Sem pendão

Fecho os olhos e vejo o mar.
Mentira, quem dera toda a minha lírica viesse tão lírica assim. Ou viesse no colo de espíritos em sedas e tules flutuantes como ventos de cinema 3D.

Fecho os olhos e simplesmente durmo. Comumente só tenho fechado os olhos para verbos corretos, fisiológicos e assertivos, sem mais delongas poéticas, canções matutinas, solilóquios ou odes a estrelas cadentes.

Melros e rouxinóis cantam mais e melhor do que qualquer eu, abertos os olhos ou não.

Fecho os olhos e vejo a tristeza das enchentes do Pernambuco sob as águas explosivas em Palmares.
Vejo os idosos desempregados de Osaka jogando xadrez na praça esperando o grito do pão de hoje vindo de cima do caminhão.

Lembro e vejo o homem no Anhangabaú olhando a vida de todos, medindo a sombra de outros, perverso e pobre, o miserável tragicômico homem sem casa nem presença com o cu duro sentado no banco de concreto.

Não vejo hordas de guerreiros cortando as planícies para salvarem a puta prometida de Lancelot.
Nem tampouco Lancelot.
Nem a puta, nem promessas.

Mas sei de todos eles, e também de assassinos vorazes, de passionais terroristas embrulhados em bandeiras fedorentas de sangue patriótico, exibindo suprema falta de sei lá, esperança?

Não fecho os olhos, não fecho a boca e sirvo ligeira cusparada, sem nobreza e frívola, pensando que em pouco mais de minutos vou gastar minha cota de vida sem perceber se sortilégio ou obrigação.

E sem pendão.

Um comentário:

Patricia Daltro disse...

O que mais me impressiona é que cada vez mais a gente se "educa" a fechar mais os olhos...