brasileiro tenso em busca de trabalho e felicidade para si e sua família.
Não falei muito, prefiro não falar, interferir. É melhor que ele descubra esse país e se descubra nele por si só. É melhor, eu sei.
Apenas sorri, o que é mais importante para quem chega.

6 comentários:

rnt disse...

"Adquirimos isso com a tranquilidade urbana, com a falta de violência gratuita, não só a da bala perdida, mas a violência de existirem crianças circenses no semáforo, as calçadas quebradas, os carros em cima das calçadas, os motoristas loucos, a sujeira da cidade, as doenças dominando bairros através de seringas e drogas destruidoras com o inferno na ponta da molécula."


preza.

LuMa disse...

Creio, - espero não estar errada - que o silêncio é a maior sabedoria neste caso. Na vida, nada mais é relevante, com exceção do nosso dinheirinho. É hipocrisia, eu sei. Mas é assim que caminha a humanidade. A sabedoria é que esta realidade seja percebida por sí.

Sabe a mãe leoa? Ela é corajosa, jogando os próprios filhotes do alto da montanha. Quem resite fica com ela. É duro, mas é assim.

ReMo disse...

então toma:

http://www.umquetenha.org/

Barbara disse...

Aqui em Copa as pessoas catam o cocô do cachorro. Mas o xixi é de brinde pra gente, eu acho!
Tem horas que é preciso se calar. Tem coisas que você pode até ouvir, mas o cérebro não compreende até que fure no coração. E bola pra frente!

Gustavo disse...

eu tenho gostado cada vez mais do brasil.
mas só conheço porto alegre. e tenho gostado cada vez menos dela.
que quase não fica no brasil.

na verdade continuo adorando minha cidade, mas a arrogância capital-província me deprime.

adriana nolasco disse...

eu gosto de você, nei. você sorri pra quem tá chegando, desinventa elevadores e acaricia as palavras. tava com saudade daqui. beijo.