Mórbidos vivem pra contar

Morreu um operador de torno mecânico num vilarejo lá no interior da Bulgária. Considerando que a Bulgária é quase toda interior, então não vale. E também é muito longe.
Então morreu um capinador de beira de estrada de terra logo ali entre o Espírito Santo e Salvador – o que daria uma excelente metáfora, mas não, é apenas geografia - que faz isso por falta de opção e por uns trocos dos donos das terras. Morreu bem morto. Onde mal passava uma bicicleta, foram passar com um caminhão e ele, o capinador, resolveu ajudar o motorista do bruto nas manobras de vai e vem, mais pra cá, mais pra lá, o tonelada escorregou num canto comido pela erosão e tombou em cima do capinador. Família, amigos, meeiros, senhores das terras, turistas, quem passasse ali, dias depois, veria a cruz feita de dois paus atravessados, amarrados com cadarço preto de Vulcabrás, daquele que não se vê mais por ai.
Foram perguntar onde arrumaram aquele cadarço. Foi de um par que me deram por conta de fazer a cerca meio metro pra fora da divisa, disse um velho.
Meio metro é pouco? Faz essa conta com mais de vinte quilômetros de arame farpado.
Também morreu um motorista de ônibus que fazia a linha Canindé 261P. Não foi trabalhando, mas foi quase tão passional quanto o operário búlgaro. Foi à toa. Morreu tão à toa que está no céu se perguntando “mas que diabo eu to fazendo aqui?”.
Recentemente, o motorista casou-se com a vizinha de muro. Desde pequenos iam juntos a escola e dividiam pastel de feira. Deu em altar. Numa tarde, ela entrou no ônibus e fizeram de conta que não se conheciam. Ficaram de olhares pelo retrovisor. Lindo, o amor é lindo. No final do dia, o cobrador, um pretinho de sorriso largo e dreadlocks coloridos como um tambor baiano, falou ingenuamente “lá pelas quatro, no ponto da padaria no Catumbi, viu a morena que subiu? Na hora de dar o troco, passei um bilhetinho com meu celular”. Morena? Padaria? Catumbi? Bilhetinho? Era a patroa vindo da casa da sogra. Bem que eu devia ter convidado ele pro casamento. Mas preto lá em casa, o sogro não ia gostar.
Ligou pra mulher e falou que ia ao bilhar com os amigos de garagem, um mecânico e dois fiscais. Ela disse cuidado que começou a ventar forte. Claro, amor. Nada disso. Seguiu o neguinho para saber como era a cara da patroa dele. Se ele conheceu a minha, eu vou saber da dele. Chegou lá, a mulher era uma preta numa cadeira de rodas, as crianças ajudando nos afazeres da casa e uma luz de felicidade que comovia.
Abandonou a idéia, não sabia qual, mas abandonou qualquer idéia e desceu a rua até o carro que tinha ficado escondido numa quebrada. Com o vento forte, as arvores balançavam. Tudo balançava. A poucos passos do carro, uma antena parabólica desprendeu-se e caiu na cabeça do motorista. Passaram horas até que alguém descobrisse que havia um corpo com a cabeça esmagada embaixo daquela antena enorme.
Um monte de gente de fé, até mesmo de boa fé, diz que o destino já esta traçado antes mesmo da alma juntar com o corpo. Parece ser mais fácil explicar certas coisas humanas assim.
Mas se nascesse, ia ser menina. Se crescesse e passasse dos dez anos, ia estudar num reformatório porque aos nove ia meter a cara na cola. Mas não ia estudar, não ia ser nada, nem ia chegar aos quinze porque aos catorze ia ser jogada da ponte por dois mendigos sem nome, o Zé e o Zé.
Mas não nasceu porque entre olhos cerrados e caras contorcidas, ele gozou fora, bem longe do destino traçado. E ela fechou as pernas, aliviada.
O búlgaro morreu com um descarrego de tiros no peito. Estava de folguedo com a mulher do chefe, na casa do chefe, na cama do chefe. O chefe tinha uma pistola russa de origem duvidosa e chegou mais cedo com a cabeça muito cheia de vodka. Pelo corredor do sobrado proletário dos tempos dos tanques, viu quatro pernas no reflexo do espelho da penteadeira, voltou pro carro, encheu o tambor com cinco balas e voltou pé ante pé para dentro. Gritou “Nicolai, meu amado filho da puta!” e descansou o dedo no gatilho.

2 comentários:

rnt disse...

eu coraçãozinho estrovenga

Leonardo Priori disse...

Não há se. Se houvesse haveria de não ser se. Acontece o que acontece. E irá acontecer o que irá acontecer. Nada muda isso. Tudo é isso. Nada não é algo. Tudo está a se mover. O tempo não para. Morreu, se fudeu! Adeus!