Frio

Quando a gente vive no hemisfério norte aprende que o frio é frio e não apenas um período do ano em que não usamos tanto as bermudas.
Ou aqueles dias maravilhosos com os melhores amigos em Monte Verde.
O frio caminha pelas ruas, pelos fios de alta tensão, pelos andaimes. O frio salta ao lado do suicida e explode tão bravamente quanto o corpo nas linhas do trem. O frio antecede o gole no conhaque.
Sem conhaque, o frio julga os homens pela quantidade de panos que cobrem seus corpos.
As poças d'água amanhecem congeladas, tesas como vidro. Trincam quando pisamos neles. Eu pulo em cima pra me sentir Godzilla.
Raspa-se o limpador de pára-brisas no gelo que envolve o carro, o mecânico, o guarda, a multa, o filme francês dos pinguins. O frio surpreende e não diz bom dia, não saúda a manhã.
Quanto mais frio, mais xingamos as mães dos outros.
Há muitos anos atrás a minha mãe deixou um cobertor com estampas de onça aqui em casa. Leoparda? Tigresa? Gatona? Nunca vou entender os pormenores estéticos dela. Mas pelo menos me aquece como um colo. Virou o cobertor do sofá, de ver os Sopranos, House, Vito Takeshi e sua troupe de amigos, amigas e fanfarrões japa-felinianos num programa de auditório bem boboca. Ver no jornal das nove o weather report dizer da chuva na minha cachola, do calor de São Paulo ou das nevascas pantagruélicas do leste europeu.
Menos de zero em vários lugares do mapa. Menos de zero no coração de muita gente.
Tudo é muito sofisticado e fashion nos objetos e brinquedos para fugir do frio. Caçarola de fondue, bota preta de couro mulher-gato no portão de Gotham City, cachecol Burberry toalha de mesa com provolone derretido escorrendo pelas bordas. Água quente no ombro para espantar tensões e sorrisos de sorvete.
A queda da venda de sorvete não é assim tão abrupta como se imagina. Não se toma tanto quanto nos mormaços de agosto, mas não deixam de tomar. Se por essas e outras os japoneses são loucos, são, evidentemente, originais.
Leitinho morno para chamar cochilo. Cochilo para chamar um livro. Um livro o mais dentro possível das cobertas e do futôn. Meia grossa senão o pé gela e calçar meias pelo prazer indubitável de tê-las nos pés.
Tem gente que gosta de bonés. Eu gosto de meias.
É apenas uma questão de qual hemisfério do corpo vai estar coberto.

4 comentários:

rnt disse...

ó o caderno h ali em cima ;)
"cachecol Burberry toalha de mesa com provolone derretido escorrendo pelas bordas"
ai, ateh visualisei.
adorei esse post. bjo

Rita Almeida Pinto disse...

Nei, querido
Que delícia de texto! Eu, que adoro frio, já me imaginei colocando meias quentinhas e coloridas e me enfiando com um livro embaixo de um futôn. Se tivesse uma tigelinha com missoshiro fumegante, melhor ainda!
Beijos!

Gustavo disse...

cronica perfeita sobre o tempo.


e aqui faz em media 78 graus.horrivel.
nao aguento esses extremos. isso que e POA.

mas bermuda ventilador e quinze cervejas nao resolvem.
nao da pra dormir.


so da pra dormir na primavera. ponto.

TARCIO VIU ASSIM disse...

Pode parecer meio desanimador um frio desses, descrito dessa forma, mas continua sendo o sonho de "consumo" de todo sertanejo pisar em poça de água congelada e bater o queixo debaixo de 4 cobertores. Porque sol a pino e 40 graus todas as 12 horas dos 360 dias do ano é de lascar.