Mondocani e a labuta

Mondocani trabalha num lugar onde fazem instrumentos musicais de clave de sol e de fá.
Lá também reformam os instrumentos.
A cada instrumento que passa na mão de Mondocani, ele pensa que a pessoa que ira comprá-lo poderá ser o novo Egberto Gismonti ou Dave Brubeck ou estudara técnicas e solfejos e solos que farão platéias o aplaudirem em pé no final do show pedindo bis por vinte e cinco minutos como fizeram com João Gilberto em Tokyo há alguns anos.
Mondocani sempre acreditou que no vigésimo minuto João já estava no hotel tocando violão para si mesmo, como deve ser o melhor jeito de ouvir João.
Nesse lugar onde Mondocani trabalha, há um outro setor, num outro prédio, em que as pessoas trabalham por obrigação e não por prazer, como faz Mondocani.
Hoje, por um motivo bobo, que poderia ser adiado para amanhã, Mondocani teve que passar por ali para entregar uma papelada.
Ele já trabalhou lá por obrigação e com uma horrorosa e constante sensação de deveres e não de direitos.
Hoje Mondocani passou dois minutos por lá e bastou um pouco mais de uma centena de segundos para que encontrasse um chefe que o odiava. Ambos se ignoraram num corredor estreito. Um indo, outro vindo. Um chefe que Mondocani nem sabe o nome de tanto que o ignorava quando sentia ódio de si mesmo por ter que suportar gente assim para pagar suas contas.
Ficou um gosto amargo no peito de Mondocani que ainda permanece, mesmo depois de voltar para casa e tomar um banho.
O negocio é tocar guitarra - pensa Mondocani.
Agora ele vai plugar a Fender, a pedaleira, amplificador e querer ser Pat Metheny por 20 minutos, dez vezes mais que o tempo que ele ficou naquele buraco dos infernos.
Definitivamente, voltar pelos caminhos de Dante é muito parecido com a sensação de rever um filme ruim, muito ruim, coisa do JB Tanko ou da Tizuka.
Voltar para um local de trabalho onde todos se odeiam, ate mesmo a si próprios, é fazer parte desse filme dos infernos.

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