Responsável por site que pirateia séries diz que TV é obsoleta

O maior pirata da internet mora em algum lugar entre a Itália e a Suécia. Nunca foi processado. Mas nem por isso divulga seu nome verdadeiro.
Atende pelo pseudônimo de NovaKing e é responsável pelo site EZTV, que coloca no ar 120 episódios de séries por semana (incluindo na conta as versões normais e em alta definição).
O endereço funciona no limite da legalidade dos países onde está hospedado, mas não deixa de fazer pirataria ao liberar os programas, de que não detém os direitos autorais, para fora do território americano.
O site Torrent Freak, especializado em cobrir assuntos como a troca de arquivos, estima que atualmente o EZTV seja responsável por 90% dos downloads de seriados.

A popularidade do site vem da confiança na qualidade do conteúdo, com porcentagem muito baixa de arquivos falsos ou com vírus --principal temor de quem baixa arquivos na web.
NovaKing acha esse tamanho exagerado. Mas percebe o crescimento da procura, que para ele está ligado "à sólida base de voluntários ajudando a espalhar cada novo seriado".
O trabalho não é remunerado, e eles não aceitam doações. Funcionam com dinheiro próprio. "Seria ir contra o motivo pelo qual começamos o site. Todo mundo que participa concorda com a natureza não lucrativa do que fazemos."
O site começou há quatro anos e oferecia links para encontrar os programas via chats.Agora ele alimenta fontes como o PirateBay e Torrentz, fazendo o milagre da multiplicação dos arquivos, que ficam disponíveis mesmo se o provedor estiver fora do ar. A assinatura de origem aparece entre colchetes ou em outra cor quando se procura os episódios.
NovaKing diz que isso só aconteceu algumas vezes e nunca propositalmente. "O site falhou por problemas técnicos, azar e ocasiões esporádicas, porque, com o dinheiro que investimos, há momentos que temos dificuldades com os servidores. Seriam necessários mais servidores, mas, por enquanto, é o que podemos manter."
"O modelo de distribuição de hoje é obsoleto. Vemos uma grande lacuna entre o que a TV mostra e o que o público quer. Simplesmente estamos tapando esse buraco enquanto a ideologia mercadológica não alcança o futuro."
Ele defende que as grandes corporações têm de melhorar a tecnologia para fornecer conteúdo. O iTunes mostra que há formas de fazer isso e gerar retorno financeiro. "Tem de haver novos jeitos de permitir ao usuário escolher como e se ele vai pagar por algo. Isso pode ser alcançado com bônus, assinaturas, anúncios nos sites e sistema para pagar por episódio assistido. Os torrents são só mais uma dessas alternativas. Se a indústria quer ser competitiva, não deveria trancar para fora as mudanças tecnológicas. Deveria explorar como usá-las a seu favor."
Sem contar muito como o EZTV funciona, diz que normalmente os programas vão ao ar na medida em que são exibidos na TV americana. "Mas, quando tem seriados fortes --"24 Horas" e "Lost"--, outros que tenham menos procura sofrem atraso. A demanda determina o que sai primeiro."
Conta que o site também tem conteúdo autorizado: "Muitas empresas nos procuraram para poder levar conteúdo para um público alvo grande. Poder acessar séries em alta qualidade quando e onde quiser significa que mais pessoas vão migrar para a internet para ver TV". Isso já é realidade.

Outro lado
Enquanto isso, as grandes emissoras tentam diminuir o impacto da internet nos negócios. Rusell Kline, vice-presidente de operações da Sony para a América Latina, diz que o canal luta contra a pirataria "para aumentar a qualidade dos programas disponíveis".
Ele nega que "Lost" tenha estreado com o menor atraso da história em relação aos EUA por causa dos downloads. "Foi apenas nosso compromisso de oferecer o melhor conteúdo o mais rápido possível."
Kline diz que a internet pode ser complementar à TV e que "estão desenvolvendo modelos para os parceiros e afiliadas".
O problema é que se as TVs demorarem muito para se mexer, vão acabar sofrendo tanto quanto a indústria fonográfica.
Para Ernesto, codinome de um dos maiores especialistas em troca de arquivos, do Torrent Freak, "os downloads deixam claro que ninguém mais precisa perder um episódio de um programa". "Isso cria uma base de fãs muito mais devotada. Barreiras geográficas são coisa do passado. Estúdios deveriam lançar seus programas no mundo todo de uma vez ao invés de atrasar a transmissão fora dos Estados Unidos."
É isso ou sofrer com as consequências da pirataria.

LÚCIA VALENTIM RODRIGUES
da Folha de S.Paulo

Nenhum comentário: