A búlgara

Entre os aeroportos de Centrair, em Nagoya e Narita, em Tokyo, há um vôo matinal para facilitar as inúmeras conexões que virão durante o dia.
Saem vôos simultâneos entre os dois aeroportos. Uma hora de vôo, coisa rápida.
Quando descemos em Narita, houve um alvoroço pelos corredores, somado a funcionários com setinhas em japonês e inglês, malas e rodinhas dando encontrões e muitas escadas rolantes. Corre-corre seguindo as setinhas indicando os portões para as conexões.

No meu grupo havia uma velha muito branca, olhos claros e uma mala de mão cujas rodinhas não entendiam a tensão do momento. Ajudei-a em muitas escadas. No final das contas, puxei a mala rebelde por todo o trajeto até a ala dos portões de embarque.
Quando finalmente cheguei ao meu portão – cuja pressa se fez desnecessária, pois só embarcaria dali a cinco horas e o balcão da empresa aérea nem estava aberto – sentei, comprei uma água, tirei um livro e vi, perdida entre pessoas do mundo inteiro, papéis na mão, mala no chão, pelos corredores, a velhinha.
Ela andou pra lá. Depois pra cá. E parou. Encontrou meus olhos, o fiel carregador da mala. Fui até lá e perguntei em inglês se ela precisava de ajuda. Não, ela não falava inglês. Pedi para ver os papéis, ela ficou desconfiada, mas diante da situação e da minha cara bonacha, cedeu. Nós estávamos no portão 11 leste, ela teria que embarcar no portão 25 oeste, do outro lado do lado de lá do aeroporto. Fomos a um balcão de informações e a moça disse que não sabia de nada da ala oeste do aeroporto, mas indicou o caminho.
Depois de várias calçadas rolantes, corredores infinitos, japoneses, indianos, esquimós e europeus, chegamos ao portão 25-oeste.
Era um vôo que sairia dali a meia hora, para Moscou.

- Ah, então a senhora é russa?
- No, bulgarian!

Comecei a cantar o refrão de uma canção chamada Chope Chope, que consta num desses inúmeros álbuns de corais de vozes búlgaras que lançaram na onda new age na world music nos anos 90.

(Fui agora pegar o cd, Chope Chope, no dialeto daquele lugar quer dizer "gostosinha, gostosinha" ou "lindinha, lindinha", ou algo assim, por isso ela fez uma cara estranha ao reconhecer a canção na boca de um japonês brasileiro).
Comprei uma água pra ela também. Seu nome é Sra. Petrovic, mora na Sérvia. A filha dá aulas de inglês em Nagoya, o genro cuida de um bar jamaicano e tem duas netas: Ângela e Hanna, que nasceu no Japão.
Esperei até ela embarcar. Falamos coisas com gestos e desenhos que sumiram no tempo e no ralo da memória.
Em Belgrado, ela andava assistindo a uma novela global com a grande heroína brasileira chamada Esmeralda.

Um comentário:

Taty disse...

hahahahahhahaha pqp... soh podia vir de vc