CUIDADO COM OS PORCOS QUE ESPIRRAM - 3

Acima, três momentos japoneses de pré-gripe suína: Comida, jardim e a minha cara de porco.

É ofensivo e redundante dizer que o mundo está uma grande porcaria. Nem tudo faz parte desse mundo mesmo estando nesse mundo. Tomaste um banho? Tá limpinho e pronto.

A sujeira é apenas matéria fora de lugar. Limpar é remover tal matéria do seu espaço racional e usual para outro, geralmente um lugar fechado chamado lixo.

A sujeira pode escorrer pelo ralo. E vai para um lugar bem longe de sua louça, roupa ou corpo. Vai para aquele rio ali. Ou para o local que trata esgoto. Pensa bem, limpo esse lugar não é. O local de tratamento de esgoto TEM que ser autolimpante senão, imagina.

Se você matar um inseto na tela desse monitor, você vai transferir matéria orgânica para a ponta do seu dedo. Esse dedo pode pegar numa maçã. Se você comer com casca, bau bau.

Em dias assim de pequenos delitos mininazistas, evite comer maçãs.

A OMS (Organização Mundial da Saúde) só lida com doença, nunca com saúde.
A OMS disse que a gripe suína está num estágio de pandemia eminente.
A OMS não diz o que temos que fazer. Só diz que todo mundo vai se fuder: febre, tosse, dor de cabeça, cansaço e morte.
A OMS não diz nem se é pra comprar sacos pretos para embrulhar os vizinhos, suas garrafas, humanidades e caraoquês e queimar tudo feito um Torquemada alucinado.
A OMS disse pra todo mundo lavar as mãos e usar máscaras.

Evite muvuca tipo elevador, estádio, show de strippers, boates, bares fedorentos e tente agradar ao vírus usando uma máscara de porco, como estou fazendo. O vírus diz, oh, esse já tá dodói e sai fora.

Não leia Porcos com Asas, nem assista Porcos no Espaço (Miss Pig do Muppet Show), nem escute War Pigs do Ozzy ou aquele disco do Pink Floyd que tem um porco voando na capa. Tampouco acesse sua coleção de revistas Animal com as histórias do Edmundo, o Porco.

Conte para seus filho a versão do Lobo Mau para a farsa dos Três Porquinhos.

Torça pro Corinthians, é remédio na certa contra os suínos da Lapa.

E se aparecer um porco com sombrero na tua frente, não entre em pânico, só reze e corra sem respirar.

Então eu tiro o pé pra mostrar que tem gente aqui embaixo

Então clica na foto para ver o pé.

Fui ao centro da cidade bem cedinho, um pouco depois das sete. A repartição pública só abriria às oito e meia , mas cheguei nessa hora para pegar uma vaga no estacionamento, senão teria que pagar um estacionamento particular e é caro demais para um espaço onde um carro fica apenas parado.
Fiquei morgando no carro. Em cinco minutos, não pude evitar, deu vontade de ir ao banheiro.
Aqui no Japão, nessas horas, pensa-se logo num convenience store, onde os banheiros são limpos, sempre cheirosos, papéis e sabão na pia.
Vira ali, depois ali, cai na avenida e duas quadras depois tem um Circle K, perfeito. Como a situação era controlável, deixei o carro, catei a bolsa e fui a pé.
Na verdade eram quatro quadras. Tudo bem.
No caminho, passei por uma galeria subterrânea. Desde que assisti "Irreversível" com a Monica Bellucci, fiquei cabreiro com esses corredores. Mas ou era isso ou eu teria que esperar o semáfaro da avenida. Como desci correndo, fazendo barulho na escada, acordei um cara que estava dormindo. Ele disse "puta que o pariu".
Eu sei que todos os mendigos no Brasil são brasileiros. Pelo menos a maioria. Mas é muito difícil ver um patrício nessas condições no exterior.
Eu disse "desculpa ae, mano".
Fui no Circle K, banheiro etc e comprei uma refeição pronta e um chá. Quando voltei, ele estava cochilando sentado no futon. Cheguei perto, ele abriu os olhos e entreguei a sacola dizendo que era para ele. Ele agradeceu. Eu disse que o governo japonês estava dando o dinheiro da passagem e que ele poderia voltar para o Brasil. Ele disse que estava vendo isso.
Mentira. Dava pra ver que o cara estava se acabando na metanfetamina, ou cristal. Altamente viciante e destruidor, tanto ou mais que o crack. Ele tremia as mãos e os lábios - e não era de frio. A pele estava cinza, os olhos não conseguiam se fixar em nada.
Ficamos em silêncio. Então eu disse:
- Larga essa vida, mano, a pedra não tá com nada.
- Pode crer, mas vou te dar o papo reto, quem cai nessa vida, não sobe mais não, viciado é tudo sem vergonha. Valeu pelo rango e pela idéia, mano.
Expliquei que tinha um blog e que queria uma foto, se não fosse incomodá-lo. Ele disse que tudo bem, contanto que não aparecesse a cara. Ele deitou e se cobriu. Bati a primeira e ficou parecendo um amontoado de pano. Mostrei para ele e ele falou:
- Então eu tiro o pé pra mostrar que tem gente aqui embaixo.
E tinha, infelizmente.

Futebol New Age


As grandes manchetes do futebol são exclusivamente européias porque a maioria dos caras bons de bola estão lá. E elas falam em vitórias dos grande times de sempre, ingleses, espanhóis, italianos, portugueses, franceses e alemães com seus esquadrões formados por estrelas de todos continentes com valores e salários superfaturados por questões subjetivas e sempre irracionais.

Quem vale aquela grana, o homem Kaká ou o que ele representa?
O que é que ele representa?

Estão acontecendo três fatos importantes no futebol brasileiro que podem ser a semente de um movimento diferente desse êxodo de craques prematuros e desconhecidos. Qualquer movimento além disso que está aí pode ser a salvação psicológica de futuros Robinhos e Adrianos e consequentemente, a cura do futebol de uma camisa amarela que é vestida por fantasmas que moram em outro continente.

O primeiro fato chama-se Rogério Ceni que está há 18 anos no mesmo clube. O que levou o São Paulo FC a ter um tricampeonato brasileiro consecutivo está nitidamente vinculado a isso. Rogério deve ter jogado todo esse tempo com mais de 100 atletas diferentes e a todos mostrou sua liderança conquistada por ter todo esse tempo de casa. Respeitá-lo como líder em campo, capitão, craque e veterano é respeitar o clube, a instituição, o escudo.
O São Paulo FC e Rogério Ceni merecem o respeito de todos os torcedores do futebol por ter criado esse vínculo sutil entre o atleta e o clube. Retorno breve ao grande goleiro.

O segundo fato é o inusitado e vitorioso retorno de Ronaldo através da camisa do Corinthians. Poderia ter sido em qualquer clube que o resultado seria o mesmo. Os estádios estão lotados porque todos, torcedores corinthianos e adversários, querem vê-lo em campo. Não importa se ele vai entrar depois ou vai correr só quinze minutos, o que importa é que aquele distante e virtual ícone - um símbolo - em games, manchetes de jornais e cybertubes é aquele homem que está ali no gramado, no mesmo tempo e espaço de quem o assiste. O craque símbolo de uma geração vitoriosa e bicampeã mundial de seleções (1994 e 2002) está ali.

Esse é o grande brilho que o futebol brasileiro havia apagado com as passagens só de ida para a Europa de meninos pré púberes.

Se na partida final de ontem na Vila Belmiro o time do Santos estivesse com quase o mesmo esquadrão da turma de Robinho, Diego e Elano de um lado e Ronaldo de outro, o resultado poderia ser outro. Mas felizmente não foi.

O terceiro fato é que o grande inspirador de toda essa piada purgante de craques do nosso futebol, Ricardo Teixeira, presidente da CBF, está, a cada dia que passa, envelhecendo.
Todos nós, afinal. Mas ele segue na frente. E isso é um bom sinal.

Dizer que os clubes brasileiros não têm cacife para pagar os salários milionários dos craques é balela.
Pelé, Zico, Wladimir, Falcão, Waldir Peres, Ademir da Guia, craques do passado que praticamente fizeram sua história num clube só. Todos legítimos campeões e consagrados por suas torcidas. Quanto vale a história de Zico no Flamengo, seus gols, passes, títulos? Para mim, muito mais que a cara de David Beckham e sua esposa na capa da revista, no hall da fama das celebridades, caras & bocas.

O que importa na vida de uma pessoa é a sua história e não a quantidade de carros esportivos na garagem.
A gente quer ver o craque em campo, na nossa cidade, no nosso time e não num torneio distante, na tv a cabo, num time impronunciável.
A gente não sabemos tomar conta da gente.

CUIDADO COM OS PORCOS QUE ESPIRRAM - 2

Gripe suína, beijo higiênico - casal mexicano lambendo máscara.
Tá na UOL.

CUIDADO COM OS PORCOS QUE ESPIRRAM


Está escrito espirram.
Dizer que a gripe suína é mexicana é uma maldade. Atualmente o foco pode ser lá, mas toda gripe nasce na Ásia, a original, os clones e variações.
Esta, H1N1, é uma variação da H5N3, a gripe viária.
Há alguns anos o problema era a vaca louca. Depois as migrações intercontinentais de pássaros levando a gripe e agora, os porcos.
Não culpem os vegetarianos, não é catiça dessa gente boa.
As autoridades sanitárias - que geralmente nunca pegam a doença, mas sabem de todas - estão com medo de uma pandemia a partir do México. Dizem que há um foco em Nova Iorque e outro na Califórnia. Os EUA estão com focos de costa a costa e isso não é bom.
Alguns vôos entre o Brasil e Japão passam pelos EUA, tanto na costa leste (Nova Iorque, Atlanta, Miami), quanto oeste (Los Angeles, Seattle). Os aeroportos japoneses intensificaram a fiscalização.
A grande maioria dos infectados são pessoas que lidam diretamente com os suínos. A minha preocupação é que aqui em Hamamatsu, os pequenos produtores rurais usam fezes de porco para adubar. Eu sei por causa do cheiro que fica só de passar de carro.
Pandemia virou sinônimo de porcaria.
Os sintomas da gripe suína em humanos são similares àqueles da gripe convencional - febre superior a 39oC repentina, tosse, dores musculares e cansaço extremo. Esse novo surto, aparentemente, também causa mais diarreia e vômitos que a gripe convencional. A maioria dos infectados parece estar na faixa de jovens adultos, pois as crianças e idosos que foram vacinados contra o vírus da gripe comum têm suas resistências imunológicas fortalecidas.
Mas o eterno e grande segredo está em lavar as mãos patati patatá. Higiene básica e tudo bem.
E vá de escada, evite elevadores.

Chegou!

Caem muros, governos, déspotas, ditadores, constituições. Só não cai a idéia. Jamais.

Por causa da crise financeira mundial (essa ai mesmo, essa que já encheu o saco), o governo japonês resolveu dar a todo mundo que está com o registro residencial em dia, uma ajuda de 12 mil yenes, que dá uns 240 reais.
Dar.
Para quem tem mais de 60 anos e menos de 18 anos, a ajuda é de 20 mil yenes, uns 400 reais.
Tem ainda uns adicionais para crianças em idade pré escolar. Mais grana.
Dar.
Aqui em casa chegou o cadastro para preencher e mandar de volta com o número da minha conta corrente. Daqui um mês cai na minha e na conta da Nanci.

Você pode perguntar: Mas o Nei não é estrangeiro?
Sou. Somos. Mas a a gente paga imposto, faz o capital girar e ainda produz. Nada mais justo repartir o pão por igual.

É a primeira vez que vejo o socialismo chegar pelo correio.

A vaca que desmaia


Comprei uma Vaca Que Desmaia e um Hipopótamo Que Também Desmaia porque estavam tomando poeira numa loja de 100 yen (o equivalente ao 1,99).
Além do preço irrisório, tem a utilidade para ambos que é absolutamente nenhuma.
Mentira. Quando eu estiver conversando com minhas sobrinhas que moram na Europa (5 e 2 yo) pela web, essas traquitanas vão render um Muppet Show particular.
Lá na loja tinha um gato e um outro bicho que não lembro. Mas a Vaca é antológica e o Hipopótamo tem uma cara muito boa. Tinham que vir pra cá.

Fotos que eu gosto de bater


Quem te viu, quem te vê

Foto típica dessas caminhadas

Nunca fui de praticar esporte nenhum, gosto de sofá, controle remoto e um filme atrás do outro. Ou mesmo futebol. Sou um esportista teórico.

Fiz meus gols na adolescência, alguns antológicos que só eu lembro, mais ninguém. Já fiz gol de bicicleta, de peixinho e sem-pulo, um de cada. Os outros, pouquíssimos, na casa das dezenas, redundantes gols genéricos em quadras, campos e muitos, quase todos, no futebol de rua ali na Rua Miguel Carlos, uma rua curta e larga paralela à avenida Senador Queiróz, perto do Mercadão.

Como tudo que cultivo desde moleque, sempre transporto as formas da vida para que tenham uma cara artística, moldada na sensibilidade em cores, notas, palavras, movimentos, que seja. É uma tendência pessoal. Por isso, até mesmo o futebol de rua da Miguel Carlos virou arte. Arte suja e podre, mas muita arte, de pintar o sete.

Numa tarde de domingo modorrenta e tediosa, só preenchida pelo futebol, entrei numa dividida com o Léo, um garoto ruim de bola e de pé extremamente duro. A bola foi, meu pé ficou e ele chegou forte. Caí, retorci de dor e não era encenação.

Fiquei um mês engessado, tornozelo torcido, imóvel, eu e duas muletas inseparáveis. Fui até num show de uma banda de funk soul instrumental no MASP. Suingando com duas muletas, bro. Nunca mais joguei futebol com a mesma disposição. Disposição, não leveza e virtuose, é diferente.

Como nunca achei graça em outro esporte coletivo além do association, parei de fazer coisas que suassem. Basquete, não. Volei, nem pensar. Handebol, o que é isso?

Aliás, correr por correr, não vejo graça até hoje. Não tem uma bola na frente, nem uma baliza para encerrar o assunto.

Nessa época do acidente com o Léo - que seguiu carreira militar, pelas contas deve ser um jovem oficial hoje em dia - o Bado veio morar no bairro. O Bado é uma das figuras mais punks do mundo. Montamos uma banda punk-rock homenageando o futebol da rua de trás: Miguel e Seus Ex.

Essa é a explicação para o nome dessa banda que também só é inesquecível para quem tocou nela: Pirulão, Grego, Tony, Lennon, Bado e eu, éramos os Miguel e Seus Ex.


II

A banda acabou, o Collor chegou e meses depois do confisco eu estava desembarcando aqui. Estou há 18 anos nesse vai e vem entre dois hemisférios.Cheguei até a jogar um futebolzinho chinfrim com outros compatriotas nessas plagas. Eu acho que era mais uma necessidade de criar um fator de identificação com o Brasil lá longe do que querer praticar um esporte, a coisa de suar.

Desisti. Os brasileiros que jogam futebol - para se divertir! - por aqui são muito "profissionais". É a coisa da identificação mesmo. O prazer do gol, da vitória, da derrota, da cerveja e do sarro não existem. O que existe é um bando de cara chato metido a boleiro. Puá.

Mas, pasmem, de um mês para cá resolvi caminhar.

Então é assim, acordo uma hora mais cedo - às cinco e meia - e vou pra rua sem nem pensar, porque se pensar, fico. Claro, levo a câmera, sempre tem alguma coisa interessante. Hoje tinha a parede que a minha vizinha derrubou com a traseira do carro. Mas não vou publicar essa foto, não vou levar essa fofoca ao extremo da imagem.

O grande lance de caminhar pode até ser ir caminhar e suar e saúde, blablablá. Mas o melhor mesmo é ter a câmera esperando um clique, um olhar, uma cor. E te digo, às cinco da manhã tem uma luz muito boa.

Além do que, todo provérbio existe porque é verdade e está provado o que ele contém em rima, palavras e sabedorias: Paguei com a boca. Eu que achava que caminhar era uma besteira urbanóide para vender tênis de marca, descobri que é legal e faz a diferença mesmo.

PORQUINHO-DA-ÍNDIA


Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor de coração me dava
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
Levava ele prà sala
Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos
Ele não gostava:
Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia nenhum caso das minhas ternurinhas...

- O meu porquinho-da-índia foi a minha primeira namorada.
Criei um blog só com poesias de Manuel Bandeira por causa dessa lírica.
Acho que foi uma das primeiras poesias que li na vida. Para sempre.

NAS RUAS


Quando vi, achei que atrás da caixa havia uma banda de rock de formigas, Os Joaninhas. Nada não, era só lixo humano mesmo.
É, se eu fosse formiga teria uma banda de rock chamada Os Joaninhas.
Se eu fosse formiga ia achar que uma pedra de dominó em pé era o monolito do filme 2001.
Ia me olhar aqui em cima lá de baixo e dizer: cada idéia de jerico.
Se eu fosse jerico ia dar um coice federal nesses falantes.

AFTER EMPILHADEIRA

O livro, a carteirinha e a minha cara de empilhador profissional.

São gêmeos, duas bolinhas de vida pulsando na vida do meu chapa japonês.
O brazuca que está no curso copiou esses garranchos do livro acima. Tudo é uma questão de passar a bola, girar o jogo, movimento, constância, coletividade. Ele vai se dar bem.
Me dei bem, passei no exame prático sem erro, ponto máximo e fui elogiado no exame teórico. A prova é a carteirinha com a minha cara empilhada.
A essa hora, o Nescafé extra forte deve estar impregnando a casa, a vida do Imada, o japa chapa.
Aqui tem café, mas agora rola um chai indiano. Acho que é, tem um Taj Mahal na embalagem.
É, vou fazer um curso básico de enfermagem e cuidar de velhinhos em asilo. Mas e a empilhadeira? Não sei, e se depois de enfermagem eu resolver ser sushi man ou Ultra Man? Ou cantor de boleros ou auditor da secretaria das finanças do município?
Essa relação da pilhéria tropical com renascentismos múltiplos gera uma tremenda satisfação. Ulalá.
* No fundo de tudo, PIRATAS DO TIETÊ - ano II, 13. Cara, era Cr$ 5,000 - como se lê isso?

AROUND EMPILHADEIRA

Hoje é o dia do exame prático e escrito de empilhador, piloto de empilhadeira. Dia D.

Na prática, é um automóvel que ao invés de virar as rodas da frente, vira as de trás. E num carro comum, o ângulo de giro da roda chega a quase 40 graus, na empilhadeira, a 70 graus. Vira bem o bicho.
Freios a tambor só na frente. Suspensão nula, é um carrinho de rolimã com o piloto a 1.50m do solo, duro feito um cd.

Na teoria, é um livrinho de quase 250 páginas todo em japonês. Tem capítulos jurídico, mecânico, técnico de volante e uma aulinha básica de física. Tem um japa que está me ajudando e muito. Ele gosta de futebol e eu tenho muitas histórias de futebol. Ganhei o moço nas quatro linhas. Ele nunca ouviu falar em Sócrates, imagine. Eu to falando do meio campo da seleção, não do grego. Mas eu ensinei a técnica do pé de apoio junto à bola na hora do chute a gol. Ele falou que vai ensinar o filho dele que ainda está na barriga. Ele disse que enquanto conversávamos, a mulher dele estava no hospital fazendo ultrasom para confirmar se eram gêmeos.

Ontem falamos de café, do folclore criado sobre nossa bebida nacional.
Aqui no Japão vende-se muito café em lata nas máquinas automáticas em qualquer esquina. Em lata. Apesar de ser baratíssimo, quase ninguém tem um coffee maker e ninguém conhece o maravilhoso filtro de pano. Café na lata ou nos coffee shops xiquis, Starbucks, Doutor ou Bad Ass. O expresso curto do Doutor é muito bom. Curto e grosso feito aqueles em Milano ou Firenze.
Para agradecer ao japa-meu-mestre, e seguindo uma tradição local de agradecer com algo comestível, comprei um pote de café solúvel da Nestlé brasileira, um troço escrito extra forte. Hoje ele não dorme. E vou indo que tem que chegar antes pra eu passar meu livro forrado de anotações estrambólicas - pelo menos em português - para um outro brasileiro que está estudando lá e vai fazer os mesmos exames no sábado.

Semana que vem vou agendar outro curso. Enfermagem?

SURPRESAS

Poster do filme "A MARCHA DE TOKYO" (Tokyo Koshin Kyouku) - 1930

Ainda não assisti o filme, mas me chamou a atenção esse poster de 1930, totalmente Kandinsky, artista russo do começo do século XX, contemporâneo do filme.
O detalhe dos kanjis modernosos, e pelo fato de serem a única referência japonesa num desenho ocidental, quase Bauhaus, denota a abertura dos horizontes do diretor Kenji Mizoguchi num momento militarista e xenófobo do então sagrado império japonês.
Para todos nós que gostamos de cinema japonês pós Kurosawa, surge essa referência importante.
Pelo menos na idéia do poster.

O SACO TARJA PRETA

O atual vilão do planeta é o saco plástico de compras que a gente ganha para empacotar (embrulhar, ensacar?) as compras no comércio. Dizem que demora séculos para se dissolver in natura. A pergunta imbecil que me fizeram foi de quem viveu e viverá tanto para ve-lo dissolver? A sua avó.

Não ganha mais, pelo menos aqui no Japão. Em muitos supermercados estão cobrando 5 yenes por saco (R$0,10, mais ou menos). Todo mundo está indo com a sua própria sacolinha. Se considerar que as donas de casa japonesas fazem compras todos os dias, dá mais ou menos 2000 yenes de economia por ano. Quase enche o tanque do meu carro, por exemplo.

As donas de casa japonesas vão para as compras todos os dias porque sai mais barato. Pega-se a promoção do dia e além disso, como a culinária básica é peixe ou frutos do mar, TEM QUE SER FRESCO, senão dá merda.

São chamados frutos do mar, mas são todos bichos, estranhos bichos de olhões e tentáculos, crustáceos, moluscos, animais que para mim são insetos do mar, mexilhões feios e fedidos. Eu não posso comer os carangueijões de Hokkaido. Dá piriri, dá merda.

Algo estranho acontece com os sacos, em alguns produtos, em alguns comércios. Se a pessoa compra uma caixa de camisinhas ou um pacote de absorventes higiênicos, eles colocam numa sacola preta. Um saco tarja preta. Uma espécie de censura prévia para denotar que o que a pessoa está carregando é para usar nas partes pudendas. Ou seja, dedura quem está no período menstrual ou quem está com tesão.

Se o saco tarja preta está lá para preservar a intimidade da pessoa, deu-se um tiro no pé.

Ou melhor: matou piolho com martelo.

Ovos

Hoje é Páscoa, dia de comer ovos de chocolate.

No Japão não tem essa tradição não. Chocolate para presente rola nos dias de São Valentino, em fevereiro (ela dá pra ele - uma redundância?) e no White Day, em março, onde ele dá pra ela. Os pacotinhos são bem bonitinhos. Aquece bastante o comércio dos docinhos de cacau. Rola de Godivas a Nestlés.

Até o ano passado, as lojas brasileiras faziam a decoração da Páscoa com aquelas cavernas de chocolate, com centenas de ovos de todos tamanhos pendurados brilhando seus celofanes que são assim desde a minha infância.

Nanci e eu nunca compramos ovos de Páscoa. Não que não quiséssemos. O fato é que o chocolate japonês é bem melhor.

Nesse ano a coisa está feia, nem um coelhinho. Não que eu frequente várias lojas, são poucas e as tais estavam comedidas com seus estoques. Até tinha um ovo ali, outro acolá. Mas tudo muito pequeno e denotando a crise mundial.

Básicos. Estamos básicos. Fica claro que as comemorações estão e são esvaziadas e recatadas.
Tomara que isso tudo passe e as cores voltem em forma de ovos ou noéis.
Pelas crianças, pelo menos. E feliz Páscoa pra você.

Verão

Na berlinda. Na rabeira do caminhão.
No chinelo de dedo.
Na lata de cerveja derretendo na mão.
Quase lá.
Quase aqui.

Vou matar um alien



Amanhã começo um curso de manuseio de empilhadeira. Em toda fábrica que trabalhei pilotei um desses porque às vezes era mais fácil ir buscar algum materia de trabalho do que pedir para um chefe. Era eventual.

Eu vou fazer esse curso porque é um complemento para que eu possa trabalhar como caminhoneiro, por exemplo. Do jeito que a crise está, é preciso buscar outras possibilidades de trabalho. A idéia de tornar-me um caminhoneiro é viável, pois de dois anos para cá, quem tem carta de carro comum, cambio automático e manual, pode dirigir caminhões de até oito toneladas. Antes era quatro.

Existe também a opção de armar-me como fez a Sigourney Weaver em Alien-4 (se não me engano), onde ela usa uma empilhadeira exo-esquelética numa luta contra o bichão. O máximo que eu posso fazer é rasgar a lataria de algum carro com aqueles garfos. Vai doer no bolso, não no bichão.

Então, boa sorte pro meu professor.

Melancolias

A tristeza te alcança entrando plena e rasteira pelo vão da porta, pela fresta da janela, pela escuridão de dentro do cobertor.

Desencadeia uma série de eventos físicos: diurese, cabisbaixismo, tendência a ouvir cantores que já morreram e a descoberta de que a retina enxerga em preto e branco - na alma. Pode-se chegar ao extremo de assistir a um tele "super" drama japonês com uma sinopse recheada de cânceres, hospitais, tabefes na cara, conversas infinitas, velórios com orações búdicas, crianças felizes nos primeiros capítulos e absolutamente doentes no final, mensagens sábias de avós ou cena com olhares vazios no infinito acompanhado de um monólogo de efeito que vai marcar o enredo todo. Final com todo mundo na merda, mas com a cabeça erguida.

Lupicínio, Kurt Cobain, Billie Holiday, Cartola, Edith Piaf, Joy Division, Leonard Cohen, Carpenters.
Cortar a mão lavando a louça.
Televisão ligada com botão mute em on.
Celular registrando a última ligação há cinco dias.
Ler uma página inteira e não lembrar nem do título do livro.
Ou o nome do autor.

Final com todo mundo na merda, mas com a cabeça erguida.

SAKURA





A flor de cerejeira aparece num domingo e morre no outro. É tão efêmera quanto a energia elétrica na ponta de um fio desencapado. Se ninguém tocar, para onde vai? A árvore (sakura no ki) passa o ano inteiro sendo a árvore mais feia de todas. Se a pessoa não a vê em flor, plena e total - exibida - não sabe que aquela árvore com cara de conto de Edgar Allan Poe é uma cerejeira. Sim, há corvos aqui. Dedéu.

Estas fotos tirei num passeio com a Nanci, anteontem. Fui para as montanhas ao norte, seguindo a rota 152 e achei esse véu de noiva. Ontem (domingo), isso aqui deve ter bombado de famílias fazendo piquenique embaixo das árvores. É a tradição na chegada da primavera.

Tudo isso na margem leste do Rio Tenryu, 50 km de casa.

MÁQUINA DE ESCREVER







A artista britânica Keira Rathbone usa uma máquina de escrever antiga para fazer retratos e desenhos.
Clique no nome dela para visitar o site.

Mondo cane


O cara entrou atirando. É fácil, na ianqueland você vai numa loja de armas, cartão de crédito no balcão, leva uma metralhadora e manda bala em qualquer um.

Depois daquele austríaco do porão, apareceu um polonês com dois filhos da filha e agora tem essa retardada que não conseguia engravidar e estava dando a filha pro namorado engravidar. A menina tem 13 anos.

A candidata a deputada federal no México é trans e foi ameaçada de morte por não ser o que aparenta ser ou ser exatamente o que aparenta ser ou ser o que nunca gostaria de ter sido ou não ser nada disso e porra, a vida é bela.

Os coreanos do norte armados, a Ásia, republiquetas do pote de arroz e ditadorezinhos ególatras.

Eu acho que na intimidade solitária do sagrado trono dos encurralados (etimologicamente, confirmo), o coreaninho se pergunta: Porque Gaza é mais importante do que eu?

Vencedor do Oscar 2009 de Filme Estrangeiro

FILMAÇO! FILMAÇO! FILMAÇO!

Japão oferece ajuda para imigrantes desempregados deixarem o país

O programa lançado pelo governo prevê ajuda de ¥ 300 mil para brasileiros e peruanos

O Ministério do Trabalho, Saúde e Bem Estar Social lançou na quarta-feira (1º) um programa polêmico, que oferece ajuda financeira a brasileiros e peruanos descendentes de japoneses que vieram ao Japão como dekasseguis e agora enfrentam uma grave situação de desemprego por causa dos efeitos da crise econômica mundial.
Segundo a medida, cada estrangeiro que aceitar deixar o país poderá receber ¥ 300.000 (US$ 3.000), além de ¥200.000 por cada dependente. No entanto, os imigrantes que aceitarem o incentivo não poderão mais trabalhar no Japão.
Somente poderão regressar como turistas ou com outro visto de trabalho. Também foram estabelecidos requisitos, como não possuir bens no país.
Segundo o relatório do Minsitério da Justiça, em 2006 havia cerca de 310 mil brasileiros residentes no Japão. Trata-se da terceira maior comunidade estrangeira do país. A maioria desses imigrantes trabalhava com contratos temporários no setor manufatureiro, principalmente em indústrias automobilísticas e de eletrônicos. Mas com a crise econômica mundial e a forte recessão enfrentada pelo Japão, muitos foram demitidos e não conseguem recolocação no mercado de trabalho.
Um levantamento do Ministério do Trabalho mostrou que cerca de 9.300 estrangeiros se inscreveram nas agências públicas de emprego entre novembro de 2008 e janeiro deste ano. O número é 11 vezes superior ao registrado entre novembro de 2007 e janeiro de 2008, destacou o ministério.

ipcdigital.com e agências

Os nossos são melhores?

Tem a reforma ortográfica portuguesa mundial, de Macau a Timor Leste, de Sintra a Pelotas, De Cabo Verde aos 300 mil brasileiros no Japão, enfim, todos nós da última flor do lácio.
Somos bons em analfabetismo. Basta ver que um dos grandes sucessos da internet são as fotos de cartazes, placas e letreiros espalhadas pelo Brasil escritas de forma inculta e bela*.
Como anda o analfabetismo do além mar? Será que somos um fenômeno ímpar no idioma? Não creio. Entre Bandeiras, Camões, Drummonds e Pessoas, há imensos parágrafos preenchidos com digitais e formas toscas e tremidas de assinaturas.
Se somos um povo que não lê, o círculo se completa com o fato de que somos um povo que não escreve. Ou não aprendeu.
Mas temos que insistir.


*Eis o poema de Olavo Bilac:

LÍNGUA PORTUGUESA

Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...

Amote assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

Em que da voz materna ouvi: "meu filho!"
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!


A expressão "Última flor do Lácio, inculta e bela" é o primeiro verso de um famoso poema de Olavo Bilac, poeta brasileiro que viveu no período de 1865 a 1918. Esse verso é usado para designar o nosso idioma: a última flor é a língua portuguesa, considerada a última das filhas do latim. O termo inculta fica por conta de todos aqueles que a maltratam (falando e escrevendo errado), mas que continua a ser bela.