Reveillon com Tarantino

Daqui a 3 horas será o dia primeiro de janeiro e eu to aqui em cima lendo o roteiro do Pulp Fiction enquanto a família está lá embaixo vendo o Kohaku Uta Gassen.
O Kohaku é uma festa musical que acontece no dia 31 de dezembro e é transmitida ao vivo pela NHK. É uma disputa entre o time vermelho e branco (as cores da bandeira japonesa).
Invariavelmente, os homens vestem paletós de lantejoulas e as mulheres, vestidos de lantejoulas.
A Susan Boyle foi a convidada deste ano. Cantou "I Dreamed A Dream" num vestido preto de lantejoulas. Me chamaram, desci, vi e subi.
Espero que a minha solitária leitura esteja explicada.

Fotos que eu gosto de bater

Esse restaurante é um pé-sujo de umas tiazinhas lá de Hamakita que faz um Yakiniku Teishoku dos deuses.
Passou a servir cafezinho grátis depois que alguns brasileiros começaram a se deliciar por lá.

Faz de Conta

Faz de conta que essa canção foi feita
só porque teus olhos brilharam no contra luz
de um por do sol de domingo.

Faz de conta e será assim.

Faz de conta que o mundo não é sério,
ninguém é sério e nada do que é
e está cinza ao teu redor existe
– e é verde o asfalto da tua rua.

Faz de conta que é minha a lua e não é turva.
Faz de conta uma porção
e mais outra e mais outra muito mais.
Só não espalha que tudo isso é um faz de conta
porque vão chegar mais perto
e dizer que é de verdade.

Deus dos gagás


A ultraconservadora Igreja Batista de Westboro, Kansas, EUA, declarou que deus odeia Lady GaGa e que ela vai para o inferno.

A minha sobrinha de seis anos é fã incondicional da cantora, então eu odeio a igreja e o deus que odeia a Lady GaGa e amo a minha sobrinha.
Quanto a Lady GaGa, tudo pode mudar. Na idade da minha sobrinha, eu era fã da Martinha e do Toppo Giggio.

É dificil

Hoje falei pruma pa de gente que a Brittany Murphy tinha morrido.
Ninguém sabia quem era a mina.
É fodinski, como diriam em Varsovia.

Hoje o Kiem me perguntou se dezembro tem 30 ou 31 dias.
Trinta e um, eu disse.
Depois caiu a ficha e falei que a vida toda o ano novo era do dia 31 de dezembro para o dia 1º de janeiro.
Ele respondeu só se for pra você, pra mim, ano novo é em fevereiro.
Pode crer, os vietnamitas tem transas chinesas milenares.

Conexões Friorentas

Frio de rachar. Literalmente. Não sei bem o que se racha no frio. Tem gente que racha os lábios. Como aqui na região não neva, mas gela, as poças d’água endurecem formando um mini lago de patinação para insetos fulgazes. Nunca vi nenhum patinando, mas sempre imagino.
Também imagino as formigas enfiadas no buraco, jogando baralho, lareira acesa, comida farta, tirando sarro das cigarras. Formigas são muito pragmáticas, não é muito bom ser comparado com formigas. Formações e paradas militares nos fazem lembrar esse tipo de gente.

Na Venezuela o frio nunca é de rachar porque é um país tropical. Mas têm lá seus militares, paramilitares, supramilitares, fardados para todos os gostos e desgostos. Sempre haverá uma nação latino americana com tais angustias. É assim que o continente funciona, feito as formigas num buraco, ficam lá falando mal das cigarras, democráticas e barulhentas.
Na Itália, o premier Berlusconi tomou um murro na cara e devia estar um frio de rachar na praça em Milano.
No Brasil, que tá um calor de rachar, o governador do DF fatura uma grana preta criminosamente e tudo bem.
Cara de pau não racha, mas toma tabefe.

Mas o frio tá de rachar. Não saio de casa nem pra pensar em voltar pra casa. Me chamam de urso por causa desse meu conceito humano de hibernação. Sair de casa nesse frio é desnecessário. É por isso que prefiro o inverno ao verão, porque dá pra ficar em casa sem se preocupar em ser ou não ser anti-social.
Dá pra ouvir disco de jazz sem passarinho improvisando junto. Tirando um tico-tico japonês que fica em grupo nos fios, um grudado no outro, não tem muita asa batendo por aí nesses dias gelados. Nem os corvos crocitam (gritam) tanto nesses dias de frízer.
Faz algumas horas que estou ensaiando para sair e ir abastecer o carro no posto. Poderia ir à segunda, mas é um self service, nos finais de semana a gasolina é mais barata.

Quando junta na minha cabeça esse frio de rachar com o posto de gasolina, a conexão é direta com os conceitos ecológicos de futuro macabro e o terror antipático que nos fazem acreditar que virá. Não acredito em metade do que dizem e escrevem. Desde o final dos anos 70 a gasolina esta para acabar e o mundo também. Antes disso, sempre, haverá uma solução. E entre uma solução e outra, uma guerra medonha e lucrativa.
Que me importa se o urso polar é canibal* enquanto crianças afegãs brincam de esconde-esconde em escombros de tanques fedendo a carniça ianque?

* Sempre foi. Agora tudo é culpa do aquecimento global.

Faxineiros são mais valiosos para a sociedade do que banqueiros, diz estudo

Pessoas que trabalham fazendo faxina em hospitais têm mais valor para a sociedade do que os funcionários de alto escalão de um banco, concluiu um estudo britânico.
A pesquisa, feita pelo instituto de pesquisas New Economics Foundation, concluiu que o faxineiro de um hospital gera cerca de R$ 30 de valor para cada R$ 3 que recebe.
Já o funcionário do banco (aquele com salário anual a partir de RS$ 1,5 milhão) é um peso para a sociedade por conta dos danos que a categoria causou para a economia global, diz o estudo.
Os especialistas envolvidos no trabalho calculam que este trabalhador destrói cerca de R$ 21 para cada R$ 3 que ganham.

Recomendações
Altos executivos de agências de publicidade, por outro lado, "criam estresse", porque são responsáveis por campanhas que geram insatisfação e infelicidade, além de encorajar consumo excessivo.
E contadores prejudicam o país ao criar esquemas para diminuir a quantidade de dinheiro disponível para o governo, diz a pesquisa.
Já os profissionais em atividades como cuidar de crianças ou reciclar lixo estão fazendo trabalhos que geram riqueza para o país.
A equipe da New Economics Foundation usou uma nova fórmula para avaliar diferentes profissões e calcular a contribuição total que cada uma oferece à sociedade, incluindo, pela primeira vez, seu impacto sobre a comunidade e o meio ambiente.
A porta-voz da fundação, Eilis Lawlor, disse: "Faixas salariais com frequência não refletem o valor real que está sendo gerado. Enquanto sociedades, precisamos de uma estrutura de pagamentos que recompense os trabalhos que geram mais benefícios para a sociedade, não aqueles que geram lucro às custas da sociedade e do meio ambiente".
"Deveria haver uma relação entre o que recebemos e o valor que o nosso trabalho gera para a sociedade. Encontramos uma forma de calcular isso", completa.
O estudo da New Economics Foundation também faz recomendações para uma política de maior alinhamento dos salários com o valor do trabalho.

Martin Shankleman
Da BBC News

A turma da camisa negra

Quando um governo democrático tem a cara e encarna seu líder, a democracia balança.
Quando um governo toma um murro na cara e começa a estapear o povo e doer na cara da Constituição, a democracia treme.
Quando todas as caras que estão ao redor espelham e te fazem enxergar torquemadas, goebbels, fleurys e pinochets, a democracia perdeu a cara e a coragem.

Já estive lá e é um dos paises mais belos do mundo, os homens, as mulheres, as coisas, os lugares. Bons vinhos, excelentes queijos, carnes, massas dadivosas e celestiais, museus, construções, historia, escritores, artistas, futebol.
O melhor da Itália ainda esta por vir.

Quem não curte cheiro de livro novo?

Depois da decepção pelo fechamento da livraria virtual que nos servia aqui no Japão, descobri outra e comprei essa maravilha ai em cima.
Três yeahs para a Kyodai Books!

YEAH YEAH YEAH!

Já chegou, já cheirei o livro todo e to refastelado na página 38.
Mais yeahs!

Caos e Progresso


Já tentei administrar a minha semana estabelecendo dias e horários para aproveitar melhor todos recursos possíveis, como um quadro curricular, uma agenda.
Recurso é o que eu chamo de estudar e isso implica basicamente em ler e escrever.
O que eu queria era ler sempre as mesmas coisas nas segundas, não ler nada nas terças e assim por diante. Idem a escrita, seja um texto, um Los Day by Day ou a peça de teatro que parece que nunca vai sair da vigésima e eterna página.
A ordem mudaria muita coisa e não quero mudar nada, quanto mais muita coisa. Caminho no caos. Eu sei disso porque jamais escreveria isso aqui numa quinta-feira. Também não posso dizer isso. Só posso dizer que o que escrevo é fruto do momento e ele abrange o passado. O passado é o que move a idéia, mesmo as futuristas.
Nada mais antigo que um vidente prevendo o futuro.
E já me basta o fato de acordar todos os dias sob a ordem militar do despertador e seguir rumo cotidianamente, da simplicidade de sair da cama e assumir um lugar em pé na sociedade.
A sociedade admira quem passa muito tempo em pé. Mesmo que for sentado.
A sociedade se ordena em nomes, posições, quarteirões, marcas, velocidades, pesos. Todos estão em algum lugar ou catálogo. Mesmo que este computador contenha pastas e o próprio blog contenha arquivos que se alinham cronologicamente, acima de tudo – e abaixo – impera o caos e sua deliciosa satisfação aleatória.
Um dos motivos de continuar escrevendo é justamente tentar continuamente estabelecer a tal ordem, mesmo que seja interna e imaginária.
Três da tarde, sábado e eu estou com sono. Nada me impede. A ordem me impediria.
Então, a gente se vê depois que eu acordar.

Livro é luxo – ou lixo – o que dá na mesma

Neste feriado de fim de ano, íamos para Hiroshima. Mas fazendo as contas grana/tempo/carro ou grana/tempo/trem-comum ou grana/tempo/trem bala e ainda considerando a estadia num youth albergue e rango, o melhor mesmo é ficar ao redor dos 250 km de casa e ficar indo e voltando. As opções são boas, ir até a província de Fukui ken, que fica na costa japonesa voltada para o continente asiático e depois ir ate Gotenba, perto do Monte Fuji. Turistada de bate-e-pronto, almoçar por lá, curtir e voltar pro sweet sofá.
Com a grana que sobrou da aventura Hiroshima, pensei em comprar alguns livros.
Liguei o pc atrás daquela livraria virtual japonesa, ligada a uma grande editora nipo-brasileira que publica um jornal semanal e uma revista quinzenal.
Nada consta, diz o link para o site onde desativaram os serviços por tempo indeterminado.
Eles tinham bons títulos e não só a lista da Veja ou coisas de auto-ajuda ou kardecismo de balcão. Tinham, por exemplo, todos os livros do Chico Buarque ou dois ou tres do Loyola, alguma coisa do Nabokov, Mario Prata, Machados, Clarisses e muito mais.
Mas aconteceu a crise financeira e com ela desativaram a livraria. Não fiquei surpreso, só chateado. E não com os donos da livraria, mas com a maioria da clientela brasileira que não lê nada e conseqüentemente, não compra nada. A livraria andava as moscas, mesmo nos tempos das vacas gordas.
Era inevitável que demitissem a pessoa que recebia os pedidos e fazia os tramites de compra e transporte do Brasil para cá e para a casa do leitor.
Ontem estive com um amigo que é dono de um mercado brasileiro que vende carne australiana. Toda a carne vendida nos mercados brasileira é de origem australiana. Quando cheguei lá, ele estava no balcão conversando com o distribuidor japonês que estava dizendo que a importadora não tem carne. Nem carne, nem panis, nem livros, nem circenses. Nem nada.
Assim que o japonês se despediu, ele me confidenciou que iria faltar carne. Já estão me faltando os parágrafos, pensei.
O que ainda me salva são os 40 quilos de livros que eu trouxe da recente passagem pelo Brasil. A companhia aérea me deu o direito de carregar duas malas de 32 quilos. Eu não ia trazer mortadela ou salaminho, a não ser que fosse o gibi de Ibanez, o Mortadelo & Salaminho.
Ainda devo ter uns 15 quilos para consumir. A densidade é relativa. Tem um Santo Agostinho que é fininho assim, mas pesa tanto quanto o Boeing que me trouxe. E paradoxalmente, me faz voar.
Quanto à carne, faz tempo que não como um bife. Não por causa do importador da Austrália, mas por opção.
O que a maioria das pessoas não sabem é que um livro é mais saboroso que um bife. E não engorda.
O problema é que diante de algumas situações, cortam-se as letras, os salários dos professores, as pernas das carteiras escolares. Na cidade de São Paulo, quase cortaram a merenda escolar do orçamento.
Para ilustrar a situação e dar um desfecho dramático, senão trágico, na semana passada, lá onde trabalho, chegaram oito pianos de cauda usados, da Yamaha, para serem lustrados, afinados e embalados para as oito escolas públicas japonesas que os receberão na próxima semana. Escolas públicas, eu disse.

Los day by day

Na Vila Madalena os donos dos bares começaram uma campanha para os clientes não jogarem bituca no chão da rua.
Em Tokyo, Yokohama, Hamamatsu e várias outras cidades japonesas, é proibido fumar na rua, caminhando ou parado. Há locais próprios para fumantes. Eu acho.
O carro da Nanci, um Suzuki-2006, já veio de fábrica, originalmente, sem nenhum cinzeiro, na frente ou atrás.
O meu, que é mais velho e ainda tem cinzeiro, virou porta-moedas.
Ela e eu paramos de fumar no dia 10 de novembro de 2006, num sábado, inesquecivel.
Ate hoje sinto vontade.
Já sonhei que estava comprando, fumando, tragando, sentindo a nicotina na cabeça.
O pior de tudo é que eu não sabia que eu fedia tanto.