Australopitheca Angustia Sapiens

Quantos séculos foram necessários para a humanidade descer da árvore e tomar conta de todo o solo do planeta? Pode ter sido numa aposta. Por ali havia um tigre de dentes de sabre com labirintite que não subia em árvores, mas no chão era travesso feito um gatinho. Os macacos, em pleno verão, tédio grosso de fazer neblina, resolveram apostar quem desce, quem é bundão. Foi aquele do galho à esquerda. Eu vou, eu vou, grunhiu. E saltou pro crau. Mais dois séculos de tédio e calorão subsaariano.
Duzentos anos depois, sem vontade de rir ou de abrir os olhos, um deles saltou e nada disse. Sumiu. E foi andando em pé pra olhar ao redor com mais atenção. Vai que tem um bisneto daquele dentuço.
Foi o tédio e a depressão que ele causa que fez a humanidade saltar para o futuro. Quase como Neil Armstrong na lua. Não que o astronauta estivesse entediado, mas os militares americanos sim. Porque, ao invés de ir pra lua, não foram ao cinema assistir o 2001 de Kubrick? Já estava passando e as imagens são muito melhores que as da nasa.
Deve ter sido numa tarde de chuva de verão que o faraó Amenotep IV mudou toda teologia milenar do Egito e adotou o sol como deus único. Passada a chuva, o tédio imperial voltou ao palácio. Mas como palavra de rei não volta atrás, também resolveu mudar o nome pra Akenaton IV, o filho do sol. E olha que uma das esposas dele era Nefertiti, lindona, rainha, toda toda. E assim ficou de deus único, nome trocado e tédio até morrer.
De tristeza em tristeza, conta-se o dia a dia dos poderosos e dos comuns. Dos comuns eu sei dos meus.
Muito triste com tanto calhorda no mundo, na madrugada anterior a sua morte, Jesus chorou lágrimas de sangue no Jardim das Oliveiras. Se um bom oftalmologista estivesse acordado em Jerusalém, a história não seria tão dramática e nem o Mel Gibson iria faturar milhões. Aliás, não foi só ele que faturou e fatura milhões com essa morte.
De gente triste e sem gargalhada, tem a Joana D’Arc que saiu do armário, entrou numa armadura, criou o maior barraco e virou santa. Irônico, uma sapata que é santa. Bichinhas é que são santas.
No século XX, as angústias tomam formas atômicas, anatômicas e quânticas. Freudianas também, mas são outros parágrafos. O átomo, etimologicamente “não divisível”, foi retalhado e dividido pelos cientistas nos mínimos detalhes até chegarem na partícula de deus. E então criaram a maior máquina do mundo no subsolo da Suíça para chegarem no tijolinho dos tijolinhos que fazem essa cadeira que você está sentado ficar inteira.
Nessa brincadeira atômica, o que encafifa, senão, entristece, é o fato de que o espaço entre o núcleo e a nuvem de elétrons é infinitamente maior que as partículas sólidas que compõe o átomo. Ou seja, tudo é composto de grandes espaços vazios, eu, você, essa cadeira. Somos todos uma universal fraude material.
Mas quando duas grandes fraudes materiais se encontram numa esquina a uma certa velocidade, o prejuízo e a angústia são explicitas.
Saco, não cheguei a lugar nenhum. Havia escrito um final completamente diferente para o tema. A idéia era atravessar a historia desde os primórdios ate agorinha a pouco, eu, microcosmo, microcomputador, salvar, postar e ir fazer outra coisa. Mas não. Tenho que me explicar, dar luz às trevas dos meus erros. Somos assim, erramos, consertamos e ficamos tristes. Pulamos da árvore para saciar a curiosidade de uma tarde de domingo. Exploramos um quintal, outro e tudo o que a vista alcança. Desde o tigre dos dentes de sabre, demos aula aos cinco sentidos em nome do egoísmo da sabedoria pessoal, da gargalhada geral, das emoções a dois.
Então tá.

2 comentários:

adriana nolasco disse...

sensacional. lindo. poético. um bom soco no estômago pra começar a semana. então tá!

nei, vc já leu o livro "sayonara, gangsters" do genishiro takahashi? me lembrou vc.

Leonardo Priori disse...

kkkkkkk