Grades

Para a infelicidade de quem é da família (parente ou não) e carrega o sobrenome pouco comum, Nardoni vai virar adjetivo. Será o sinônimo do antônimo de vida.
Daqui a alguns anos, eles serão esquecidos, o pai e a madrasta. Crimes são palavrórios e assuntos do momento, como a cada verão são as escaldantes e repetitivas danças com os quadris.

Ninguém mais se lembra do nome do garoto que foi arrastado pelas ruas do Rio de Janeiro. Poucos se indignaram com o fato de que um dos rapazes que estava dentro do carro livrou-se da cadeia há alguns dias e esta sendo sustentado pelo estado porque cometeu o crime quando era menor. Nem eu me indignei. Todos nós que estamos à sorte do mero acordar para viver e constituir sonhos e realizações – ou mesmo nada disso – e temos todos aqueles leões para matar todos os dias, já sabíamos que o menor mandante e motorista do carro seria solto ou fugiria ou seu nome viraria uma incógnita numa pasta largada em algum corredor ou sala empoeirada dessa ou aquela promotoria publica na metrópole.

O nome da criança arrastada era João Helio.
O nome da criança jogada pelo pai pela janela era Isabella.

Izabella é uma canção de Jimi Hendrix que fala sobre uma luta, uma guerra a ser vencida. Pode ser ou a mulher ou a filha de algum soldado no Vietnã, a guerra dos jornais daqueles dias. Isabella seria o nome que eu daria a uma filha por causa desse rockão do guitarrista. Não mais. O nome e a canção continuam lindos, mas a homenagem nos entristeceria para sempre, a mim e a minha filha.

Nos regozijamos com as recentes noticias pontuais do julgamento do casal na ultima semana. Nos regozijamos com as desgraças alheias. Queríamos e vimos o sofrimento da mãe de Isabella – que também é uma nomenclatura, um cargo, um fardo, um peso carregado pela eternidade – vimos seus depoimentos e uma fração de algo muito parecido com um alivio pessoal ao saber da justiça cumprida e feita aos defenestradores de crianças.
Nos regozijamos com o fato de que eles estarão trancados por décadas.
Esse prazer integra-se ao esquecimento.
Os criminosos devem ser esquecidos, não seus atos ou suas vitimas.
Mas, infelizmente, não consigo apagar da memória o sorriso de Isabella, as lagrimas de sua mãe e as caras dos condenados dentro dos camburões. São como os quadros de Andy Warhol.
É a pop art copiada da realidade e brutalizada, pintada com a carne sem esperança de uma menina que só queria sorrir para sair linda nas fotos.

Um comentário:

LuMa disse...

Belo texto, Nei. Me permito acrescentar que esse quadro de Warhol se multiplicam em gigabytes na rede hoje, para cair no esquecimento amanhã, trocado por alguma traquinagem de Lady Gaga.