Famílias

Uma mulher queixava-se dos silêncios
Do amante, do marido e do filho.

Aos gritos queixava-se.

Uma mulher exibia sua insatisfação
Aos quatro ventos
Aos quintos dos infernos
Ao sexto sentido.

Mais longa - e louca - a historia seria
Se ela se queixasse dos silêncios
Do amante do marido do filho.

Quentin Tarantino:

- Arrivederci!
- River dirt.

(Inglourious Basterds, cena de cinema no cinema ou cena do cinema no cinema)

Fugu é fogo


Onze pessoas em Nato, na provincial de Toyama, foram intoxicadas com um prato de sashimi de fugu, o nosso baiacu.
O baiacu exala uma toxina poderosa que pode matar em 6 horas se a pessoa infectada não tiver cuidados médicos a tempo.
Nem todos sushiya san tem o certificado que o habilita a cortar a iguaria, que dizem, ser dos céus. O que parece, o peixinho pode levá-lo rapidinho para lá.
Sashimi de salmão e atum ainda são inofensivos.
Mesmo que o sushiya san tenha tal certificado, evite. É uma roleta russa, é como pegar carona num caminhão carregado de dinamite numa estrada trepidante e o motorista está fumando charuto.

Bastões de algodão

Tomar banho. A vida resume-se a tomar um banho.
Acordar, levantar, sair de casa,
passar o dia inteiro fora de casa e voltar.
Na volta, tudo melhora depois do banho e
todos os elementos do banho,
os vapores, cheiros, cores.

Água passando pelo corpo.
A vida melhora depois do banho.

Mas nada disso teria importância se não fossem os cotonetes.
Cutucar a zoreba com os bastões
são o clímax de um dia vivido para os outros,
as responsabilidades alheias,
indecisões, satisfações, melhorias.

Os cotonetes são um dos grandes ícones da vida pós-industrial.

Circulo vicioso (sobre um outro teto, claro) e impunes

Shoppings centers desabam porque estão podres.
Estão podres porque foram feitos com material de terceira categoria.
O material é de terceira porque faturam no orçamento escrevendo um preço e comprando noutro.
Compram noutros números porque os empresários se permitem, se permutam e se consideram.
Se consideram porque há esse corporativismo insensato de ternos, gravatas e camisas de boa seda.
Tudo mal vendido e bem comprado nos shopping centers.

(Falando sobre o SP Market - que novidade! - desabou)

Coelhice

Entrei numas de salada antes das refeições para ver se como menos e emagreço.
Hoje é o segundo dia praticando essa maluquice.
Segundo dia e já to me sentindo um coelho.

Crianças Mudas Telepáticas


Acabo de assistir na NHK um documentário sobre um urbanista que fez maquetes 3D da cidade de Hiroshima e faz palestras para estudantes com elas.
São várias maquetes históricas, desde 1840 ate o dia 5 de agosto de 1945, um dia antes da bomba e no dia 7 de agosto, um dia depois.
Ele tinha três anos de idade na ocasião e estava na casa dos avós que era num sítio a 50 quilômetros de distancia de Hiroshima enquanto seus pais procuravam emprego na cidade.
O meu problema com documentários na tv japonesa é que presto tanta atenção no texto para tentar decifrar algumas palavras e citações que acabo esquecendo o nome das pessoas. E sempre penso, na próxima anoto alguma coisa. Nunca mais vou saber ou lembrar o nome desse urbanista.
O fato de vermos as maquetes e observarmos o desenvolvimento da cidade nos 100 anos anteriores à bomba é muito mais comovente. Todos sempre pensam nas fotos em preto e branco pos-devastação, na Rosa de Hiroshima do poema de Vinicius ou nas pessoas mutiladas, mortas, inexatas.
O fato de ser uma cidade portuária, o desenvolvimento cultural da cidade era grande. No fim do século 19, com a reforma Meiji, vários navios estrangeiros traziam novidades para esse grande porto ao sudoeste do Japão. Muitas pessoas queriam aprender inglês e holandês para terem mais contato com os gaijins dos grandes vapores cheios de novidades, desde na vestimenta e alimentos às maravilhosas máquinas de teares que encantavam os promissores ex-senhores feudais que buscavam uma nova forma de enriquecerem na nova sociedade capitalista e burguesa que surgia.
Nas maquetes mostradas, aparecem desde onde foram instalados os primeiros semáforos ate onde aconteceram os primeiros engarrafamentos de transito com, pasmem, dez ou quinze automóveis, pois aos domingos, os ricos iam ao centro para tomarem a grande maravilha do ocidente: o sorvete.
Em 1914 construíram o que é hoje o Genbaku Dome (foto) ou A Cúpula da Bomba Atômica que estava 150 metros de onde foi o hipocentro da explosão. Foi originalmente construído para a “Exposição Comercial da Prefeitura de Hiroshima”, celebrando justamente a absorção cultural do antigo império feudalista por novos valores burgueses da revolução industrial emergente na Europa. Seria um símbolo para o encontro entre o ocidente e o oriente no esperançoso inicio do século 20.
Ironicamente manteve-se em pé com a explosão e virou um monumento de esperança para a paz mundial e a eliminação total de todas as armas nucleares.
Aproveitaram a visita do presidente Obama a Tokyo para transmitirem tal documentário pelo fato de que ele disse que faria todos esforços para eliminar as milhares de ogivas nucleares pelo mundo.
Além de palestras com suas maquetes históricas, o urbanista também entrevista os últimos sobreviventes de 1945. Todos são os derradeiros de suas famílias, os únicos. Quase todos ainda carregam as mazelas radioativas, muitos são senhores e senhoras, pessoas solitárias que não tiveram famílias, esposos e filhos por acharem que poderiam passar seus males para as próximas gerações e não queriam que o sofrimento continuasse. Todos choram durante as entrevistas, o urbanista, os entrevistados, produtores. A idéia era mandar a fita para o presidente americano. Nada mais oportuno, o atual tem um Nobel da Paz por antecipação.
O homem mais poderoso do mundo há que fazer muito pra tal merecimento. Pode iniciar tudo apenas assistindo aos depoimentos munido de pipoca, lenço de papel e caneta para assinar alguns decretos para honrarmos com tranqüilidade o futuro da humanidade.

Piano

Richard Clayderman em estado de graça.

27 Pianos usados da Yamaha comprados em Hong Kong trazidos para o Japão recebendo uma garibada federal de um brasileiro que gosta de jazz dos anos 50, um japonês que toca guitarra base numa banda de musica havaiana e outro japonês que morou 17 anos em Londres. Tem os vietnamitas que estão noutra.
27 pianos usados da Yamaha que vão para uma loja em Toronto cujo dono é sino-americano e fala inglês fazendo biquinho como se falasse francês.

Um piano branco novo da Apollo Piano que vai para algum lugar em Beijing.
Eu detesto piano branco, me dá a sensação de papel em branco, vazio, nada, cérebro em branco, oco, vácuo. 
O som não se propaga no vácuo.
Fica no ar uma sensação meio Richard Clayderman com show sertanejo chique.

Muito pior foi ontem que tive uma overdose rúbia com um piano vermelhaço da Kawai.

E então pensei:
- Mas quem vai para um motel tocar piano?
- Richard & Clayderman, os sertanejos chiques, pedrobó. 

King Kong de apostila e o mico acadêmico

Não sou ecológico como deveria ser, mas fico indignado diante de barbáries que acontecem em zoológicos com jaulas imundas e pequenas demais para a vida (sobrevida?) de alguns animais lá instalados.
Elefantes que vivem em florestas indianas pra lá e pra cá, nômades, gordos e felizes, ganham um espaço menor que um campo de futebol. Claro que é para facilitar a quem pagou o ingresso para ir visitá-los.
Mas sou ecológico o suficiente para não jogar nada, nem cuspir chiclete pela janela do carro e para selecionar o lixo daqui de casa.
Lembro do filme “Medicine Man” (1992), com Sean Connery. Ele faz o papel de um cientista que se embrenha no meio da floresta amazônica e fez a descoberta do câncer. Qualquer câncer. O problema é que ele não consegue reproduzir em laboratório a química da tal flor que só cresce a trinta metros do solo no topo de uma especifica arvore. Depois ele descobre que o importante mesmo não é a flor, mas o inseto que mora no interior dela. Então, chega um pecuarista e bota fogo em tudo. Correm ele, sua assistente e a tribo toda para o meio do imensamente tudo atrás de outra especifica arvore com a mesma flor e o tal insetinho cujo cocô freia as células mutantes do nosso corpo.
Fico pensando nos gorilas e orangotangos que morrem para perder apenas as mãos por serem iguarias caras no prato de gente muito, mas muito esquisita e com gosto duvidoso com uma travessa contendo uma mão de gorila e algumas batatas assadas ao redor. Molho madeira. Ou os tigres que morrem na China para que moam o pênis do felino para virar um pó mágico para outros pênis tristes e cabisbaixos que acreditam na milenar medicina chinesa de cobras, ervas, pedras, pênis e insetos em contrapartida a famosa pílula azul.
Pior mesmo é a situação dos bichos nas mãos dos cientistas. Até mesmo dos criadores da famosa pílula azul. Durante os experimentos, alguns macacos devem ter ficado eretos e excitados por horas e um cientista – pervertido – olhando para a jaula com um cronômetro na mão.
Há alguns dias, alguns desses símios com o cérebro na ponta do membro em estudo, escaparam e espalharam-se pelos corredores e salas de uma faculdade de um grande centro urbano e a mídia toda registrou.
Todos os discentes bugios em bandos resfolegaram, ganiram, correram, bateram as mãos no peito e gritaram diante da fêmea alfa que estava apenas mais fêmea que nos outros dias. Há o registro de um deles subindo pelas paredes.
Todo mundo sabe disso, assistiu, discutiu, opinou, riu.
Como é mais fácil lidar com a perda de uma e não de setecentas mensalidades, a tal faculdade do grande centro urbano resolveu expulsar a moça. Na contabilidade dos cifrões (evidentemente necessários) o pragmatismo impera sem titubeio. Mas na civilidade não.
O exemplo dado pela tal instituição de ensino, cultura e educação ecoa e ecoara pelos corredores locais como os gritos bestiais de alguns exemplares dos podres primatas de uma elite machista masturbatória, individualista e infeliz.
Meu medo é que esse fato estudantil e essa atitude institucional tornem-se corriqueiros e recorrentes, por isso volto dias depois e falo tudo de novo, não por moralismo beato e cristão, mas por defesa da condição humana, pura e simples. Como se, em contrapartida, não bastassem as burcas afegãs ou as metralhadoras vendidas como picolés nas fronteiras do cone sul.
Não foi por receio de retaliações que não citei o nome da faculdade. Mas por nojo.
Também acho que deve ter um monte de gente bacana e bem intencionada por lá. Aproveitem, fim de ano, bom período para transferências.
Olha o currículo...

Los day by day



Ministro Juca Ferreira diz que Brasil vive "apartheid cultural"

O ministro da Cultura, Juca Ferreira, disse hoje que o Brasil vive uma situação "dramática", similar a um "apartheid cultural", e pediu maior apoio financeiro para facilitar o acesso do povo a cinemas, teatros, museus e literatura.
O ministro Juca Ferreira pediu mais apoio financeiro para facilitar o acesso a cinemas
"Nenhum produto cultural chega a 20% da população. Menos de 10% dos brasileiros já entraram em um museu, só 13% vão ao cinema, 17% compram livros e 92% dos municípios não têm nem cinema nem teatro", afirmou Juca Ferreira no programa de rádio "Bom Dia Ministro".
Para o ministro, a cultura em geral é "inacessível para a maioria dos brasileiros" e é preciso um projeto legislativo, que está em trâmite no Congresso, para financiar o consumo das atividades culturais.
"Não poderíamos continuar financiando só a produção sem financiar o consumo (...) A média de despesa em cultura da maioria dos brasileiros não chega a R$ 40 por ano", comentou.
O projeto prevê a criação de um vale mensal de R$ 50 que seria dado aos trabalhadores e que poderia ser trocado em livrarias, lojas de discos, cinemas, teatros e museus.
O funcionamento seria parecido ao vale-refeição que a maioria das empresas dá a seus empregados para que possam comer no horário de trabalho.
Segundo ele, se o projeto for aprovado, o Governo financiará cerca de 70% do vale, o trabalhador fornecerá 10% e a empresa deverá assumir o resto.
Juca Ferreira ressaltou que o chamado vale-cultura repercutirá na qualidade de vida dos trabalhadores e disse confiar que o Congresso o aprove antes do fim do ano.
"Espero que no Natal possamos dar este presente aos trabalhadores (...) porque a cultura é uma necessidade básica como a comida. Não se pode pensar no ser humano sem cultura", concluiu.

Deu na Folha

Viajando na maionese

Anos nessa brancura – e sem pão.
Abro site da Folha e está escrito assim:

Morre aos 100 anos o antropólogo francês Claude Lévi-Strauss

Nunca li nada do homem. Só sabia que ele tinha morado no Brasil, dado aula na USP e que tinha detestado a Baia de Guanabara (segundo Caetano em “O Estrangeiro”), pareceu lhe uma boca banguela.

Pra mim, ele já tinha morrido em algum momento entre a Bossa Nova e a Tropicália, não pela boca banguela, nem por nada, mas pela idéia de passado distante.