Conexões Friorentas

Frio de rachar. Literalmente. Não sei bem o que se racha no frio. Tem gente que racha os lábios. Como aqui na região não neva, mas gela, as poças d’água endurecem formando um mini lago de patinação para insetos fulgazes. Nunca vi nenhum patinando, mas sempre imagino.
Também imagino as formigas enfiadas no buraco, jogando baralho, lareira acesa, comida farta, tirando sarro das cigarras. Formigas são muito pragmáticas, não é muito bom ser comparado com formigas. Formações e paradas militares nos fazem lembrar esse tipo de gente.

Na Venezuela o frio nunca é de rachar porque é um país tropical. Mas têm lá seus militares, paramilitares, supramilitares, fardados para todos os gostos e desgostos. Sempre haverá uma nação latino americana com tais angustias. É assim que o continente funciona, feito as formigas num buraco, ficam lá falando mal das cigarras, democráticas e barulhentas.
Na Itália, o premier Berlusconi tomou um murro na cara e devia estar um frio de rachar na praça em Milano.
No Brasil, que tá um calor de rachar, o governador do DF fatura uma grana preta criminosamente e tudo bem.
Cara de pau não racha, mas toma tabefe.

Mas o frio tá de rachar. Não saio de casa nem pra pensar em voltar pra casa. Me chamam de urso por causa desse meu conceito humano de hibernação. Sair de casa nesse frio é desnecessário. É por isso que prefiro o inverno ao verão, porque dá pra ficar em casa sem se preocupar em ser ou não ser anti-social.
Dá pra ouvir disco de jazz sem passarinho improvisando junto. Tirando um tico-tico japonês que fica em grupo nos fios, um grudado no outro, não tem muita asa batendo por aí nesses dias gelados. Nem os corvos crocitam (gritam) tanto nesses dias de frízer.
Faz algumas horas que estou ensaiando para sair e ir abastecer o carro no posto. Poderia ir à segunda, mas é um self service, nos finais de semana a gasolina é mais barata.

Quando junta na minha cabeça esse frio de rachar com o posto de gasolina, a conexão é direta com os conceitos ecológicos de futuro macabro e o terror antipático que nos fazem acreditar que virá. Não acredito em metade do que dizem e escrevem. Desde o final dos anos 70 a gasolina esta para acabar e o mundo também. Antes disso, sempre, haverá uma solução. E entre uma solução e outra, uma guerra medonha e lucrativa.
Que me importa se o urso polar é canibal* enquanto crianças afegãs brincam de esconde-esconde em escombros de tanques fedendo a carniça ianque?

* Sempre foi. Agora tudo é culpa do aquecimento global.

Um comentário:

LuMa disse...

O problema é que Berlusconi levou um murro em pleno ar congelado mas a cara dele não rachou!

* Depois da neve veio o gelo aqui. E com ele aquela impressão de que alguns contestadores vão parar na Sibéria enqto todos estão abrindo espumantes nas festas...