Dias meses anos século 20 - em 2010



Eu no colo de Sadaharu Ueda, meu avô - Vila Carrão, setembro de 1965













Nessa época do ano nos voltamos para o futuro na certeza de que a paisagem será melhor. O caminho é o mesmo, inevitável e soberbo em surpresas e realizações, mas temos, sempre, esperança nessa sensação temporal que nunca chega, mas sempre está por vir.

Por tal possibilidade, nos esquecemos de olhar para os próprios pés e ver se sabemos lidar com todo o pó que carregamos. Tudo que somos e fomos para nós - olhando-se no espelho, no reflexo da lagoa de Narciso ou deixando-se refletir sob o manto e julgo de outros - está nas sandálias que sempre temos para o caminho. As sandálias são os verdadeiros e únicos instrumentos que temos para que a nossa tímida nudez e fragilidade não caia diante das pedras de Drummond.

Mas hoje lembrei do meu avô. Lembrei por lembrar. Mentira, tava na verdade fuçando numas fotos antigas. Talvez ele nunca tenha lido Drummond ou qualquer coisa sobre a mitologia grega. Ele não era muito disso. Ele teve uma infância e juventude muito próxima da decadência do período dos últimos samurais vivos nas primeiras décadas do século 20, que naqueles anos deviam ser tão velhos quanto ele seria hoje em dia. Ele teria mais de 90, muito perto dos 100.

Sadaharu Ueda nasceu junto com Sadao Ueda em Osaka e eram iguais feito dois ovos. Diz a lenda - e lenda contada por mãe vale por dois - que uma dessas velhas curandeiras de Osaka dissera que os gêmeos nascidos naquele ano, mês e dia não poderiam viver juntos porque trariam azar para si e para toda a família. Foram separados. Um foi viver com uma prima ou tia e outro ficou em casa. Foram criados como únicos, sem nunca saberem de seu reflexo sem espelho.

Anos depois, Sadaharu e Sadao se reencontraram na escola, no primeiro ano letivo. Deve ter sido muito estranho, pois pelo que me lembro, eles eram exatamente o mesmo em dois lugares diferentes. Depois disso, nunca mais se separaram.

Chegaram no Brasil em 1933. O pai deles, Eigoro Ueda, comprou terras no norte do Paraná e por lá viveu até os anos 60 com plantações, loja de móveis, academia de judô e um cinema. Meu avô era fã de Gary Cooper. Sempre me mostrava uma foto dele.
A minha bisa odiou essa terra roxa de feijão salgado, calor insuportável, pretos e brancos fedidos e voltou para o Japão depois da segunda guerra para viver ao lado da filha que havia sido prometida em casamento num desses jogos de famílias. Nunca conheci nenhuma das duas e ambas morreram esquecida por nós.

Não sei se meu bisa, esse senhor Eigoro, queria que seus restos fossem transladados para o Japão ou qualquer coisa assim, mas diz outra lenda que depois dele ter sido enterrado no cemitério de Assaí, nasceu uma árvore em cima do local e que depois essa árvore foi rachada no meio numa tempestade de raios e trovões.
Bisavô Harry Potter? Também não sei se acharam ele no meio das raízes, cinzas e o trouxeram para cá. Parece que sim.

Meu avô e seus irmão saíram do interior do Paraná e foram morar em São Paulo. Meu avô virou motorista de taxi e minha avó, dona de pensão ali perto da 25 de março. Minha vida inteira sempre esteve ligada a esse pedaço da capital.

Meu pai era pensionista e minha mãe a filha mais velha. A paquera parecia inevitável.
De lá para cá, mudei tanto de opinião, amores, vontades, sensações que percebo que só me restaram, de fato, as sandálias e o caminho.
E tento, com todas vaidades e os pés molhados na lagoa de Narciso, carregar para 2011 as sandálias e o olhar apenas para curtir o caminho.

Um comentário:

Rita Almeida Pinto disse...

Nei, querido! Que lindo texto.
Que delícia de história, que riqueza de detalhes.
Obrigada por compartilhar com a gente mais um pouco sobre você, sobre suas origens.
Beijo enorme