Quase kafkiana

Primeiro de abril, testemunhas de jeová na porta.
Um casal.
Disse não, obrigado. Foram embora.

E se, pelo fato de hoje ser primeiro de abril, eles na verdade são de uma instituição bancária fuderosa e queriam me doar 1 milhão de euros após 3 horas de blablablá georgebushiano?

Bueno, não vi câmeras de tv.

Nunca saberei.

Manias, tias

De uns dias pra cá, fui pegando uma certa distância de café, do cafezinho diário.
É a idade, acho. Paladares.

No entanto, numa cafeteria bacana de um shopping local, comprei duas caixinhas de chás de marca indiana made in England, lichia e jasmim. Além do mate, camomila e verde que já tinha em casa.

Gosto de trazer a canecona e ir bebericando enquanto escrevo. O café logo esfria e fica um puá.
Chá não. Pode esfriar que continua tragável.

Além do after taste do café que só curava com um cigarro. Na verdade piorava, mas vai explicar isso pra fumante.

Como diria Jim Jarmusch, "café e cigarro, o lanche dos campeões". Assista "Cortina de Fumaça", ele diz isso pro Harvey Keitel.
Hoje em dia, ex-fumante há 2 anos, 4 meses e 20 dias, ainda bate uma vontade sincera.
Dizem que essa síndrome de abstinência é igual à da heroína. Que merda, hein?

Foi assim, num dia 10 de novembro resolvi parar de fumar. Peguei os maços, isqueiros e cinzeiros e botei num saco, tudo pro lixo. Por alguns meses, parecia que meus olhos só viam quadros de Bosch por todo lado.

Passou, é o que parece. Mas como eu disse, de vez em quando aparece um mini diabinho com um garfinho de bolo pra cutucar minha consciência e dizer acende, acende.
Vade retro, Luciferzito.

É o diabo do inferno astral

O Bush filho reinvadiu o Iraque porque estava no inferno astral. Fulano pegou uma gripe porque o sistema imunológico está em baixa porque está no inferno astral. Meu computador deu pau porque está no inferno astral. Eu ou ele?

O inferno astral é uma balela muito bem articulada por algum místico galhofeiro que ganhou uma grana preta com essa bobagem.
É assim: num período anterior à data do aniversário a pessoa sente-se triste e angustiada porque a alma está triste e angustiada porque lembra-se da data que deixou de ser um corpo etéreo para ser um corpo carnal. Olha só a bobagem que me dá vontade de virar a mesa e enfiar a bola de cristal nesse místico vocês sabem onde.
Eu nunca tinha sentido isso até saber disso.
Por conta dessa asneira, existem tratamentos com cristais, cores, mantras, cheiros. Pagos, claro. Não existe SUS para batas indianas e incensos.

Por isso, gratuitamente e aberto a todos, sejam materialistas científicos ou místicos transparentes sensuais, inicio a campanha do "PARAÍSO TELÚRICO".

É facílimo, a data base continua sendo o seu aniversário. Você pega 12 meses antes do aniversário e chama isso de PARAÍSO TELÚRICO, curte adoidado e faz a festinha no dia X. No dia seguinte ao seu aniversário já começa o seu novo PARAÍSO TELÚRICO.

Mas diz a lenda, até no paraíso tem cobra. Por isso, não se iluda, tudo isso é a vida, meu chapa.



Música era vida

Acabo de ler uma do Ivan Lessa: A grana que a Madonna faturou no ano passado é maior do que todos os músicos de jazz faturaram em cinco décadas. Estou falando de Duke Ellington, Bessie Smith, Miles Davis, John Coltrane, Herbie Hancock, Dizzie Gilliespie e ai vão. Cinco décadas.

Outro dia uma pessoa veio aqui e deixou um comentário. Era sua primeira visita e de praxe, fui lá no blog dela e dei um alô, muito obrigado e me deparei com uma foto da Regina Spektor, pianista russo-novaiorquina muito massa. Fiquei admirado que alguém cite RS como referência para audições e outras audições.

Isso significa que um pequeno pedaço do mundo está entendendo a diferença entre música e entretenimento. E faça disso uma bandeira num blog distante. Não que o entretenimento não seja legal, é muito. Mas em função disso e da necessidade de citar o quanto o álbum vendeu e não o quanto ele é generoso em, pelo menos, música, esse universo perdeu um admirador.

Para quem curte muvuca de vinte mil, não sabe que quatrocentos numa boa sala de audição é muito bom e suficiente, mas não rende. Claro, Slipknot cantando Fuck Them tem que ser para vinte mil.

Fuck Them (Trecho)
O que é que estou vendo?
Alguém com medo de mim?
Grande merda, eu me esqueci!
Desculpe, filhinho da mamãe,
você não consegue ser nem um pouco bizarro?

Eu citei Slipknot porque acho os caras o extremo absoluto de todo esse devaneio. É só diversão, feiúra, barulho, caos e hipnose. Eu acho legal. Não tão legal quanto Itamar Assumpção, mas legal.

Finalmente, descubro que RS está na trilha sonora internacional de uma recente novela projaquiana. Ótimo, Led Zeppelin, Chico, Caetano, Gil, Milton, Steppenwolf, Dylan, já estiveram em alguma novela.

O mundo não se resume ao indicador no buraco do cd. Mas em qual cd.

POLTA QUEU PAREO!

Vencida sua famosa correiofobia,
recebi o PACOTAÇO
contendo 3 livros e 4 revistas do
LAERTE!

Tutti poltamente autografado!

To me fudendo com a humanidade!

Hoje eu quero é só LER!

Tiros em Columbine

De todos do Michael Moore, só não tinha visto esse, o mais famoso, o do Oscar. Vi hoje.
O que me intriga, sempre, é o fato de que se existisse um Michael Moore em cada país, em cada cidade, muita coisa ruim seria exposta de tal maneira que, numa breve utopia, poderia até desaparecer.
Não, ele não é meu herói. Meus heróis estão mais pra Borat, Aureliano Buendía e Vincent Vega.

Um jornalismo desse gênero não ia dar certo no Brasil. Temos um pudor católico que esbarra no cinismo de um americano de esquerda.
Não mostre as criancinhas, vamos passar em horário nobre.
Mostre as criancinhas, vamos passar em horário nobre.

Michael Moore é um fenômeno da mídia muito típico, muito americanaço, muito barrigudo de Budweiser, pizza e Lincoln Classic na garagem.
Nós somos uma outra américa, uma américa que vive de costas para o resto de seus vizinhos, uma américa do atlântico sul, quente, que fala português e quer beber Budweiser, comer pizza e ter um Lincoln Classic na garagem.
Sem a barriga e o cinismo do cara, claro.

E outra, ou ia ser com grana do MEC, ou da Globo ou de um banqueiro. Não ia dar certo não.

Joelho ralado no asfalto

Um babacas bateram em paquistaneses no centro de Londres num dia desses. Se fosse no bairro de Whitechapel que cheira a curry e todos vestem suas túnicas, alguns carregam seus tapetinhos para as cinco orações do dia, nada dia teria acontecido.
Lembro de subir as escadas da estação do underground e dar de cara com um imenso prédio dos correios. Atrás dele uma mesquita misteriosa e ensolarada. Me senti em Islamabad.
Bateram por bater. Nem sentido político pós 11 de setembro havia na questão. As pessoas agridem porque é legal arregaçar a cara do mancebo na esquina.
Tão importante quanto isso é saber se o Mano vai entrar com dois ou três atacantes nesse domingo contra o Peixe lá no Pacaembu. Isso fragiliza o miolo do campo e a zaga.
E como se não houvesse uma corrente de relações entre coisas tão diferentes nesse mundo cão ou pão-de-ló, os ingleses inventaram o futebol, o Corinthians chama-se assim por causa de um team inglês que veio jogar no Brasil em 1910 e sempre tem porrada nos estádios.
Nem santistas e nem corinthianos são hooligans e ou paquistaneses, mas tudo parece ser um balaio de humanidades x neandertais por causa da bola - ou da fé.
Vou até ali ver a roupa no varal, ver se salvo meia dúzia do temporal.

Dois Paraguais, outros Brasis

Dois presidentes
O do Corinthians, folclórico e amado Vicente Matheus, na comemoração do título paulista de 1977 agradeceu à Antártica pelas Brahmas enviadas.
O dos EUA, conservador e canastrão Ronald Reagan, numa visita a vários países latinoamericanos, agradeceu aos brasileiros a hospitalidade e simpatia. E ele estava na Colômbia. Ou Bolívia.

Dois Brasis
O Brasil geográfico, imponderável, noticioso, hospitaleiro, malandro, esquizofrênico, das filas imorais e apolíticas, inconsequente, acalorado, o de Caminha, de Pelé, de Benjor e Arrigo Barnabé, de cheiros doces, de cravo e canela, de estádios de futebol que são pura poesia: Ilha do Retiro, dos Aflitos (PE), Brinco de Ouro da Princesa (SP), Mão Santa (PI), das Laranjeiras (RJ), da Ressacada (SC), o Brasil de todo mundo e de ninguém.
O Brasil do meu peito, que é esse aí em cima e também é só meu.

Agora, dois Paraguais? Com saída para o mar? Fez-se o sonho de Solano Lopez? E com desenhinho explicando? Só no Brasil. No meu e no seu.

A arte mútua


Antes de haver esse blog, havia outro, esse do banner acima.
Esta é uma auto-homenagem porque o ARTE MÚTUA não existe mais.

E era tão mais efêmero que o blog atual que nem arquivo tinha.

Conseguiram!

Com a crise mundial, os chefes de onde trabalho querem cortar pessoal, custos, prejuízos. É evidente, é assim que funciona o capitalismo.

Mas bocoiós como são, inventaram regras muito bocoiós para que nos tornemos bocoiós como eles.

Uma delas diz: "Cumprimentem-se alegremente em alto e bom tom".

Todo mundo se cumprimenta, a não ser os desafetos entre si, o que implica num respeitoso silêncio político de pessoas adultas que trabalham juntas. Natural.

Há uma silenciosa e nunca escrita regra hierárquica japonesa que diz que o superior não diz bom dia primeiro, é obrigação do subordinado - um eufemismo, afinal se um lhe é superior, ao outro cabe ser inferior - cumprimentá-lo.

Querem que todos os estrangeiros virem puxasacos, é isso.

Chefes asiáticos adoram bajulação por conta de Confúncio e seu confuncionismo, as regras do gordo e milenar dentuço chinês. Tais regras formam um conjunto de normas invisíveis que formam o caráter de todos asiáticos dentro de casa, na rua, numa empresa. Até trepando, acho. A nós, latinos greco-judaicos cristãos, resta ler tal circular, fazer um comentário jocoso e assinar.

Eu quero é que todos vão para a grande puta que os pariu, a imensa, a escrota, a doentia e venérea.

Antes do Amanhecer, Antes do Pôr do Sol

Ontem assisti Antes do Amanhecer de novo, 13 anos depois.
A gente envelhece, a arte não.
Da primeira vez foi em VHS em tv analógica, agora, DVD em tv digital.
Não posso e nem devo diluir o filme em considerações ou resenhas.

Cara, sou um romântico incorrigível!

E tem mais, ninguém atende um celular sequer em 100 minutos de tesão e desejo. Mas a cena em que estão num café falando ao telefone é genial.

Tem a continuação com os mesmos personagens Céline e Jesse chamada Antes do Pôr do Sol, que foi escrita a seis mãos por Julie Delpy, Ethan Hawke e Richard Linklater, protagonistas e diretor dos dois filmes.
Essa vou assistir hoje, colado na Nanci.

Otra cosita

Tenho a primeira edição brasileira do Watchmen aqui comigo, no Japão. Inteiraço, seminovo. Nos anos 80 li umas oitenta vezes. Nos anos 90, umas noventa. E depois do ano 2000, li outros milhares.
Agora tem o filme.
Desde já, digo que não vou gostar. Mas vou assistir, vibrar, rir, lembrar de cenas aqui acolá e dizer que podia ser melhor. Mas no fundo, no fundo...

Foi assim com V de Vingança. Falei isso e aquilo. No fim, acabei assistindo no cinema, na Avenida Paulista. Gostei do final adaptado e da Evey da Natalie Portman.

O From Hell ficou devendo, mas é um bom filme se esquecermos os quadrinhos, a versão original. Eita, tres clássicos de Alan Moore.

Sin City não vale, é hors concours, é uma grande aventura e experiência visual.

A otra cosita é que eu to dedicadão ao blog do Manuel Bandeira.

ESPERANDO ROSA

Chove um malmequer bemmequer desenfreado que ate dava pra controlar no comecinho, nas goticulas frouxas na queda do toldo. Agora com essa multidao de gotas-todas-gotas-right-now ao mesmo tempo agora igual no disco dos Titas, nao ha Cristo que faca a brincadeira do bemmequer sabiamente.Como dizer que me ama se todos os sinais gritam sins e naos ininterruptos?Aqui no toldo e' o quinto cigarro. Ultimo no maco. Ultimo. Tudo cabe no ultimo cigarro. Pode ser a bomba-relogio da despedida solitaria para comecar a caminhar ate a bilheteria para pegar o da meia-noite, voltar indefeso, frouxo e fraco para casa. Pode ser a primeira tragada no ultimo cigarro de hoje. Pode ser o milagre da multiplicacao e comecar a chover Montecristos cubanos de cem dolares. Pode ser um eclipse. Pode ser o ultimo cigarro antes do inevitavel enfisema. Pode ser o inicio de um incendio. Nao. Nao na chuva, Nunca na chuva. Nunca comece um incendio na chuva se voce nao estiver de guarda-chuvas, mesmo embaixo de um toldo de farmacia. Incendio mais bombeiros mais transeuntes notivagos curiosos mais charutos cubanos mais quase meia-noite nao combinam.Um vulto vindo da Santa Efigenia. No lusco-fusco inebriado cinza prata da chuva e lampadas-mercurio, acho que o vulto pode ser voce. Sem guarda-chuvas? Voce nao viria desprotegida, jamais. Talvez viesse nua e de salto agulha, uma aparicao matahari luz del fuego na minha jugular, mas num dia como esse, depois de um telefonema pe-na-bunda, jamais, nem nua ou sem guarda-chuva.Quando eu falei que queria o disco do Pixinguinha, falei brincando. Era pra citar aquela do Chico. Uma citacao, um engodo literario-metaforico-ironico de um trouxa sendo jogado numa van lotada de eunucos inconsequentes. Voce levou a serio, falou que devolvia, que era pra eu esperar ali na esquina da Sao Bento com Boa Vista. Ca estou. Serissimo. Frio de rachar. Ultimo cigarro. Incendio, chorinho, a flauta do Pixinguinha, tu eras minha rosa, tu eras divina e graciosa estatua majestosa do amor por deus esculturada. Ao diabo o disco do Pixinguinha. Ao diabo com tuas lagrimas, teus desejos, nossos jantares, nossos humores, os lencois. Ao diabo esse isqueiro que nao acende. Voce nao chega, nunca vira, nunca viria, nunca esperei. Ao diabo.

Manuel Bandeira, o blog


Voltei a escrever os poemas de Bandeira no blog que criei para ele em 2007 e desde então, andei com um grande problema técnico (computador japonês, sem acentos) e muita, mas muita preguiça.

Homenagens, tietagens, considerações.

O poeta do Brasil, de Recife e do mundo é o meu favorito desde a adolescência.

Todo mundo deveria ter um poeta predileto e dizer isso a todo mundo.

O que eu quero é que todo mundo goste de poesia e se estiver procurando um motivo, que o ache em Manuel Bandeira.

Hahaha


Um jornalista da Folha de São Paulo e a ditadura.
Na sua b, fascista de m.
Ditabranda é a casa do caralho.

Li também que tem um discussão que blogueiro não é jornalista.
Ora, jornalista não é blogueiro e
a rua é livre, pode passar na minha calçada, foquinha.


Enquete:

Entre
um fascista bonzinho, branco com sobrenome e heráldica, jardim de rosas no duplex, filhos em escolas particulares em carros blindados e cheirando a lavanda
e
um anarquista ranzinza que diz bom dia só em dias ímpares, vive de aluguel, sem filhos, mestiço vira-latas, pega condução todo santo dia e cheirando a sabonete de 1,99,

você prefere o que?

Comida é pasto

Domingo passado fomos ao Raizen Restaurant em Iwata comer teishoku (mais ou menos traduzido como "prato feito"). O missoshiro com kani (uma espécie de carangueijo gigante de Hokkaido) dos caras é um desbunde.
O grande lance de um prato japones é que primeiro você come com os olhos. A distribuição dos acepipes é uma pequena obra de arte.

"Yassai Furai Teishoku" - detalhe nas cores dos molhos.

"Sashimi Gossen Teishoku" - cujo peixe fatiado estava se mexendo, abrindo e fechando a boca.