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Storyboard de Akira Kurosawa para o filme "RAN"





O mundo ainda é uma só solidão. Tudo é tão 101010 binário, e nada confirma sua existência a não ser o clarão quadrado me encarando nesse momento. No seu/nosso momento. Yoko Ono autoriza o uso de músicas de John Lennon em comerciais. Seria Yoko Huno? Paul McCartney toca velhas canções há 30 anos. O aeroporto de Liverpool chama-se John Lennon. Mark Chapman disse que matou Lennon para tornar-se alguém. Chega de gente morta ou coisa parecida. Mineiros chilenos saindo pelo buraco chileno, isso não é uma metáfora. Lama tóxica húngara espalha-se pelo país: fedorenta, radioativa, metálica, assassina, é vermelha e isso também não é uma metáfora. Tempo nublado na capital paulista. Chuva na minha cidade no Japão. Muito spam e pouca coisa relevante na minha caixa. Hoje escrevi-respondi num e-mail para um amigo:

Fim de inverno tem que ser meio bêbado, não? Do vinho quente para dry martinis happy happy. Logo a cerveja sai da geladeira e vai pra praia. Sim, fim de verão por dentro e por fora. Chuvas de outono. Yuyakes vermelhos como um inferno de Kurosawa. Yuyake é pôr do sol. Em tudo, um bocado de sorte e carinho. Deve estar chegando. Que direi aos fieis de Deus? Besos!”

O que chegara são originais de um livro. O que direi? Digo que Akira Kurosawa está no seu centenário e quando descobriu que podia por em movimento todas as cenas de sua imaginação, queimou todos seus quadros. Foram, sem dúvida, os melhores storyboards que a humanidade jamais viu. Da janela de onde estou, vejo um mundo lilás se desfazendo em satisfação e tenazes gotas de chuva suicidas se jogando do telhado. Escrevo Deus em maiúscula porque esse é o titulo do livro. Não seria falta de respeito escrever em letra minúscula, nem com a entidade, nem com o autor. Geralmente escrevo sobre a entidade em minúscula e neste caso sempre cabe uma pitada de inconformismo. Tem o vídeo “Ruta de Colisión”, uma música de um velho e distante amigo, muito terno e querido. A vida avança e com ela seus temores, em contrapartida, os grandes poetas conosco seguem e deixam tais legados. Por isso comemorar é a chave. Ir até a padaria pode ser a festa de hoje. Por essas e outras, passo dias sem pão, mas nunca deixo de ir. Torcedores do Corinthians fazem protesto, não vêem o time ganhar há quatro jogos. Rivelino, Zenon e Neto, todos camisa 10 e se não fazem falta há anos, fazem há quatro míseros jogos. Café quente e forte faz um dia melhor. Nesses dias descobri que tenho sérios problemas com o adorável Fá Sustenido. Ontem, Nanci e eu encontramos o Paulão todo guapo num restaurante italiano, camisa nova, namorada nova. Todo grande conquistador adentra pela América sorridente até que encontra o Pacifico. Hoje é dia dez, mês dez, ano dez e nada mudou a não ser o que tinha que mudar. Até meia noite, garanto, o mundo não vai acabar, mas os místicos ficam em espoletada polvorosa fazendo álgebras da alma e rezas puídas de cadernos amarelados em busca de respostas em céus de Vênus e pipas. O uníssono me enfastia, acho que é hora de oitavar. Felizmente, meus dias são musicais, mas faço de tudo pelo musicaos. Chamo isso de anarquia sonora, invencionismo adolescente, leviandade bluesy e curiosidade atonal. Viva Anton Webern e o serialismo musical! Viva Tiririca e o sarrismo estatal! Viva quem está e esteve vivo.


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