Fotos que eu gosto de bater

Bicicletas no cais de ferryboat em Irago, Aichi ken.

TOP4 - Vitória!

Einstein disse que "Deus não joga dados".
Os profetas do antigo testamento gritaram pelo Salvador nos desertos feito um Obi Wan. Ou doze, segundo o Aleijadinho.
Se eu fosse um profeta, apostaria nos dois ladrões. Não ia perceber que no miolo da história haveria uma terceira pessoa, eu, tu, Ele.

Entrei nessa aposta do TOP4 só pra encher linguiça. No mesmo dia fui à lotérica apostar no Loto-6, semanal.

Acertei quatro dezenas. Não vou ficar milionário. Mas paga a gasolina de dois carros por quatro semanas.

TOP4

Se você vive em Hamamatsu ou arredores, passou da meia noite, seu carro está com o tanque cheio e você não aguenta mais ver filme ou correr para cá, TOP4 de lugares para ir, só ir:

1. Dar um rolê no centro para ver os bêbados.
2. Pegar a Rota 1, tanto faz indo para Tokyo ou Kyoto. Se for Tokyo, parar em Shimizu e ver o nascer do sol em Nihondaira. Se for Kyoto, fazer a mesma coisa no porto de Toyohashi.
3. Pegar a rota 152 e se perder nas montanhas da divisa com Gifu.
4. Pegar a rota 42 e ir até o porto do ferryboat para Toba e tomar um café da manhã na porta de um convenience store.

São 3:25 am e to indo.

TOP4 - Filmes reassistidos e introdução ao tema

Resolvi abrir outro espaço nos escaninhos do Estrovengas, os do TOP 4. Podia ser 5, mas

quatro é perfeito. Cinco nunca foi um bom número. Cinco é péssimo para irmos a um restaurante, por exemplo, três conversam de um lado e dois guardam segredos.
Rachar a conta é uma missão. Nunca alguém está com a moeda que faz a diferença.

Tente rachar uma pizza em cinco. Ok, duas pizzas.

Cinco não ficam satisfeitos dentro de um fusca. Nem mesmo de um Gol. Nem mesmo numa viagem de ônibus.

Não existem 5 cavaleiros do Apocalipse. O Led Zeppelin tinha quatro caras. O Black Sabbath também. O Deep Purple que sempre foi um quinteto, é um saco. Não me digam que os Rolling Stones têm cinco porque o Mick Jagger não vale por um, vale por dois e como é o cérebro que indica se a pessoa está viva ou morta, o Keith Richards não conta. Até mesmo Os Três Mosqueteiros são quatro.

Coisas boas com cinco: os dedos das mãos e pés. Miles Davis Quintet. As vogais. A primeira e a segunda formação do The Yardbirds. As cinco faixas do disco Kind of Blues do Miles Davis. Os cinco sentidos. Os cinco buracos da cara. Quatro rodas no chão e uma na mão. A Família Santos, de Nakatajima.

O TOP4 que estou publicando é pessoal, não serve como referência para nada. Nem é pontual, conceitual, não existem medalhas ou méritos.

O primeiro TOP4 é dos melhores filmes reassistidos neste mês:

1. RAINHA - Stephen Frears
2. A VILA - M. Night Shyamalan
3. NOITES DE CABIRIA - Federico Fellini
4. AMARELO MANGA - Cláudio Assis

Mas se eu tivesse assistido a trilogia Godfather, Matrix ou Bourne, o TOP4 seria de três.

O gueto

A Coréia do Norte quer jogar uma bomba atômica na Coréia do Sul.

E tudo a 1000 km daqui, se muito.

É como se a torcida do Flamengo tivesse uma ogiva nuclear e ameaçasse a torcida do Corinthians.

Abrem-se as cortinas do apocalipse e eu na primeira fila, sem pipoca.

Caderninho de psicanalista

Tá uma ventania lá fora que tá tirando o planeta de órbita.

Nada além de papo

Nada maior que isso aqui, essa cadeira, o chão, as teclas e essa vontade de dizer qualquer coisa melhor que ontem.
Sempre.

Gosto de palavras, todas. Gosto de significados inteiros, das infinitas ilusões que um significado nos leva. Gosto de "serendipity", não vou mastigar não, tem lá no googlão, tem tudo lá.

Gosto de palavras que para serem faladas são feitos muitos movimentos diferentes da boca, língua nos dentes, no pálato, recuo de lábios. Diga "subserviência" e sinta-se o máximo, não por sê-la, mas por dizê-la.

Uma palavra atrás da outra. Há milênios estamos dando nomes às coisas. Desde que nascemos damos nomes às coisas que vão mudando de forma, sem perder sua essência. A sequencia é essa: punzinho, peido e gases. Papinha, comida e refeição. Mãe, mãe e mãe. Elas nos ensinam o princípio, o necessário para acharmos que já é. Pois é.

Uma vez eu perguntei ao maior cartunista do mundo porque ele não escrevia uma graphic novel, uma coisa imensa, um livro. Ele só me perguntou de volta: Para que serve um livro?

Nada mais inútil que um livro. A gente lê, se emociona e larga ele na estante feito um troféu. Eu não largo os meus. Releio, reemociono, regargalho. Queria me desprender deles todos e dá-los, mas como? São apenas palavras após palavras e nada daquilo me é útil de fato, mas não largo.
Um livro lido, já foi lido. Um livro nunca lido, ele não existe. Se me explicarem o fetiche que um livro exerce sobre mim, eu nunca mais leio.
Eu amo a literatura. Amo as palavras. Mas pra que? Blogs, redações, dissertações, teses, doutorados, mestrados, nada além de papo, uma boa conversa, um assunto a resolver.

Livros são diálogos silenciosos. Toda guerra, gritaria, escatologia, amor, idéia, filosofia, desespero de um livro já estavam no leitor.
Raramente algum autor nos dá uma nova emoção, uma sensação sem nome, algo que está apenas naquela página, naquela frase, naquele livro.

Para mim, uma das coisas mais perfeitas em literatura é a descrição que GG Márquez faz do cigano Melquíades em Cem Anos de Solidão. Desde o dia que li, acreditei em umbanda e sei que esse cigano é meu encosto.

Down de dente

To fazendo um tratamento dentário. Na semana passada fiquei boquiaberto tres vezes. No final das contas, tive que extrair um dente. Não é uma decisão fácil, nem pra mim, nem pro dentista. Menos pro dente.

E resolvi marcar a extração pra uma segunda de manhã. Ou eu gosto de juntar dor ao sofrimento, ou sou alguma reencarnação de um algoz de Torquemada e quero pagar meus karmas nesses dias de pré-verão.

Na verdade, tinhamos marcado um churras para o domingo, que choveu. Marquei para a segunda porque achei que depois ficaria inválido para uma picanha no ponto. E choveu o dia inteiro.

Acordei na segunda muito mais cedo para fazer tudo que tinha que fazer, como aqueles clichês de Hollywood quando a pessoa vai para uma cirurgia ultra invasiva e antes dela, resolve toda a vida. Bueno, resolvi uma segunda de manhã, o que já é o suficiente para uma extração, uma pequena cirurgia, uma invasão da minha boca.

Mas claro, há a sensação de que uma coisa que está comigo há décadas vai pro beleléu.

Não foi, arrancaram-no e pedi o pequenino pra mim, enrolaram numa gaze e pus no bolso da bermuda. Não acredito em fadas, nem em moedas embaixo do travesseiro, aliás, não acredito em mitologia norte-americana, distorção esquisita dos celtas, mas é meu, vem pra casa. Tomei uns pontos na gengiva e o doutor me receitou um branquinho analgésico e um vermelho cicatrizante ou antiinflamatório, acho. E essa combinação dá um barato esquisito, um down, uma amargura, tristeza, uma vontade de ser depressivo depois de jantar. Uma bosta.

Para que não pensem que eu sou um porcão, eu escovo muito os dentes, tenho fio dental até no portaluvas do carro, Listerine diariamente e acho mal hálito uma péssimo hábito.
Perder esse dente foi triste.

Existe um preconceito muito grande com dentistas japoneses. É uma farsa. O que há é um medo babaca generalizado, seja um dentista brasileiro ou japonês. São iguais, os instrumentos são iguais, motorzinho, luzona na cara, tudo igual.
É melhor um dentista na vida que um passo atrás por causa do bafo.

CONSERTANDO O TELESCÓPIO (DO UMBIGO)

Milhões de dólares a cada voo. Mais outros tantos a cada pouso. Muitos outros só da nave Challenger estar parada no hangar climático. Uma Daslu para ETs.

Agora eles estão lá em cima consertando o telescópio espacial Hubble. Ótimo, fotos maravilhosas de supernovas explodindo, sóis morrendo, encontros casuais de galáxias a distâncias sobrenaturais, é preciso nascer e morrer alguns infinitos para testemunhar tais eventos ao vivo.

Enquanto poucos cientistas e militares ficam entretidos com tais conquistas espaciais enxergando tão longe com tais apetrechos, seis bilhões de outras pessoas ainda calibram sua miopia social, cultural e fraternal.

Mas eu.

Entre um foda-se e outro, ora enfio a cabeça num buraco feito um avestruz, ora olho através do Hubble da minha insociabilidade, desumanidade e arrogância.

TÁTA

A Táta é uma tartaruga cujos avós nasceram nos Everglades da Flórida. Os pais dela nasceram em viveiros japoneses feitos para criação comercial desses seres mal humorados. Répteis são famosos por seu humor.
Ela não abana o rabo, não lambe a minha cara, não busca o jornal, não tem ciúmes, não faz nada que indique emoção. Ela só sente fome e saiu da hibernação há um mês. Dorme seis meses por ano.
Mas quando está com fome olha pra mim e caminha em direção ao viveiro batucando, batendo a bunda no chão.

Caderninho de psicanalista

Bolachinha água e sal - se tiver sal salpicado por cima, melhor - com doce de leite de lata de leite Moça.

Larica. Larica. Larica. Larica.

A ética de Freud é diferente da ética de um bife gritando na frigideira.

Aquele passarinho NÃO vai cagar no alpendre, NÃO! NÃO! NÃO!

Fiadaputa cagou.

Fé nas coisas

Não acredito em pilhas e baterias. As pilhas são coisas que dão vida aos produtos eletrônicos. Elétricos e eletrônicos são a mesma coisa só que uns são na tomada, outros levam pilha. Pobres lanternas, por seu design desfavorecido, levam pilhas no bumbum.
Não acredito nas pilhas pois deveriam durar muito mais já que são a razão da vida para as coisas se mexerem, iluminarem, tocarem música, etc. Pilhas são coisas que ainda não estão completas, falta-lhes o essencial - a seus fabricantes, claro - que é a vergonha na cara.

Nem me venham com baterias de carro. Estas sim são o grande engodo do motor do carro desde Henry Ford. As bateria de carro são realimentadas por alternadores enquanto o motor está ligado e todas têm prazo de validade. Ora, se são alimentadas por um motor de um automóvel, são, por definição e obrigação, autosuficientes. De fato, uma mentira.

Ainda não entendi a mecânica dos painéis solares. Nada. Dizem que é uma fonte barata de energia. Ok, veja o orçamento pra instalar um no telhado.

Produtos longa vida duram meses. Com um nome desses, deveriam durar décadas e com um selo: a prolongar.

Energia elétrica, choque, fio desencapado. Alguém me explica porque?

De tudo que aconteceu desde o Sputnik até agora, o mais interessante para os outros 6 bilhões de mortais é o suco Tang, que vá lá, é ruim. Mais que as fotos do Hubble, mais que um carrinho em Marte, mais que Neil e Aldrin na lua.

Eu amo assistir esporte na tv. Futebol, atletismo e sumô são meus favoritos. Mas depois de quinze minutos vendo aquilo, começo a divagar. Piro. O que eles estão fazendo, de fato? Lançando dardos mais longe com qual necessidade? Uma cronica de Luis F. Veríssimo não é mais importante que este gol? Pular na água e sair dando braçadas alucinadas são importantes para a humanidade?

Porque estou me mandando à merda?

Coisas da fé

Havia um monge beneditino chamado Dom Bernardo e a gente sempre conversava sobre as coisas da fé. Eu dizia que duvidava da existência de deus. Ele dizia que a dúvida era o motor da minha fé. Eu tinha 17 anos.
Cristãos estúpidos lhe metem medos que só curam com mãe de santo.
Cristãos fervorosos lhe metem todos os dogmas até as pregas ficarem lisas.
Cristãos inteligentes citam Santo Agostinho, no mínimo.

Quando descobri que a madeira horizontal da cruz chamava-se patíbulo, achei estranho porque para mim só existia o conjunto da obra, ou seja, a cruz inteira, o objeto por si só.
A cruz é tão simples como um círculo, é apenas uma linha vertical cruzando com uma horizontal. O círculo é mais fácil ainda, vai e volta.
Uma vez, um amigo comunista me disse que era óbvio que a igreja católica desse certo por causa do marketing com o logo perfeito: a cruz - e fez com as mãos, um pau assim e outro assim e só.

Não discuto o amor, a caridade e nem Jesus. Isso é coisa de gente grande. A questão toda é só a fé.
Em que mesmo?

Caderninho de psicanalista

Bem aqui ó, quase nas têmporas e fica pulsando pulsando pulsando.
Calaboca que a aspirina tá lá longe.
Preciso de duas pedrinhas redondas brancas da Bayern.

Nunca mais como salmão com aquela fúria. Será?

Brabuleta

São tantas nuvens que a gente até esquece do sol.
Escuras, as meninas.

Tempestade de três dias úmidos, úmidos
- Em dias assim borboletas não praticam asa delta.

Caderninho de psicanalista

Chulé. Ele tem chulé e me agride com esse cheiro sulfuroso.
Ácido amoníaco demoníaco. Quero sair correndo.
Ele fala fala fala e não ouço, só sinto esse cheiro.
To me sentindo o Selton Mello no Cheiro do Ralo.

Eu sou o ralo.

AUGUSTÍSSIMO BOAL




Discurso de AUGUSTO BOAL no Dia Mundial do Teatro, 27 de março:

"Todas as sociedades humanas são espetaculares no seu cotidiano, e produzem espetáculos em momentos especiais. São espetaculares como forma de organização social, e produzem espetáculos como este que vocês vieram ver.
Mesmo quando inconscientes, as relações humanas são estruturadas em forma teatral: o uso do espaço, a linguagem do corpo, a escolha das palavras e a modulação das vozes, o confronto de ideias e paixões, tudo que fazemos no palco fazemos sempre em nossas vidas: nós somos teatro!
Não só casamentos e funerais são espetáculos, mas também os rituais cotidianos que, por sua familiaridade, não nos chegam à consciência. Não só pompas, mas também o café da manhã e os bons-dias, tímidos namoros e grandes conflitos passionais, uma sessão do Senado ou uma reunião diplomática - tudo é teatro.
Uma das principais funções da nossa arte é tornar conscientes esses espetáculos da vida diária onde os atores são os próprios espectadores, o palco é a plateia e a plateia, palco. Somos todos artistas: fazendo teatro, aprendemos a ver aquilo que nos salta aos olhos, mas que somos incapazes de ver tão habituados estamos apenas a olhar. O que nos é familiar torna-se invisível: fazer teatro, ao contrário, ilumina o palco da nossa vida cotidiana.
Em setembro do ano passado fomos surpreendidos por uma revelação teatral: nós, que pensávamos viver em um mundo seguro apesar das guerras, genocídios, hecatombes e torturas que aconteciam, sim, mas longe de nós em países distantes e selvagens, nós vivíamos seguros com nosso dinheiro guardado em um banco respeitável ou nas mãos de um honesto corretor da Bolsa - nós fomos informados de que esse dinheiro não existia, era virtual, feia ficção de alguns economistas que não eram ficção, nem eram seguros, nem respeitáveis. Tudo não passava de mau teatro com triste enredo, onde poucos ganhavam muito e muitos perdiam tudo. Políticos dos países ricos fecharam-se em reuniões secretas e de lá saíram com soluções mágicas. Nós, vítimas de suas decisões, continuamos espectadores sentados na última fila das galerias.
Vinte anos atrás, eu dirigi Fedra de Racine, no Rio de Janeiro. O cenário era pobre; no chão, peles de vaca; em volta, bambus. Antes de começar o espetáculo, eu dizia aos meus atores: - 'Agora acabou a ficção que fazemos no dia-a-dia. Quando cruzarem esses bambus, lá no palco, nenhum de vocês tem o direito de mentir. Teatro é a Verdade Escondida'.
Vendo o mundo além das aparências, vemos opressores e oprimidos em todas as sociedades, etnias, gêneros, classes e castas, vemos o mundo injusto e cruel. Temos a obrigação de inventar outro mundo porque sabemos que outro mundo é possível. Mas cabe a nós construí-lo com nossas mãos entrando em cena, no palco e na vida.
Assistam ao espetáculo que vai começar; depois, em suas casas com seus amigos, façam suas peças vocês mesmos e vejam o que jamais puderam ver: aquilo que salta aos olhos. Teatro não pode ser apenas um evento - é forma de vida!
Atores somos todos nós, e cidadão não é aquele que vive em sociedade: é aquele que a transforma!" "Todas as sociedades humanas são espetaculares no seu cotidiano, e produzem espetáculos em momentos especiais. São espetaculares como forma de organização social, e produzem espetáculos como este que vocês vieram ver.
Mesmo quando inconscientes, as relações humanas são estruturadas em forma teatral: o uso do espaço, a linguagem do corpo, a escolha das palavras e a modulação das vozes, o confronto de ideias e paixões, tudo que fazemos no palco fazemos sempre em nossas vidas: nós somos teatro!
Não só casamentos e funerais são espetáculos, mas também os rituais cotidianos que, por sua familiaridade, não nos chegam à consciência. Não só pompas, mas também o café da manhã e os bons-dias, tímidos namoros e grandes conflitos passionais, uma sessão do Senado ou uma reunião diplomática - tudo é teatro.
Uma das principais funções da nossa arte é tornar conscientes esses espetáculos da vida diária onde os atores são os próprios espectadores, o palco é a plateia e a plateia, palco. Somos todos artistas: fazendo teatro, aprendemos a ver aquilo que nos salta aos olhos, mas que somos incapazes de ver tão habituados estamos apenas a olhar. O que nos é familiar torna-se invisível: fazer teatro, ao contrário, ilumina o palco da nossa vida cotidiana.
Em setembro do ano passado fomos surpreendidos por uma revelação teatral: nós, que pensávamos viver em um mundo seguro apesar das guerras, genocídios, hecatombes e torturas que aconteciam, sim, mas longe de nós em países distantes e selvagens, nós vivíamos seguros com nosso dinheiro guardado em um banco respeitável ou nas mãos de um honesto corretor da Bolsa --nós fomos informados de que esse dinheiro não existia, era virtual, feia ficção de alguns economistas que não eram ficção, nem eram seguros, nem respeitáveis. Tudo não passava de mau teatro com triste enredo, onde poucos ganhavam muito e muitos perdiam tudo. Políticos dos países ricos fecharam-se em reuniões secretas e de lá saíram com soluções mágicas. Nós, vítimas de suas decisões, continuamos espectadores sentados na última fila das galerias.
Vinte anos atrás, eu dirigi Fedra de Racine, no Rio de Janeiro. O cenário era pobre; no chão, peles de vaca; em volta, bambus. Antes de começar o espetáculo, eu dizia aos meus atores: - 'Agora acabou a ficção que fazemos no dia-a-dia. Quando cruzarem esses bambus, lá no palco, nenhum de vocês tem o direito de mentir. Teatro é a Verdade Escondida'.
Vendo o mundo além das aparências, vemos opressores e oprimidos em todas as sociedades, etnias, gêneros, classes e castas, vemos o mundo injusto e cruel. Temos a obrigação de inventar outro mundo porque sabemos que outro mundo é possível. Mas cabe a nós construí-lo com nossas mãos entrando em cena, no palco e na vida.
Assistam ao espetáculo que vai começar; depois, em suas casas com seus amigos, façam suas peças vocês mesmos e vejam o que jamais puderam ver: aquilo que salta aos olhos. Teatro não pode ser apenas um evento - é forma de vida!
Atores somos todos nós, e cidadão não é aquele que vive em sociedade: é aquele que a transforma!"

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Augusto Pinto Boal foi pesquisador, diretor e dramaturgo na vida real.
Rio de Janeiro, 16 de março de 1931
Rio de Janeiro, 02 de maio de 2009