Paulistano

Tudo que passa pelo filtro dos meus cinco sentidos, tudo que me é invisível, mas eu sei que lá está, tudo que não existe, nunca existiu e nem existirá.
Ver e não ver, saber e não saber. A totalidade do meu universo lírico, versátil, sofrido, amável, doce, triste, culpado, viril, social, anti-social. A totalidade de um universo humano cabível, tudo que sou e nunca fui.
Dois parágrafos iniciais e é essa a minha remissão com a cidade de São Paulo.
Devo tudo a essa cidade. Todos os meus parágrafos, todos os primeiros parágrafos.
Meu dna cultural não se cansa de reverenciar tal referência. Eu sou um verme do asfalto que é um só de Itaquera ao Capão Redondo. Sou toda escuridão do esgoto mais profundo e toda claridade do sol no Ibirapuera. Sou a poesia aos berros na Semana de 22 e o Silêncio de Arnaldo Antunes. Eu quero ser toda possível e insustentável saudade que uma cidade poluída, violenta, corrupta e doentia pode proporcionar a um filho pródigo.
Nenhuma ínfima letra é escrita sem que a cidade saiba que ela assim gerou. Nenhum gemido de gozo. Todas as minhas satisfações são saudadas com as trombetas dos anjos rebeldes que sustentam essa triste paixão. Eu digo sou paulistano com o orgulho de quem sabe que somos os melhores arrogantes do mundo. Sem modéstia. Temos o melhor futebol. Os melhores palcos, músicos, pizzas, canções, autores, sorrisos, ancas, beijos e pasteis. Nos divertimos sem que a natureza interfira. Não temos natureza, somos somente gente e cidade e tudo que está ao redor desta sofisticada comunhão bestial.

Um comentário:

LuMa disse...

Belíssimo, Nei! Bravo, bravo mesmo.

Eu estava de fato esperando que vc escrevesse algo para essa dama-sensual-prostituta-infame-amarga-mas-mágica - a cidade de São Paulo.

Bravo!