A gente na janela

Sou essa figura fisiológica e organicamente funcional – estou vivo – e sim, profundamente patético. A origem de toda moral e integridade, toda sociologia ao redor de um ou seis bilhões de umbigos está nessa patetice que somos, juntos ou ilhados.
Passo metade do meu tempo acreditando na imortalidade das coisas, emoções. E na outra metade, nem pensar posso. As coisas e emoções são um grande saco adendo da alma. A alma carrega o corpo que observa as coisas e, invariavelmente, se emociona com elas. Algumas pessoas são coisas. Eu sou uma grande coisa para muita gente. E também, sem humildade, sou uma coisica.
Neste momento não acredito em imortalidade alguma. O planeta esta morrendo, essa casa, esse chão, eu, todo o universo. Esse não é um sintoma pessimista, é apenas a chuva que traz essa solidão progressiva e anti-social. Melhor assim que escutar Leonard Cohen como paliativo.
Não, é melhor ouvir Cohen. No talo.
Escrevo vazios sobre os meus vazios. Um grande círculo infeliz se projeta frente aos meus olhos imaginários e me condiciona a gira-lo sem razão para tal. O grande círculo gira por si e eu acredito ser a força motriz. Ate mesmo nas mínimas tristezas nos acreditamos poderosos. Digo isso no plural para tentar ser impessoal, como se fosse possível.
É a chuva, repito. E sem ela eu diria bom dia ou boa tarde sem medo de magoar o interlocutor. Sem a chuva eu não iria ao coin laudromat e não veria o homem solitário lendo revista de fofocas televisivas. A chuva de hoje me colocou junto a outro solitário e ficamos nos sentindo invadidos por cinco minutos, que era o tempo que restava para a minha secadora parar. Paradoxalmente, as pessoas vão a público nos coin laundromats levando sua intimidade, que seja meia, cueca, fronha ou camisa, e sentem-se invadidas por exporem tais minúcias sob forma de tecido, todas.
Ele me incomodava com sua camisa xadrez e sua vidinha do lado de fora que me deixou curioso. Não sei se ele lembra de mim. Mas os cinco minutos foram suficientes para que eu experimentasse varias emoções forçadamente teatrais, desde raiva compulsiva a um amor franciscano. Não nos despedimos. Nem nos olhamos. Só peguei minha cesta de roupas secas e sumi.
Ele, eis, aqui e imortalizado.

2 comentários:

LuMa disse...

Neizão, tô naquele estágio que não é a alma que carrega o meu corpo, mas o contrário. O corpo só segue o seu curso porque não chegou a sua hora - se bem que amanhã vou ao médico - porque a alma, já tem um certo tempinho que pediu pra parar o mundo e desceu, sozinho. Saiu por aí andando e agora eu tenho que botar um anúncio no jornal procurando por ela :) Pago recompensas.

Gustavo disse...

tá tudo muito estranho.apaguei o cigarro e separei roupas pra lavar e antes li esse ultimo texto.

aqui faz muito calor. muito. é absurdo. eu odeio fevereiro. odeio muito fevereiro em porto alegre.
preciso tomar um banho.

e tenho saudade de chuvas. juro. embora aqui não tenha alagado nada nem matado ninguém.
calor não mata. não assim, acho.

a saudade de chuva é puro egoísmo.