Um Rafael

Ele entrou na loja, cumprimentou timidamente e sumiu entre as prateleiras. Não foi possível vê-lo nitidamente, mas pela sua postura e tom de voz, uma tristeza crônica o arrastava em preto e branco desde o tempo em que seu mundo ainda era fácil e colorido, pelo menos dos olhos para fora. O céu escurecido pelo cair da tarde de inverno e pelas nuvens cinzas ajudavam a compor a entrada do homem sozinho e curvado. A vida brasileira no Japão compõe pessoas e cenas assim.
Chegou no balcão com dois pacotes de farinha de mandioca crua. O atendente passou o scanner e a máquina registrou o preço no painel da registradora. Seus grandes, fundos e amarelados tristes olhos encararam os números por um tempo a mais que o necessário. E então ele se virou para mim, levantou as sobrancelhas e sorriu pequeno. Pude perceber que não estava olhando para mim, mas através da minha cara, cabeça e olhos para alguma coisa muito além daquela realidade instantânea ou do que estivesse às minhas costas. Estava olhando para algum momento ou imagem muito distante no tempo e espaço de todos nós. Enxergava um lugar muito confortável que só o passado guarda – e é, na maioria das vezes, indescritível.
Voltou os olhos para o atendente, encolheu os ombros, fez assim com as mãos, sorriu menor que antes e pegou um dos sacos de farinha de mandioca para levar de volta à prateleira. O atendente teclou, a máquina apitou. Ressurgiu por detrás da prateleira a passos largos – lépido para fugir daquela situação, puxou várias moedas do bolso. Contou na tremedeira da palma da mão esquerda e depositou a quantia no balcão. O rapaz registrou, a máquina abriu a gaveta e engoliu as moedas. Colocou a mercadoria numa sacolinha e entregou ao cliente.
Os olhos tristes olhavam direto para mim. Desta vez sim. Tirou um papelzinho do bolso explicando que era o telefone da filha e se aparecesse algum emprego, se possível, que eu ligasse, por obséquio. Claro, Seu Rafael. Agradeceu.
Tão solitário quanto a voz de ombros caídos, saiu e montou na bicicleta para sumir numa espécie de nunca mais, porém constante e permanente no desconforto que o passado também guarda, descritíveis e nítidas como são as porras das infalíveis agruras e os cabisbaixos.
E então, o atendente esperou a porta automática fechar, o homem sumir na esquina e me disse em tom cúmplice que estavam faltando cinqüenta ienes.
Mas tudo bem, a gente deixa passar, é a crise - concluiu.
 

2 comentários:

LuMa disse...

Belo texto, Nei. Um dos mais crus, e por isso, dos melhores.

Nas estatísticas econômicas, a vida de seu Rafael se torna apenas uma vírgula, precedida de zero e seguida de símbolo percentual. Muitos se entregam facilmente às agruras do desemprego, mas há aqueles que tentam manter a compostura e dignidade até o fim. O que mais dói é ver estes últimos auto-decretando uma espécie de quarentena social, antes que a sociedade o faça.

Abel disse...

Pontos de vista culturais?: 1. num documentário sobre os anos turbulentos das Irlandas, uma mãe cheia de filhos e marido preso diz que a gravidade da situação a estava obrigando viver cada dia; 2. nos anos atuais dos Brasis paulistanos e cariocas, a filosofia é viver cada dia, festejada a partir de famosos. Desculpe-me se não sei se isso tem a ver com o Rafael.