Happy Hour


Quase todo dia, depois das cinco, a gente se reúne para fazer uma jam. Instrumento não falta, afinal, restauramos pianos. Mas Kambe e eu levamos nossos violões, além de um baixo, acordeon e uma mini bateria. De vez em quando levo minha guitarra. Já deixei um ampli sobressalente por lá pra facilitar.

Ontem estávamos fazendo improvisações bluesy com piano e violão, Takashi e eu. Quando ele começou a solar no piano, iniciei um batuque no violão, imaginei que ia soar algo ao redor de Jorge Benjor, com um meia-cauda Steinway tentando soar honky tonk e os meus dedos cutucando a caixa do violão.
De repente, ele parou de solar e disse com as mãos postas feito "O Grito", de Munch:

- O que é isso? Isso é fantástico! - todo o diálogo em japonês.
- Isso é samba.
- Puxa, nunca ouvi isso ao vivo!

E então, fui numa tecla Lá e fiz "Samba de Uma Nota Só", do Jobim. Ele disse que conhecia Jobim da versão dos jazzistas, mas que não tinha ouvido com o suingue de um dedo brasileiro, numa única nota, assim, ao vivo.
E então, tentou. Tentou de novo. Mais uma vez. Não rolou. Ele não conseguiu tocar um único compasso com uma única nota por causa da divisão rítmica ser absolutamente incompreensível para ele e outros gringos. Expliquei João Gilberto e os 1 minuto e 58 segundos de "Chega de Saudade" e como isso mudou toda a perspectiva da música ocidental. A mim, eu disse, João e um violão estão à frente de uma bateria de escola de samba, como se ele compartimentasse e resumisse tudo naquela singeleza, no absoluto respeito e equilibrio entre som e silêncio.

- Você tem cd de bossa nova?
- Muitos!

Outro dia assisti ao vídeo da canção "Ruta de Colisión", de Fernando Cea Nuñez e percebi o quanto a nossa mão direita conta pontos ao tocarmos violão ou guitarra. O quanto isso é natural para nós, pois ouvimos isso desde crianças.
Houve uma ocasião num bar em Madrid, com o Cea e um amigo americano e ele não acreditou que eu estava batucando samba na mesa. ele disse:

- Nunca imaginei que fosse ver um japonês tocando samba!
- Mas ele não é japonês. Ele é brasileiro.


5 comentários:

Anônimo disse...

Você talvez possa dar dois bons presentes a ele: o primeiro é o DVD do filme Os Desafinados, que mostra muita coisa que aconteceu. Com ele pode vir o CD da trilha sonora, a cargo de Wagner Tiso. Ele não equecerá. O segundo é o CD Passarim, o último do Tom Jobim, e com a família CAymi Depois disso ele vai estar com a orelha pronta para mudar de opinião. Boa sorte.

Erika disse...

É,é... e, hoje, o povo brasileiro nem dá valor para a cultura musical do seu país... Muita gente nem sabe de "Samba de uma Nota Só", ou "Chega de Saudade". Triste.

TARCIO VIU ASSIM disse...

É verdade que o Japão em geral tem paixão pela Bossa Nova? Em que medida? E BN não é um tipo de samba com preguiça (ou vergonha?) de ser Samba?

Nei kS disse...

Erika: É verdade.

Tárcio: A bossa é a bossa. A maioria acha que música brasileira é só samba. E que maracatu é um samba errado.
Não é.

Diva L. disse...

Confesso, fiquei roxa de invejinha. Que momento delicioso, não?! A nossa música transcende as definições. Samba, Bossa Nova, Maracatu...Ai, adoro a batida do maracatu, afinal, sou do Recife, não dava pra ser diferente.

Preciso dizer que adorei o post? Preciso com certeza! Ameiiii!!!

Bjo grande e abraço na alma.